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OBRA DE ARTE DA SEMANA | Os olhos fechados, de Odilon Redon

À primeira vista, a cena aparenta ser a de uma mulher, com os olhos fechados, os ombros nus. Os cabelos são longos, a expressão diz pouco, e da obra emana algo vaporoso da interioridade no instante íntimo, mas dá indícios de um tom sagrado na obra. A confusão sobre o tema e a figura é permanente e alimenta as interpretações no ponto central da obra Os olhos fechados (Les yeux clos, 1890), de Odilon Redon.

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Dividido em duas partes, a composição apresenta uma água opaca, com um brilho central, onde o reflexo do corpo não é visto. Isso oferece uma quebra nos dois espaços, como se a água fosse um bloco que varia entre o translúcido e o opaco. O curioso efeito aos olhos do observador reside no contraste entre essa massa de tinta branca e o resto da tela, que une fundo e água em lilás.

A figura também parece dual, remontando às representações de Cristo, o que daria a essa água, então, algo de sagrado. Há um movimento no traço do ombro, com o esboço deixado aparente, o que dá ao corpo esse mover-se em onda fantasmática, indica o espaço onde esse corpo se desloca.

Se os olhos da figura não retornam o olhar ao observador, o que há para se saber? É uma obra do não-dito, do onírico. De uma grande pausa meditativa, entre a melancolia e a serenidade, um confronto aos olhos que buscam definir e organizar um quadro em um tema, gênero e técnica. Os olhos do próprio observador são seduzidos ao brilho da água, no lugar exato onde estaria o reflexo do rosto. Nesse espaço nos é negado a expectativa do reflexo, de certa normalidade dos sentidos. Só há essa mancha inexplicável, que promove um deslocamento que é o próprio ato de ver.

Nos comentários sobre a obra pelo Musée D’Orsay, afirma-se:

“Os olhos fechados do sono ou da morte [que] evocam o mundo interior, o sonho, a ausência ou a aparência, temas férteis em Odilon Redon, como ele conta em A soi-même, seu diário publicado em 1922. A diluição extrema da tinta a torna quase imaterial, deixando visível o grão da tela. O busto parece flutuar em um espaço que o artista deixa indefinido”.

Na mancha branca que chama nossos olhos, está a bem-vinda confusão dos sentidos, em desconhecermos se são olhos fechados pelo sono ou pela morte. Não difere do grande mistério que reside em olhar os olhos dos outros, de encontrar esse vácuo inexplicável. A ironia está numa obra que, pelos olhos fechados, velados, incita a ver: se instigar pela mancha, pela interioridade, por tudo aquilo que não se vê. Como lançar uma pedra numa água para vê-la se tornar turva.

Há também o próprio ato da respiração nesses olhos fechados, que negam por um instante o real e os estímulos, para se concentrar nas águas, no silêncio que revela. Não é uma negação completa do real: é um reconhecimento do corpo nesse real. Por vezes, o desafio humano está em constatar que se pode abrir os olhos de outras formas durante a vida, que o seu movimento é sempre entre o abrir-se e o fechar-se.

Ademais, o texto do Musée D’Orsay chega a dizer que esse é “sem dúvida um retrato da esposa Camille Falte”. Odilon Redon se apoiava bastante no mistério e no ato da fantasia da pintura simbolista. Procurar as suas outras obras é como adentrar em um mundo colorido imaginado, entre borboletas e flores.

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Butterflies, 1910
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Pandora, 1914

Por isso mesmo, ele toma o sagrado entre esse gesto comum da intimidade, fundindo, numa possível interpretação, a imagem da esposa com Cristo. Na pintura de 1897, Cristo em silêncio, conseguimos encontrar as correspondências dos olhos fechados. Somado a isso, haveria também uma referência aos bustos de Francesco Laurana, como Busto de uma mulher (Bust of a Lady, 1470).

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Le Christ du silence, 1897
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Bust of a lady, Francesco Laurana, 1470

Com essa soma de referências, Os olhos fechados, de Odilon Redon, incita a recriar a serenidade da contemplação. Na jovem de Francesco Laurana, no próprio Cristo de Redon, está essa proposta de ver com os olhos fechados o próprio silêncio e vazio. E unifica o observador à oração sagrada dos momentos.

Referências bibliográficas

Musée D’Orsay

DIXON, Christine. Masterpieces from Paris: Van Gogh, Cézanne, Gauguin and beyond Post-Impressionism from the Musée d’Orsay exhibition book. National Gallery of Australia, Canberra 2009 (site)

Créditos de imagem:  © Musée d’Orsay, dist.RMN / Patrice Schmidt

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A praia e o mar por Eugène Boudin

chegada da tempestade boudin

Publicado no site Artrianon (abril)

O ar revolto do mar, o conflito da água com o céu, a expansividade das nuvens pesadas enunciando a chuva. E o repouso do público cativo na areia, desse novo modo de vida, de buscar a praia como descanso. Eugène Boudin foi cativado, entre seus trabalhos, pela mudança de atmosfera das praias e, arranjando-se na técnica impressionista, registrou os instantes de luz entre areia e mar.

Nascido na Normandia em 1824, Boudin conviveu com o pai marinheiro em uma das primeiras embarcações a vapor que corriam entre Le Havre e Honfleur. Essa experiência vendo o mar é importante como parte de sua trajetória e no encantamento pelos fenômenos. Discípulo de Corot, há um alinhamento entre as ideias de ambos quando consideramos os seus registros. Corot disse “submetamo-nos à nossa primeira impressão. Se realmente nos comovermos, a sinceridade da nossa emoção será transmitida a outros”. Boudin, por sua vez, falou a um aluno “a impressão é obtida em um instante, mas deve ser condensada seguindo as regras da arte, ou melhor, o seu próprio sentimento, e isso é a coisa mais difícil – terminar uma pintura sem estragar nada”. Essa conjunção da fala dos dois revela a base estrutural da técnica impressionista, registrar a atmosfera e a sensação em conjunto na observação de uma cena na vida ordinária.

Prenunciava-se, com Boudin, as tendências impressionistas. Corot o chamou de “o rei dos céus”. Monet encontrou nele, então, o frescor da sensação que viria a ser o seu enfoque anos depois, por ter trabalhado quando adolescente ao lado de Boudin. O pintor costumava fazer esboços, no verão, a partir de suas viagens. E os terminava em seu estúdio em Paris, durante o inverno. Ele chegou a dizer que “tudo o que é pintado diretamente e no local sempre tem uma força, um poder, uma vivacidade de toque que não se pode recuperar no estúdio”. O hábito dele era ficar entre a Normandia e a Bretanha, uma costa que inspirou igualmente Monet em suas cenas plein air de montanhas e gramados no limite em face ao mar. Embora Boudin tenha feito também pinturas voltadas às paisagens do interior, cenas de camponeses e naturezas-mortas, o fascínio exercido pelo litoral, pelos espaços da praia e do mar, foi um forte elemento entre seus quadros.

Em 1862, ele começou a pintar o amontoado de turistas que passavam férias nos resorts de praia da Normandia. Essas imagens, as mais conhecidas, eram muito comercializadas, até mesmo indicando que a pintura passa a ser parte de imagens de difusão de uma classe, por gravuras e fotos mais acessíveis do que o quadro.

A série de quadros na praia revela o trabalho concentrado, de Boudin, em representar a atmosfera e as alterações de luz em um mesmo espaço diante dos olhos. A Chegada da Tempestade (Approaching Storm), quadro de 1864, é o exemplo claro de uma obra que transmite o sentimento da observação do artista. A escolha em aplicar uma sombra que se expande pela areia, onde as pessoas se abrigam, o vento que levanta a borda da saia de uma dama, já abrigada com um casaco preto. Tudo anuncia o temor da tempestade, a queda de temperatura, o instante exato da transição não apenas de um clima, mas de um humor: da celebração e do lazer ao recolhimento quase melancólico. No céu, as nuvens são muito cinzas e maciças, e o sentimento claustrofóbico de ameaça preenche o quadro inteiro, juntamente com a cor.

Parece que o pincel acaba sendo regido pelo sentimento da impressão observada. Para verificar as alterações na praia, podemos ver o trabalho de cor em outros quadros de Boudin. Em Cena de praia (Beach Scene, 1862), o céu é limpo, vemos mais fatos acontecendo, como uma dama andando com a sombrinha, pessoas sentadas, um rapaz brincando com o cachorro. A tranquilidade está no sentimento de espera e fluidez no tempo.

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Beach Scene, 1862

Praia em Villerville (The Beach at Villerville, 1864) anuncia o crepúsculo, com o cinza já querendo tomar o espaço do laranja. As pessoas se agrupam, nos últimos instantes de descanso antes de ir embora de mais um passeio. Damas andam e conversam, venta um pouco, o cachorro contempla esperando a multidão decidir partir. A sensação que o quadro dá é de apreciação antes do fim, e não de uma interrupção pela tempestade. Outra versão semelhante é Figuras na praia em Trouville (Figures on the Beach in Trouville, 1869), onde os personagens estão enfileirados, em vez de amontoados. Parecem olhar o sol ir embora, e o céu está mais laranja e adocicado.

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The Beach at Villerville, 1864

 

Museo Thyssen- Bornemisza
Figures on the Beach in Trouville, 1869

Para comparar com uma obra feita anos depois, em 1885, o quadro Mares tempestuosos (Rough Seas) a cena já ganha uma pincelada mais agressiva, o cinza tem mais frescor. Parece tão molhado quanto a própria tempestade. As ondas são de um branco pouco diluído, e tudo leva a parecer que testemunhamos a aflição do barco no perigo marítimo.

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Rough seas, 1885

Nota-se o projeto de Boudin em se aperfeiçoar pela técnica impressionista. De forma quase humilde, o pintor chegou a afirmar: “posso muito bem ter tido alguma pequena influência sobre o movimento que levou os pintores a estudarem a luz do dia real e a expressar os aspectos mutáveis ​​do céu com a máxima sinceridade”. Com isso, Eugène Boudin reinou nos céus mutáveis da impressão para que outros, como Monet, seguissem observando o fenômeno nas cores fugidias do mundo.

Referências bibliográficas 

National Gallery of Art 

SCHAPIRO, Meyer. Impressionismo: reflexões e percepções. Tradução: Ana Luiza Dantas Borges. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

Descubra o que a NASA fotografou do universo no seu aniversário

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O universo é vasto. E, ainda assim, as descobertas incomensuráveis da NASA conseguem nos dar, a cada dia, novos vislumbres. No caso, o Hubble explora o universo 24 horas por dia, 7 dias por semana. Isso significa que ele observou alguma maravilha cósmica fascinante todos os dias do ano, inclusive no seu aniversário.

Você pode conferir o seu clicando aqui, e ver o que o telescópio registrou no dia. Só precisa incluir o dia e mês de aniversário no site da NASA. Assim, você verá a imagem feita pelo Hubble, e ainda uma descrição da descoberta.

Testando o dia 29 de março, o Hubble identificou a Galaxy M82, uma galáxia “notável por seu disco azul brilhante, teias de nuvens rasgadas e plumas de hidrogênio brilhante de aparência flamejante saindo de sua região central. Em M82, as estrelas nascem 10 vezes mais rápido do que dentro da nossa galáxia Via Láctea”.

Galaxy M82 , créditos: NASA

No dia 24 de abril, serão celebrados os 30 anos do lançamento do satélite astronômico. Em janeiro, a NASA divulgou imagem de uma galáxia enorme chamada Rubin. Segundo os astrônomos, a galáxia vista na imagem abaixo está situada a 232 milhões de anos-luz da Terra e tem 2,5 vezes o tamanho da Via Láctea e 10 vezes mais estrelas que nossa galáxia. O conjunto fica localizado próximo à constelação de Perseu e foi batizada em homenagem à astrônoma Vera Rubin (1928–2016) por Benne Holwerda, especialista que investiga a galáxia graças ao Hubble.

Nasa divulga foto inédita de galáxia gigante para comemorar 30 ...
galáxia Rubin, créditos: NASA

A NASA divulgou um calendário com 12 fotos das “joias ocultas” do espaço tiradas ao longo das últimas décadas. A imagem de capa é da Sh2-106, uma região de formação estelar na constelação de Cygnus.

Fontes: Revista GalileuJovem nerd e NASA

Ordem invertida

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Morning sun (1952), Edward Hopper

A quarentena me fez retomar a escrita de poesia, que não faço há dez anos. Escrevi Ordem invertida pensando na palavra como se fosse um feitiço, para que a gente encontre algum conforto na interioridade das casas.

Deixo que elas cheguem

Aquecidas do centro solar

E repousem nas mãos

Como passarinho que regressa

Ao ninho que pertence.

Às palavras estreladas de musgo,

Nascentes na natureza,

Eu peço que acalentem

O medo do isolamento dos seres.

As falas entrecortadas de morte e disputa,

Palavra ensandecida ao apartar as espécies

Humano e animal relembrados pelo espelho.

Somos feitos do mesmo céu.

Peço que venham as palavras do outro lado,

Aquelas que deveríamos usar desde o princípio,

A palavra que busca descansar no outro

E volta para plantar e crescer em mim.

Envie a nós os fios que comunicam,

Diretamente do calor central,

Para criar, crescer e expandir.

Tudo o que peço é um feitiço dos alquimistas antigos,

Produzindo uma invencibilidade bem no cerne da melancolia,

Transformar azul em rosado,

De palavras oriundas do centro humano e terrestre,

Para, assim, fundar

Um lar dentro de um lar.

Um buraco infinito no tronco da árvore.

Um universo com as ordens invertidas:

O quarto com o céu no chão

e a sala convidativa como floresta.

As nuvens sairão pelas frestas,

E a Terra toda honrada no teto

Até que a casa nos proteja como a natureza sempre desejou.

Para que, então, as pessoas vejam a si mesmas

Na Terra que compõe o teto,

Dos continentes acima das cabeças.

Respiremos um ar purificado de humanos,

Quando nos deitamos em repouso para desacelerar

E, finalmente, viver.

OBRA DE ARTE DA SEMANA | As quatro partes do mundo sustentando a esfera celeste, de Jean-Baptiste Carpeaux

jean baptiste carpeaux

Publicado no Artrianon (março)

Uma obra grandiosa que fala sobre a humanidade e que soa incrivelmente renovada se a pensarmos nos últimos dias de anúncio de uma pandemia, com fechamentos de fronteiras e países tomando decisões emergenciais em razão do novo coronavírus. A escala mundial, de repente, se tornou pequena e possível de se sentir em poucos dias, em qualquer região.  A escultura em bronze do artista Jean-Baptiste Carpeaux, As quatro partes do mundo sustentando a esfera celeste (Les quatre parties du monde soutenant la sphère céleste) de 1872, representa o trabalho da Europa, da América, da Ásia e da África em segurar, no alto, o globo terrestre.

Sobre Carpeaux, sabe-se que o artista foi filho de pedreiro e fabricante de rendas. Seu pai conseguiu matriculá-lo aos 10 anos na famosa Petite École de Paris, onde aprendeu desenho, arquitetura e lapidação. Em 1844, ele ganhou a entrada para a École des Beaux-Arts e passou a maior parte da década seguinte repetidamente tentando ganhar o Prix de Rome em escultura. Quando finalmente ganhou, pôde viver em Roma e se inspirar nos grandes nomes italianos. Carpeaux criou também as obras Ugolino e seus filhos e A Dança, um grande e animado grupo para a fachada da Opéra de Paris, e a qual foi recebida pelos críticos e público como um escândalo.

Exposta no saguão do Musée D’Orsay, trata-se de uma das principais esculturas que reside na simbologia do museu junto ao relógio. Vale observar, em primeiro lugar, que hoje consideramos como continentes a América, Europa, África, Ásia, Oceania e a Antártida. A escolha do artista se concentra em nomear apenas as regiões, possivelmente, a partir dos domínios entre impérios e reinos. É uma divisão com a perspectiva do século XIX.]

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Dito isso, podemos pensar sobre a estrutura da escultura. Para começar, a esfera celeste é toda vazada. A escolha de Carpeaux em representar o globo dessa forma é inteligente, pois aquilo que poderia parecer uma massa densa, o peso enorme que Atlas segura nas costas, é figurada com leveza, quase sem forma. O contraste entre o mármore dos corpos e o globo dão a impressão de que o peso reside mais entre os continentes do que na esfera.

É preciso notar que cada figura apresenta um movimento à cena. Elas não se encontram estáticas ao sustentar o globo, mas girando em aflição por dividir o peso e o movimento. A Europa tem os braços levantados, o cabelo esvoaçando e olha para o globo, o corpo todo reto. A Ásia, com suas tranças longas, olha preocupada, com o rosto voltado para a Europa. A África e a América estão lado a lado, uma com os cabelos longos olhando para o alto, e a outra com o cocar de penas, o corpo virado para o lado. O detalhe interessante está na figura da África: grilhões foram quebrados, e ela está livre da escravidão. Carpeaux fez bustos em vários materiais dessas personagens, e a figura da África deu origem a um busto que Carpeaux exibiu com a inscrição “Por que nascer escravo?”.

Considerando que o século XIX é um período tomado pelo orientalismo e visões reducionistas sobre nacionalidades além da europeia denominadas como o “outro”, o trabalho de Carpeaux é admirável, nesse contexto, por preservar os traços de cada figura e marcas das culturas. É verdade que os corpos seguem os padrões europeus da beleza feminina, que retorna constantemente à Vênus. Ainda assim, o artista não escolheu em representar as quatro partes do mundo por figuras femininas de mesma face, alterando só os gestos. São figuras com características e emoções próprias, tornando o conjunto da escultura uma reunião de nacionalidades além das fronteiras europeias, as quais tinham perspectivas hegemônicas no século.

Além dessa obra, há outra versão feita por Carpeaux, no Jardim de Marco Polo, na Fontaine de l’Observatoire, em Paris. O barão Haussmann, o prefeito de Paris responsável pelas alterações que delinearam o aspecto que conhecemos hoje da cidade, encarregou Carpeaux de projetar a fonte em 1867. O escultor escolheu o tema que combinou com o do Observatório e a figura de Marco Polo, mercador veneziano que viajou para a Ásia, com todo o ideário europeu de “descoberta” de outras culturas.

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Foi Emmanuel Frémiet quem continuou o trabalho da escultura na fonte após a morte de Carpeaux em 1875, fabricando os oito cavalos, os golfinhos e as tartarugas da bacia. Louis Vuillemot fez as guirlandas em torno do pedestal. E Pierre Legrain esculpiu o globo com os signos do zodíaco.

O trabalho todo de Carpeaux é uma composição majestosa da delicadeza no bronze e na pedra. O pathos da cena, a emoção, é a escolha central do artista em contar uma história pela escultura e cativar. Isso aparecia no seu gosto pelo movimento das vestes, dos gestos e olhares, algo mais expansivo e apaixonado do que o ar contido do neoclassicismo e as referências gregas. A escolha do globo terrestre também retoma a cosmogonia grega, de Parmênides e Platão, pois nessa tradição havia o mundo terrestre e o Outro-Mundo. Passando para esse segundo, pela morte, leva ao círculo desejável.

O universo, em Timeu de Platão, estaria na forma da esfera: “Quanto à forma, Ele (o Criador), deu-lhe (ao Universo) a mais conveniente e natural. Ora, a forma mais conveniente ao animal que deveria conter em si mesmo todos os seres vivos, só poderia ser a que abrangesse todas as formas existentes. Por isso, ele torneou o mundo em forma de esfera, por estarem todas as suas extremidades a igual distância do centro, a mais perfeita das formas e mais semelhante a si mesmo, por acreditar que o semelhante é mil vezes mais belo do que o não-semelhante” (PLAO, 2, 488).

Seguindo esse trecho de Platão, a proposta da obra de Carpeaux propõe o equilíbrio pela esfera porque as quatro partes do mundo podem ser vistas como a principal conforme fizermos o círculo, o movimento da esfera em torno da escultura. Nós mesmos passamos a ser uma parte do movimento de sustentação. Estando o globo segurado pelas duas mãos de cada figura, evita-se representar o globo como objeto detido em apenas uma das mãos, como dominância de território. O poder está nas quatro figuras, de modo que esteja submetido à preservação do todo. E, sendo o círculo essa perfeição que dá ao semelhante a beleza, não há distinção entre as partes. São todas em igual equilíbrio responsáveis pela manutenção da esfera celeste.

Nada diferente da situação vivida no século XXI, em que a possibilidade de viver uma pandemia em escala global e dar visibilidade a mais histórias e vivências das pessoas em torno do mundo ao mesmo tempo, reúne, em certa medida, esse belo do semelhante e a perfeição da totalidade. E, ainda, demonstra que a sustentação de algo tão grandioso como a Terra e a vida ainda reside numa responsabilidade social pelo coletivo.

Referências bibliográficas

CHEVALIER, J. Dicionário de símbolos. Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, com a colaboração de: André Barbault. coordenação Carlos Sussekind; tradução Vera da Costa e Silva. 26a edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.

Tortured Soul, Golden Touch – The New York Times

Enciclopédia Britânica

Musée D’Orsay

Les rues de Paris

Créditos das imagens: Louise Going out, Wikipédia

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A noite veneziana, de Umberto Brunelleschi

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Publicado no site Artrianon

O carnaval chega ao fim e permanecem apenas vestígios das fantasias encenadas nos dias de comemoração. Nosso carnaval, cheio de cores vibrantes, brilho, saias de tule, capas, máscaras citadas nas marchinhas antigas de carnaval ecoam marcas da tradição vienense. Cada uma pertencente aos seus próprios contextos reacende a magia e o mistério da comemoração coletiva e enchem a cidade de novas tonalidades inesperadas.

A obra em questão é uma ilustração do artista italiano Umberto Brunelleschi, ‘A noite veneziana’, parte de um livro de 1913 do autor Alfred de Musset. Segundo o livro Histoire de l’édition français, no final do século XIX, o jovem artista foi a Paris, onde produziu anúncios publicitários, desenhando retratos e criando cenários e figurinos para o teatro, alguns deles para a dançarina Joséphine Baker. Na resenha satírica, L’assiette au beurre, ele publicou caricaturas sob o pseudônimo de Arcun Al-Raxid, com ilustrações de livros bastante graciosas e inspiradas por representações galantes do século XVIII. Os personagens foram emprestados principalmente da ‘commedia dell’arte’, à qual Brunelleschi associou o art déco, e os ares frívolos dos bailes, sua escolha temático, em particular para reedições de obras clássicas, como as de Goethe, os contos de Hans Christian Andersen, e as histórias de Alfred de Musset. Ele também ficou famoso por suas ilustrações eróticas.

Esta edição ilustrada, composta por três obras de Alfred de Musset, é marcada pelo estilo galante de Brunelleschi: cenas românticas, perucas, máscaras. A primeira história se passa na noite de Veneza, trazendo os elementos das máscaras e dos vestidos volumosos presentes nos bailes, junto às cores brilhantes e os gestos grandiosos da “comédia de arte”. As ilustrações contam com molduras e ornamentos decorativos, tais como os livros de luxo do século XVIII. Ainda de acordo com o livro Histoire de l’édition français, na primeira metade do século XX dois estilos ‘antigos’ eram particularmente populares: um referente à Idade Média, com xilogravuras no texto, muitas vezes impressas em vermelho (como as de Louis Jou), o outro em estilo barroco e rococó francês, inspirado em ilustrações coloridas e textos levemente irônicos. Brunelleschi é um representante do segundo estilo.

A coletânea A noite veneziana; Fantasia; Os caprichos de Marianne (La nuit venitienne ; Fantasio ; Les caprices de Marianne) foi publicado em 1913 por Alfred de Musset. A edição é de Piazza, cujo proprietário, Henri Piazza (falecido em 1929), foi um dos poucos editores antes da Primeira Guerra Mundial, especializado em livros de luxo. A edição de Musset foi impressa em 500 cópias, todas em papel japonês, com um selo correspondente à assinatura do artista.

Na cena, vemos as fantasias características do carnaval de Veneza. A ilustração é chapada, trazendo marcas da art déco. Vemos ao fundo nuvens, um céu estrelado e alguns edifícios que projetam uma luz amarelada, criando formas quadradas no chão e delimitando o espaço. As cores vibrantes se concentram nas fantasias dos personagens mascarados: os três usam uma máscara Colombina, uma invenção moderna, pois oculta apenas parte do rosto. Trata-se de uma leitura mais associada aos bailes aristocráticos do século XVIII. Sem grandes significados, como as máscaras clássicas dentro de suas hierarquias vienenses, elas apenas encenam a celebração junto aos figurinos.

O personagem central parece evocar, com certa liberdade na escolha das vestes, a figura do Pierrot, do Louco (como é representado em algumas cartas de tarot), o descontrole da alegria carnavalesca. Ele segura uma espécie de globo o qual lembra a luz solar, sorri para o objeto enquanto os outros dois personagens dançam e tocam um bandolim e um pandeiro.

O trio encerra o equilíbrio da cena nos itens que carregam para garantir a diversão infinita. A ilustração de Umberto Brunelleschi atravessa os séculos, trazendo a felicidade vibracional das fantasias e da promessa de encenar o oculto pelas máscaras, em dias de exceção pelo carnaval. Uma data festiva onde a inversão acontece, as tradições cedem às loucuras infantis da imaginação libertina, ganhando vida entre tules, olhares e brilhos.

Referências bibliográficas:

Histoire de l’édition français: Le livre concurrence. Paris, Promodis, 1989 (National Library of the Netherlands)

Gallica BNF

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Os Testamentos, de Margaret Atwood, continuação de O Conto da Aia

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Publicado no site Artrianon

Margaret Atwood

Os Testamentos

Editora Rocco, 447 páginas

O livro Os Testamentos, de Margaret Atwood, foi lançado no final de 2019 e traz de volta o universo de Gilead, a teocracia fundamentalista norte-americana na qual se passa a tão conhecida obra da autora, O conto da aia, que virou a série homônima vencedora de oito Emmys. Atwood retorna ao universo criado no livro publicado em 1985, com uma história que se passa quinze anos depois do desfecho de Offred.

Somos apresentados a um formato bem interessante de narrativa, onde as vozes das personagens se sobrepõem entre si. Não temos Offred como protagonista, mas sim três novas personagens. Assinalada pela ótima edição da Rocco, cada uma corresponde a um desenho que marca o início do novo capítulo. A caneta é a marca do testamento que está sendo redigido por ninguém menos que tia Lydia, uma das mais importantes responsáveis pela execução do projeto de Gilead e o controle das mulheres na região. O desenho de uma aia é Agnes, jovem que cresce em Gilead e filha de um importante Comandante, a qual tem segredos do passado relacionados à figura da aia. E o desenho da jovem de rabo de cavalo simboliza a parte em que Daisy, uma adolescente que mora fora de Gilead, relata a visão exterior das atrocidades do local enquanto sua vida vira de cabeça para baixo.

Há uma linha em comum que permeia a história das três personagens. Ela não é evidente à primeira vista, o que é uma artimanha muito bem executada pela autora. Até que todas as pontas se unem, de alguma forma, e a narrativa de tia Lydia, Agnes e Daisy se entrelaça por alguns fatos marcantes, o que demonstra a maestria de Margaret Atwood em costurar uma trama e prender o leitor atento às reviravoltas. Trata-se, sobretudo, de trama. O ritmo da leitura é feito pela perspicácia de Atwood em não dar ao leitor as informações logo de imediato. Somos deixados com uma linha a mais, cada vez que uma personagem fala, um vislumbre do que está por vir.

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A canadense Margaret Atwood no lançamento de ‘Os Testamentos’. Créditos: DYLAN MARTINEZ / REUTERS

O cuidado com a linguagem é um caso à parte. É muito difícil conseguir desenvolver três vozes distintas em um mesmo livro, e Margaret Atwood consegue transparecer o acesso à cultura erudita de tia Lydia pelos livros antigos, o toque de ironia delicioso com que a personagem pontua o mundo absurdo em que habita; a revolta adolescente e a informalidade de Daisy, além da marca de sua geração em protestar e falar abertamente de feminismo e política; as descobertas e angústias de Agnes sobre seu passado e o medo pelo futuro casamento. Isso fornece uma ampla visão de Gilead que, com muita eficiência, consegue ir além do sucesso de O conto da aia.

Percebe-se que se trata de uma obra muito bem articulada e pensada pela autora. Margaret Atwood não está fazendo um livro apenas para dar continuidade à trama por demanda do público. O intervalo entre uma obra e outra permitiu que se atribuíssem diversos fatos políticos atuais às páginas de Os Testamentos, o que faz de Margaret Atwood, mais uma vez, uma autora que compreende a distopia como dolorosamente próxima da realidade. A raiz da distopia está no susto das ponderações serem possíveis de acontecer, se já não estão acontecendo. E, por ter essa proximidade com o real, é que a obra literária consegue falar tanto com o leitor.

O grande fascínio do livro reside em conhecer mais de tia Lydia. Em vez de retratar uma personagem completamente maligna ou uma santa que oculta sua bondade entre um regime atroz, tia Lydia é cheia de nuances muito humanas e contraditórias. Ela tem uma mente calculista feita para a sobrevivência. É incômodo, em certa medida, simpatizar com ela, chorar por ela em alguns instantes. De ver que a escrita nos une exatamente pelo fato de que ela está deixando um testamento. Nós somos os futuros leitores de tia Lydia. Por isso a escrita acaba sendo uma confissão íntima.

Com efeito, Margaret Atwood ter escolhido fazer Lydia contar sua história dessa maneira problematiza, de forma muito inteligente, o fato de que grandes regimes totalitários são feitos por pessoas, e não exatamente monstros com desvios naturais de caráter. Quando alguém toma essa decisão de apoiar um regime? É uma escolha consciente? Onde reside a culpa e a responsabilidade pelas ações desse regime? Lydia parece assumir e entender a parte de sua responsabilidade. A dificuldade está para, nós, leitores, entender como a culpa se posiciona em áreas cinzentas as quais sempre precisam ser discutidas a fim de que regimes como esses – misóginos e usando a religião como forma de doutrina e abuso aos direitos humanos – não se repitam com essas mesmas marcas.

Por esse motivo, Os Testamentos mantém o leitor até o fim engajado com a narrativa das três personagens, sem deixar de olhar para as fronteiras além da fictícia Gilead, absorvendo o contexto político de diversas épocas para culminar em mais um instante em que as injustiças decaem sobre a liberdade e os direitos das mulheres.

OBRA DE ARTE DA SEMANA | O tocador de pífaro, de Édouard Manet

Hoje, dia 23 de janeiro, seria aniversário do Manet! Artista que estudo desde a iniciação científica e atualmente no mestrado. Por isso resolvi escrever esse mês sobre O tocador de pífaro.

Publicado no Artrianon

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O tocador de pífaro (1866), de Édouard Manet, é uma obra delicada e simpática. Um garotinho toca um pífaro, uma espécie de flauta, encerrado em vestes formais e uma postura imponente. A delicadeza da criança se transforma nas dimensões grandes do quadro e Manet refaz as concepções de retrato apresentando essa obra.

Ao ver Velásquez no Museu do Prado, em viagem feita em 1865, Manet escreve ao amigo e artista Henri Fantin-Latour: “Esta é a porção de pintura mais surpreendente que eu jamais vi…o fundo desaparece: é o ar que contorna o homem, todo vestido em preto e vivo”. Essa inspiração hispânica encontrada em breve viagem participa das obras em que Manet situa personagens da multidão de forma isolada no centro do quadro, em um fundo neutro ou, como no caso posterior de O Artista (1875), entre uma leve tonalidade nebulosa simulando o ar, o qual não distingue chão e fundo.

Manet aplica em O tocador de pífaro essa técnica, tornando o garotinho uma figura grandiosa na tela em um fundo cinza. A platitude é sua marca, onde a forma se torna bidimensional. A platitude do quadro seria esse aspecto de um espaço suprimido entre o tocador de pífaro e o fundo. Distinguimos com uma leve linha vaporizada no chão, quase imperceptível, talvez uma ilusão aos olhos. A sombra do personagem é pouco projetada, onde percebemos pouco o volume da forma.

Com efeito, é uma representação bem simples. O artista escolhe um caminho diferente, desvia-se da opção de triunfar pelo desenho a partir da disposição do detalhe nos objetos ao fundo, ou mesmo dar um cenário que especifique a posição espacial e também social do personagem. Manet opta por um fundo neutro. O cinza traz apenas um pouco de um amarelo enevoado, o qual ilumina brevemente o lado direito da tela, e o azul claro contorna em fumaça a silhueta do personagem, criando um efeito de engrandecimento da forma. O vermelho da calça é opaco, o branco se destaca com poucos efeitos de sombra nas dobras do tecido. O preto é uma mancha brutal e poderosa, em que o tecido do casaco tem pouca fluidez e só ganha contraste pelo dourado dos botões.

O destaque é dado mais ao objeto do que à figura humana. A flauta aparece mais escura, enquanto o estojo vibra em dourado e chama a atenção do olhar do espectador. A face do menino tem uma expressão que pende entre o estar concentrado nas notas e levemente distraído com qualquer atividade que esteja acontecendo como um desfile pela cidade, onde possivelmente pertence a um grupo de músicos. As bochechas se encontram coradas por uma mancha, onde a pele tem algumas tonalidades justapostas, como o amarelado, o rosa claro, o vermelho, destoando um pouco das orelhas mais sombreadas. Tem uma vivacidade nessa tomada da pele, pois Manet não busca uma uniformidade acetinada, mas sim uma confusão de manchas e desigualdades, onde se percebe as marcas do pincel.

De fato, a tomada da cor por Manet, ao precisá-la enquanto tom reduzido é muito semelhante àquele inicial do tubo de tinta. Nela não houve tantas interferências para alterar a cor na paleta e, assim como a simplicidade dada à figura, esses elementos destacam a obra de Manet entre os demais artistas do Salão como uma espécie de estranhamento.

A obra foi rejeitada pelo júri do Salão de 1866. Mas provocou o entusiasmo do crítico e escritor Émile Zola, amigo do pintor. Ele identifica na obra um “sentimento propriamente moderno”. “Eu disse mais acima que o talento de Monsieur Manet era feito de justiça e simplicidade, me remetendo principalmente a impressão que esse quadro me deixou. Eu não acredito que seja possível de obter um efeito mais pulsante com modos menos complicados” (ZOLA, 1979, p. 289).

O filósofo Michel Foucault também fez algumas considerações sobre O tocador de pífaro, em uma conferência na Tunísia em 1971. Ele menciona essa supressão da profundidade no quadro, e se concentra na luminosidade da tela. Em vez de Manet utilizar uma luz advinda de uma janela na cena, a luz parece incidir de forma perpendicular. Por isso se percebe uma sombra apenas no ombro do garoto, no interior da mão e do pé que se ergue levemente. Isso dá “uma iluminação real à tela, como se a tela em sua materialidade tivesse sido exposta a uma janela aberta” (FOUCAULT, 2004, p. 36). Ou seja, coloca em dúvida a própria representação da luz na tela, o uso dos artifícios para simulá-la e lembra o espectador de que se trata de uma pintura.

O trabalho de Manet altera as impressões sobre o retrato e mesmo quem pode ser protagonista de uma obra de arte. Assim, em vez de escolher as figuras aristocráticas, é a pessoa comum quem ganha o espaço grandioso da tela, com a vivência moderna finalmente adquirindo suas próprias cores na história da arte.

Musée D’Orsay 

FOUCAULT, Michel. La peinture de Manet suivi de Michel Foucault, um regard. Éditions du Seuil, 2004.

ZOLA, Émile. Mês Haines/ Mon Salon. Ressources. Paris – Genève, 1979.

Marina Colasanti e Ciça Fittipaldi são indicadas ao Prêmio Hans Christian Andersen

marina colasanti ciça fittipaldi

A autora Marina Colasanti e a ilustradora Ciça Fittipaldi foram indicadas, representando o Brasil, ao Prêmio Hans Christian Andersen 2020. Considerado o Nobel da literatura infanto-juvenil, as duas tiveram os dossiês com suas biografias e obras inscritos pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), seção brasileira do International Board on Books for Young People (IBBY).

Na história do prêmio, três brasileiros já foram laureados: Lygia Bojunga, em 1982, e Ana Maria Machado, em 2000, na categoria escritor; Roger Mello, no ano passado, na categoria ilustrador. Mello foi o primeiro ilustrador latino-americano a conquistar o prêmio.

No site oficial do IBBY, constam as biografias em inglês das duas artistas:

“Marina Colasanti nasceu em 1937 em Asmara (então Abissínia, atual Eritreia). Ela se mudou para o Brasil aos onze anos, depois de morar na Líbia e na Itália. Estudou pintura e gravura na Escola Nacional de Artes, mas começou a trabalhar como escritora e jornalista de um grande jornal brasileiro. Ela já havia publicado dois livros de ficção e foi editora da seção infantil do jornal quando publicou seu primeiro livro para crianças e jovens, Uma ideia toda azul (A true blue idea, 1979). Uma ideia toda azul, uma série de contos de fadas inovadores, com suas próprias ilustrações, recebeu muitos prêmios e foi publicada em vários países da América Latina, bem como na Espanha e na França. Profundidade no conteúdo e linguagem poética rica são marcas registradas de suas obras literárias para crianças e jovens e de mais de 100 contos de fadas. Seus títulos mais importantes para crianças incluem Ana Z. aonde vai você? (Ana Z. Where are you going?, 1993) e Longe como o meu querer (Far like my dear one, 1997), que incluem suas próprias ilustrações, além de A moça tecelã (The girl weaver, 2004) e Breve história de um pequeno amor (Brief story about a little love, 2013). Vários desses livros ganharam importantes prêmios literários no Brasil, incluindo o Prêmio Origenes Lessa – Melhor Ficção para Jovens e Prêmio Jabuti . Ela também recebeu reconhecimento como tradutora: sua tradução para o português de Stefano (2014) de María Theresa Andruetto foi incluída na Lista de Honra IBBY 2016. Marina Colasanti foi nomeada para o Prêmio Hans Christian Andersen em 2016 e 2018″.

Marina Colasanti

“Ciça Fittipaldi nasceu em 1952 em São Paulo. Estudou balé clássico aos 13 anos de idade e dançou com uma companhia de teatro em São Paulo de 1966 a 1970. Iniciou seus estudos em arquitetura e belas artes na Universidade de Brasília e, depois, fez um mestrado em artes e cultura visual na Universidade Nacional de Goiás em 2005. Seu interesse pela cultura indígena brasileira e uma estadia prolongada com a tribo indígena Nambiquara levaram a um de seus primeiros livros aclamados: Naro, o gambá (Naro, the polecat, 1988), parte da série Morená. Um interesse relacionado à arte tribal africana se reflete em suas ilustrações dos dois primeiros livros da série Bichos da Africa (African animal tales, 2003), bem como Os gêmeos do tambor (The twins of the drums, 2006) e Naninquiá, uma moça bonita (Naninquiá, the pretty, 2013), que são recontagens de histórias e fábulas tradicionais africanas, todas do autor Rogério Andrade Barbosa. Atualmente, Ciça Fittipaldi ensina desenho, ilustração e design de livros na Universidade Nacional de Goiás. Todos os seus trabalhos mostram sua vasta pesquisa, com métodos aprendidos com antropólogos e sua experiência como professora. Ela recebeu o prêmio Jabuti e muitos de seus livros foram reconhecidos como “Altamente Recomendados” pela FNLIJ (IBBY Brasil). Seu trabalho é visto regularmente em exposições no Brasil e no exterior, inclusive na Feira do Livro Infantil de Bolonha e no BIB. Ela foi indicada ao Prêmio Hans Christian Andersen várias vezes, mais recentemente em 2018″.

Ciça
Ciça Fittipaldi

Naninquiá, uma moça bonita, ilustração de Ciça Fittipaldi, premiada em 2o lugar no Prêmio Jabuti em 2014

O prêmio é concedido a cada dois anos, no primeiro dia da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, realizada no mês de março, na Itália.

Fontes: IBBY Official Website e Marina Colasanti

Encontrado texto inédito de Albert Camus sobre a resistência à ocupação nazista

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A diversidade de vozes daqueles que viveram os dias e as particularidades de um período é material rico para se reconstruir um pouco da memória histórica. Ela ganha ainda mais destaque quando se trata de um texto desconhecido de um grande autor. Recentemente, o jornal francês Le Figaro divulgou um texto inédito escrito pelo autor franco-argelino Albert Camus (1913-1960). O documento é de 1943, período em que a França se encontrava ocupada pelo exército nazista.

“De um intelectual que resiste”, como foi intitulado o artigo, não contém assinatura, mas foi identificado como sendo de Camus por diferentes fontes. O historiador Vincent Duclert foi responsável pela descoberta. “De um intelectual que resiste é uma das raras obras inéditas de Camus que escaparam da investigação dos ‘camusianos’”, diz Duclert. E para explicar: é claramente identificado por duas fontes convergentes, no Comitê Francês de Libertação Nacional, enquanto os partidários do General de Gaulle e do General Giraud se enfrentam em Argel na segunda metade de 1943.

O jornal Le Figaro o publicou com exclusividade, permitido por Catherine Camus. O texto constava nos arquivos de Charles de Gaulle e está no novo livro de Duclert, “Camus, des pays de liberté” (Camus, países de liberdade, em tradução livre) lançado na quinta-feira (9) pela editora francesa Stock.

albert camus texto
A primeira página datilografada do inédito de Albert Camus. Succession Albert Camus. Le Figaro

No texto de três páginas, Camus examina o estado de espírito dos franceses sob o regime de Vichy. O documento era destinado às forças que combatiam o marechal Pétain. Este estado de espírito é, portanto, encontrado no texto de Albert Camus. E pode ser resumido em duas palavras: ansiedade e incerteza. A ansiedade é a de um país machucado que em breve terá que ser reconstruído, e isso o mais rápido possível “em uma luta contra o relógio” pelo “futuro da nação”, sublinha o intelectual . A incerteza é a de um futuro francês que não pode ser escrito sem a contribuição intelectual das elites. “Porque se a guerra mata homens, também pode matar suas ideias com eles”, explica Albert Camus, que finalmente se lembra da urgência de ver a Resistência Externa apoiar militarmente a do Interior.

De aparência administrativa, datilografado, este documento foi escrito em 1943 no subsolo, na França continental, por um Albert Camus, então com 30 anos. O contexto é bastante simples de traçar: de Argel, a Comissão de Informação do Comitê de Libertação Nacional solicitou “análises clandestinas de jornalistas e pensadores que permaneceram na França ocupada”, explica Vincent Duclert ao Le Figaro. Isso permitiu que as forças que lutavam contra o regime de Vichy tivessem uma ideia do estado de opinião na França continental.

Ainda de acordo com Camus, o dever de todos os engajados na resistência era “lembrar às pessoas todos os dias, todas as horas se necessário, em todos os artigos, em todas as transmissões, todas as reuniões, todas as proclamações”, em um tom urgente, o conteúdo da defesa da Resistência como reação ao nazismo.

O que Camus quer dizer com o ato de matar homens e ideias se baseia no fato de que a ocupação nazista eliminava quem ameaçasse reagir à dominação. Estava, assim, “matando” o espírito de uma geração.

O dia 4 de janeiro de 2020 foi relembrado como o 60º aniversário do desaparecimento de Albert Camus em um acidente de viação. Ele é autor de obras consagradas como O estrangeiro, A peste, O mito de Sísifo, entre outras.

Fontes: Europe 1Nexo JornalLe Figaro 

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Natividade Mística, de Sandro Botticelli

Mystic Nativity Botticelli

Publicado no Artrianon (DEZEMBRO 2019)

Natividade Mística, obra de 1500 feita por Sandro Botticelli, demarca o ar de celebração no nascimento de Jesus, data comemorativa do dia 25 de dezembro. Traz a combinação do nascimento de Cristo, conforme narrado no Novo Testamento, com a visão da Segunda Vinda, como prometido no Livro das Revelações. A Segunda Vinda – o retorno de Cristo à Terra – traria o fim do mundo e a reconciliação de cristãos devotos.

O quadro está hoje exposto no National Gallery em Londres e é a única obra a ter sua assinatura. A dimensão da cena apresenta a ordem de importância: Maria e Cristo se encontram no centro da cena e o tamanho das figuras é um pouco maior se comparadas às demais. À esquerda se encontram os Três Reis Magos e, à direita, os pastores, fazendo menção de falar com Maria e José.

Apesar dos gestos se mostrarem estáticos, a pintura simula o acontecimento do nascer de Cristo e o instante que antecede a Adoração dos Magos. Conforme a descrição feita pelo National Gallery, presenciamos o instante em que “a cúpula dourada do céu se abriu e é circundada por 12 anjos segurando ramos de oliveira entrelaçados com pergaminhos e pendurados com coroas”. Em primeiro plano, três pares de anjos e homens se abraçam e, entre seus pés, há alguns demônios ocultos que buscam abrigo nas fendas localizadas nas rochas, oriundos do submundo.

Botticelli sentiu que ele estava vivendo durante a Tribulação. Presume-se, no texto bíblico, que dificuldades, fome e guerra precedam imediatamente a segunda vinda de Cristo. Em 1494, um enorme exército francês invadiu a Itália e 10.000 soldados entraram em Florença, de modo que os florentinos temiam que o rei da França pretendesse saquear a cidade. Savonarola entrou no vácuo político, encontrou-se com o rei francês e o convenceu a deixar Florença pacificamente. Em sua gratidão e alívio, os florentinos viam cada vez mais o frade como um profeta e sua pregação atraiu enormes multidões para a Catedral de Florença.

Savonarola afirmou que Florença poderia se tornar a nova Jerusalém se os cidadãos se arrependessem e abandonassem seus luxos pecaminosos – e isso incluía destruir obras artísticas. Suas crenças foram concretizadas quando grupos de jovens evangélicos saíram às ruas para incentivar as pessoas a se separarem de seus luxos, suas imagens lascivas e livros, suas vaidades, pentes, espelhos”. Foi nessa atmosfera que Botticelli criou Natividade Mística.

Influenciado por Savonarola, as falas dele sobre os pecados humanos e o temor pelo fim do mundo ecoam na obra de Botticelli. Ainda segundo o National Gallery, a inscrição grega menciona “os problemas da Itália”, uma referência à invasão dos franceses. O texto é sombrio e cita o diabo. Botticelli teria associado, em sua obra, os eventos políticos turbulentos ao Apocalipse, tratando-se, então, do fim do mundo e a segunda vinda de Cristo. O período de revolta que ele descreveu terminaria com o retorno de Cristo, quando o diabo seria enterrado, como na figura.

Os anjos representativos da fé, esperança e caridade, dançam celebrando a vida de Cristo acima da mãe e do bebê. O nascimento místico que nomeia a tela apresenta esse contraste entre o bebê e seu simbolismo divino, o mundo dos vivos e o dos santos, o fantástico e o místico tanto nos demônios quanto na salvação pelos anjos. Trata-se da combinação dos opostos entre as sombras e as luzes. Assim, Botticelli demarca uma celebração que não se esquece das tragédias humanas, corporificando-as pelo discurso marcado por um tempo de temores e esperanças sobre o futuro. Como todo fim de década e início de mais outra.

Referências bibliográficas

National Gallery

BOTTICELLI, Sandro. Complete Works of Sandro Botticelli. Delphi Classics, 2015, p. 165.

‘A vida invisível’ e o silêncio das mulheres

a vida invisivel imagem de capa

Publicado no NotaTerapia (NOVEMBRO 2019)

A vida invisível, pelo formato de um folhetim dramático, apresenta com um corte profundo as dores silenciadas no matrimônio e as histórias invisibilizadas das mulheres brasileiras. O novo filme de Karim Aïnouz, diretor de O Céu de Suely e Madame Satã, foi vencedor do prêmio Um Certo Olhar do Festival de Cannes e é candidato a uma das vagas ao Oscar 2020 na categoria Melhor Filme Estrangeiro, com estreia nesta quinta-feira (21).

A obra expõe os desencontros de duas irmãs e a solidão feminina no matrimônio, bem como a violência legitimada pelas estruturas sociais. A sensação provocada pelo filme é a permanente agonia em face dessas marcas de uma época ainda na vida da mulher brasileira. A história se passa nos anos 50 e trata da relação entre as irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler). As duas parecem, à primeira vista, personagens de comportamentos opostos. No decorrer do filme, porém, o sofrimento enquanto mulher as entrelaça mesmo que à distância, compondo, assim, um grande folhetim dramático sobre corpos e liberdade.

Carol Duarte como Eurídice. Foto: Divulgação

Eurídice é uma jovem talentosa pianista que enche a casa dos pais de música, na Tijuca. O instrumento é sua única forma de expansão e liberdade. Já Guida encontra esse sentido indo para festas e se apaixonando por um jovem grego, sonhando com continentes distantes. O destino das suas se desencontra quando Guida resolve fugir e Eurídice fica, para as pressões do casamento e ver seu sonho de formação se tornar secundário.

Julia Stockler é Guida. Foto: Divulgação

Apesar de o filme ter Fernanda Montenegro como destaque no elenco, grande parte do filme é construído pela atuação de Carol Duarte e Julia Stockler. Ambas dão a nota perfeita para as personagens, em uma atuação que se complementa com extremo cuidado. Carol faz de Eurídice uma força silenciosa, a qual o espectador consegue sentir pulsar, e Julia fornece à Guida o sentir revolucionário da mulher nas ruas. Juntas, elas promovem um avançar e um recuar entre cenas, quase marítimo, de esforços muito arquetípicos da mulher buscando respirar e viver. Fernanda Montenegro aparece logo ao fim do filme, como a fase final de Eurídice, e o tempo em tela é o suficiente para abraçar e costurar as emoções vividas anteriormente pela sua personagem, interpretada por Carol Duarte. É uma atriz que não cansa de surpreender pela seu talento de contar tanta coisa pelos olhos e pelo silêncio.

Fernanda Montenegro como Eurídice. Foto: Divulgação

‘A vida invisível’ é, sobretudo, uma soma de imagens que comprova a invisibilidade da mulher como sujeito livre. Vemos essas inúmeras violências cotidianas perpassarem toda a fase de vida das duas personagens, vidas que se tornam silêncios dolorosos. As cenas de sexo presentes no filme, entre situações de matrimônio e prostituição, não as separam em polos opostos, pois ambos os contextos acabam em estupros legitimados socialmente por uma condenação do corpo e da vontade femininos. Assistimos a força solitária de Guida em se reerguer com ajuda de outras mulheres, enquanto Eurídice se encontra isolada e à mercê do autoritarismo do marido e do pai. Coroado, ainda, pela tensão da maternidade.

Com efeito, o simbolismo da Natureza usado constantemente para definir o feminino pela maternidade participa do filme com uma perspectiva muito bem estruturada: em vez dessas duas mulheres serem encerradas na idealização da maternidade como único fim da mulher, a Natureza aparece como o espaço de liberdade de Eurídice e Guida. Na verdade, é um espaço ambíguo, onde se perdem, onde se isolam, onde se libertam. O uso das plantas para contar a história é muito sábio, porque se começamos com as personagens perdidas numa mata tropical, gigantesca, viva e assustadora, verificamos essa natureza da juventude e do sujeito feminino em formação ir se esvaindo nos espaços domésticos. Onde exatamente as violências acontecem, quando mulheres não se encontram seguras nem nos próprios lares. São as plantas da casa dos pais que denotam o perigo desse controle, entrelaçando de forma sedutora os sonhos das jovens, e são as pequenas mudas regadas pela Eurídice mais velha demonstrando uma perda irrecuperável da liberdade.

A paleta de cores, nesse processo, é ótima aliada porque apresenta o contraste da cidade brutal e do casamento sem romantismos, enquanto as personagens ganham enquadramentos mais oníricos, de sonhos que, em vez de se esvaírem, permanecem como situações não resolvidas. Pulsações cheias de dor por querer viver entre o verde da mata. Do selvagem que deseja muito mais do que o meio urbano oferece ou interdita.

A vida invisível ganha um tom muito mais pesado do que o do livro A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha. Mas talvez tenha sido uma abordagem necessária para abrir as paredes de tantos lares e matrimônios de um período. Enquanto o livro tem passagens e linguagem mais bem-humorados, o filme de Karim é daqueles que emite diversos choques para despertar. É por esse avançar brutal que o diretor é bem-sucedido. Assim, a obra coloca uma luz forte concentrada nos sentimentos daquelas mulheres silenciadas nas mesas de jantar, entre mulheres que sonhavam nas esquinas e nos cantos das cozinhas, vidas repetidamente tornadas invisíveis.

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Ofélia, de Sir John Everett Millais

Ophelia 1851-2 by Sir John Everett Millais, Bt 1829-1896

Publicado no Artrianon (NOVEMBRO 2019)

A imagem de Ofélia e outras personagens de Shakespeare foram inspirações frequentes para os pintores vitorianos que usavam passagens da obra para representar as cenas imaginadas. Uma das mais reconhecidas é Ofélia (Ophelia,1851-2), de Sir John Everett Millais. Inerte nas águas, Ofélia se encontra rodeada por flores em um vestido prateado e temos, pelo olhar vago, apresentado o instante em que a vida se esvaiu da jovem.

O trecho de Shakespeare tem a imagem tornada clássica posteriormente da personagem. Ofélia se lança ao rio, cantando músicas antigas, como uma sereia. As vestes se expandem e, por um tempo, permanecem suspensas. Até que o peso vai aos poucos levando-a ao fundo e o vestido fica enlameado pela densidade da água. A representação da personagem trágica era frequente nos Salões, aparecendo regularmente nas exposições da Royal Academy. Como exemplo, Arthur Hughes exibiu sua versão no mesmo ano em que a pintura de Millais foi exposta.

Com efeito, tratarei aqui de algumas passagens de um artigo que publiquei sobre a idealização de Ofélia como uma representação comum, do século XIX, à morte de personagens femininas. Usando a leitura de Shakespeare como referência, os indícios de loucura de Ofélia passam a surgir após o choque em ver o seu pai, Polônio, morto por Hamlet, até culminar em seu suicídio. O diálogo entre dois coveiros no quinto ato da peça insinua que a jovem teria se matado, e eles questionam se “deve ser sepultada em terra santa aquela que voluntariamente conspira contra a própria salvação” (SHAKESPEARE, 1979, p.301).

Millais escolhe retratar a morte de forma sublimada pelas diversas flores e cores intensas que, em vez de indicarem o horror da morte de uma jovem, emolduram um corpo que aparenta estar apenas dormindo. Aqui, o voyeurismo não se encontra pela exposição da nudez feminina. Ainda assim, a obra ressalta a contemplação desta figura feminina pelo viés do auto sacrifício causado pelo ato de Hamlet e a morte do pai. Portanto, o olhar, no quadro de Millais, apresenta “um lirismo que a natureza emprestaria à cena a fim de conceder uma delicadeza na morte, amenizando-a a partir da figura de Ofélia lançada às águas como quem repousa no leito”.

Há, porém, uma sutileza que não pode passar despercebida no texto de Shakespeare, que é o fato o qual intensifica o abalo psicológico de Ofélia. Na cena em que se considera a loucura de Ofélia, ela conversa com a rainha através de uma canção ambígua. Trata-se de uma breve história de uma jovem que perde a virgindade e se vê desiludida pelo amado:

É dia amanhã de São Valentim.

Bem cedo estarei à sua janela,

Donzela que sou, pra ser Valentina.

Ergue-se ele então, sua roupa veste,

Abre-lhe a porta de seu dormitório.

Donzela ela entrou, mas quando saiu

Não mais era como ali tinha entrado”

 E Ofélia prossegue:

“Por Jesus Cristo e Santa Caridade,

Coitada de mim! Vergonha, meu Deus!

 Se isto o moço faz, tendo ocasião,

Merece, por Deus, censura severa.

– Antes – diz ela – de me derrubar,

Tu prometeste comigo casar.

– Pela luz do sol, tê-lo-ia feito,

Não tivesses tu, vindo pro meu leito”

O contato de Ofélia e Hamlet, no decorrer da peça, aparenta ser mais um segredo entre a corte. Ofélia chegou a simular uma conversa com Hamlet, que estava sendo ouvida pela rainha, o pai Polônio, e o rei. A conversa que se segue é obscura e Hamlet se mostra agressivo com ela, ironiza a honestidade de Ofélia enquanto ela afirma que guarda dele lembranças que gostaria de lhe devolver (SHAKESPEARE, 1979, p.253). Hamlet reconhece que Ofélia está, nesta conversa, representando um papel. Contudo, ele acrescenta “amei-te antes”, ao que Ofélia rebate “Foi, na verdade, meu senhor, o que me fizestes acreditar”, o que se aproxima do verso da canção posterior. E, por fim, Hamlet responde “Entra para um convento” (SHAKESPEARE, 1979, p.254).

No original, Shakespeare faz uso da palavra “nunnery” que, de acordo com a nota do tradutor da edição usada nas citações anteriores, tem um sentido, como gíria, de prostíbulo. Para reforçar a referência do tradutor, de acordo com o site da British Library, o primeiro registro do termo nunnery, no Oxford English Dictionary, consiste no sentido de “bordel”, feito em 1593 na obra Christ Teares of Jerusalem, de Thomas Nash. Em adição, no ato 3 de Hamlet, no original o protagonista fala a Ofélia “Get thee to a nunn’ry” (3.1.120; 128–29; 136-37; 139). Estamos também diante de um fato curioso, pois no século XIX, tanto artistas franceses quanto britânicos e americanos, representavam o máximo da delicadeza e auto sacrifício feminino na forma da freira ou da mulher no leito de morte, ou retratavam, em contraste, as cortesãs, as quais por vezes também sucumbiam à morte na pintura e na literatura. Assim, a loucura de Ofélia parece muito bem justificada, se considerarmos que houve o desvirginar da jovem, a provável recusa posterior de Hamlet, a perda desse amor e o qual será ainda responsável pelo assassinato do pai de Ofélia.

Segundo informações de descrição da obra pelo Tate Museum, a modelo de Ofélia foi Elizabeth Siddal, uma das favoritas dos pré-rafaelitas que mais tarde se casou com Rossetti. À título de curiosidade, ‘Lizzie’ foi obrigada a posar por um período de quatro meses em um banho cheio de água mantida quente por lâmpadas embaixo. Certa vez, as lâmpadas se apagaram, fazendo-a pegar um resfriado severo. O pai da modelo ameaçou Millais com uma ação legal até ele finalmente concordar em pagar as contas do médico.

O simbolismo da obra merece também atenção. A representação das flores teve um cuidado à parte por Millais. Com características minuciosas da botânica, as plantas povoam as águas e fazem referências também ao texto shakespeariano. Pela descrição do Tate Museum, as rosas perto da bochecha e do vestido de Ofélia possivelmente fazem alusão a seu irmão Laertes que a chamou de “rosa de maio”. Com efeito, “o salgueiro, a urtiga e a margarida estão associados ao amor, à dor e à inocência abandonados”. As violetas, que Ofélia usa em uma corrente em volta do pescoço, “representam fidelidade, castidade ou morte dos jovens”. A papoula significa morte. Todo o conjunto de flores, na verdade, reforça o caráter feminino e a associação habitual da flor à fertilidade e à inocência.

Embora a composição das flores e das cores torne o quadro um exemplo de grande mérito na execução, é o olhar de Ofélia que consegue, ainda assim, retomar a melancolia do abandono da personagem feminina e de seu desespero. É a expressão facial, advinda do trabalho da modelo e da recriação do artista, que fornece certa destituição do mero voyeurismo. Na obra de Arthur Hughes, por exemplo, Ofélia é só uma jovem pequenina e delicada repousando sentada no tronco de uma árvore, sem necessariamente ser apenas a representação da personagem de Shakespeare. Poderia muito bem ser mais uma ninfa na floresta, se não houvesse a moldura em torno do quadro com o trecho de Shakespeare inscrito para delimitar a representação.

ophelia arthur

No caso da Ofélia de Millais, porém, há a presença desse tom onírico das ninfas, com a adição pertinente do olhar da personagem que dá a explicação necessária para anunciar que se trata de Ofélia, uma jovem já morta nas águas. São os olhos da modelo e da personagem, forjando a ausência de vida, que preservam resquícios do choque e até um possível desconforto no tom mórbido de se escolher representar a morte feminina por essa perspectiva. Apesar das flores e da insistente delicadeza idealizada, é o olhar de Ofélia no quadro que ainda resiste e corporifica o sofrimento da personagem clássica de Shakespeare, dando um passo além entre as idealizações dos corpos femininos desfalecidos entre as flores.

Referências bibliográficas

Tate Museum

British Library

DIJKSTRA, B. Idols of perversity.  New York: Oxford University Press, 1986.

FRANCONETI, Marina. “AS IDEALIZAÇÕES DO FEMININO E AS OBRAS DE MANET NO SÉCULO XIX”, p. 165-182 . In: . São Paulo: Blucher, 2018.

SHAKESPEARE, William. Hamlet. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

OBRA DE ARTE ESPECIAL DE HALLOWEEN| São Bartolomeu esfolado, de Marco d’Agrate

Publicado no site Artrianon

A estátua de São Bartolomeu esfolado, feita pelo escultor Marco d’Agrate em 1562 para a Veneranda Fabbrica do Duomo di Milano chama atenção pelos seus detalhes, poesia e certa obscuridade de seu tema. Atualmente, fica entre o altar da Apresentação e o de St. Agnes Duomo de Milão, em um pedestal alto, na ala direita do transepto da Catedral.

são bartolomeu esfolado

São Bartolomeu é um dos doze apóstolos de Cristo, executado por sua fé cristã, retratado na escultura com base na iconografia pela qual ele é identificado após a pena sofrida. Não há evidências de uma “introspecção psicológica” ou fé expressa no martírio de Bartolomeu. Ele se confunde mais com uma ode à anatomia humana e faz um encontro entre ciência e fé. O trabalho de Marco d’Agrate não é o de enfatizar o gesto do Santo em misericórdia ou em sacrifício. Demora um pouco para se compreender a história que envolve a estátua e delimitar o que significa o suposto pano que ele segura.

são bartolomeu esfolado detail

A curiosidade que o século XVI carrega pela anatomia humana recebe destaque na obra, em que cada filamento, ossatura se constitui de forma tão perfeitamente talhada no mármore que a surpresa é a de ver exposto o interior do corpo humano. O primeiro trabalho científico sobre anatomia de Andrea Vesalio, sobre o estudo de autópsia do corpo humano e a dissecção de cadáveres, foi publicado em Veneza em 1453. Vale destacar também o grande apelo da anatomia nos trabalhos e pesquisas de Leonardo Da Vinci e o valor dado ao desenho do corpo humano como máxima expressão da proporcionalidade e perfeição da Natureza.

Trata-se, portanto, de um personagem bíblico exposto mais como humano do que santo. A história de São Bartolomeu é que ele foi esfolado vivo. E a surpresa causada pela estátua é que o elemento o qual se parece com um manto, na verdade, é a pele que o santo carrega nos ombros e ao redor do corpo, referência à tortura infligida. Até o século XIII-XIV, o apóstolo era retratado vestido segurando um livro e uma faca, alusão ao Evangelho proclamado e martírio sofrido. Começaram a retratar a agonia do santo a partir do Renascimento. Enquanto o ícone do santo com a própria pele removida da carne foi finalmente santificado depois que Michelangelo, no século XVI, o retratou dessa maneira no Julgamento Universal na Capela Sistina do Vaticano.

La statua di San Bartolomeo scorticato,  Duomo di Milano

O trabalho de Marco d’Agrate é o de um exímio escultor que presentifica não só a ameaça da morte, mas o horror também do sacrifício em vida em uma pena tão duramente infligida. Afinal, trata-se de um santo esfolado vivo. Em forma escultural ele, então, contempla-nos ainda vivo. O exercício da estátua, pelo artista, se constitui como um grande ensaio acadêmico a fim de apresentar a estrutura corporal, o humano e o santo entre músculos e ossos.

Há, ainda, um fato curioso, dado o uso do mármore. O material anuncia a ideia da vida petrificada, como se guardasse uma origem perdida em seu interior, uma vida humana por debaixo da pedra, a qual o artista traz à luz. “A natureza parece agir ‘como um pintor’”, afirma Didi-Huberman em A pintura encarnada. O corpo em mármore “poderia evocar algo como uma origem perdida da figuração dos corpos, momento em que a figura teria sido, miticamente, (quase) um corpo”. No caso, a ironia do poético se concentra no fato de que Marco d’Agrate apresenta a forma da morte e da vida nessa figura impossível do corpo sem pele, expondo aquilo que comumente é velado: o universo particular e interior dos corpos, as camadas até se chegar ao esqueleto e às ruínas.

Ao pé da estátua, uma curta inscrição diz: “Non me Praxiteles, sed Marcus finxit Agrates”, referia-se ao “medo” do escultor, pois ele temia não ter o valor necessário para essa tarefa de representar São Bartolomeu, e que ela deveria ser tarefa concedida à Praxiteles, um dos escultores mais habilidosos e famosos de Atenas na Grécia Antiga.

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Outra versão de São Bartolomeu, ainda de Marco d’Agrate, datada de 1556, fica na frente da Certosa de Pavia, onde o escultor trabalhou por um longo tempo criando muitas estátuas. O delicado acabamento da superfície fez com que a escultura fosse movida para o interior. Primeiro, atrás do coro da catedral, e depois em seu local atual, seguindo uma ordem capitular de 1664, ordenando “um local mais adequado para a admiração dos intelectuais de arte”.

Depois de quase cinco séculos desde sua criação, escolho a estátua de São Bartolomeu, de Marco d’Agrate, nessa semana em que se comemora o Halloween não pela suposta característica sinistra que lhe concedem, a de ver um santo sem pele, mas pela grandiosidade de se admirar a morte e a vida entrelaçadas na existência do corpo humano. Todo esse monumento abaixo das peles que vivifica os corpos e o quanto a pele, por sua vez, se faz ao mesmo tempo como proteção e contato com o mundo. Desfiar-se da própria pele não deixa de ser uma morte simbólica, acontecendo inúmeras vezes na própria vida. A iconografia de São Bartolomeu acaba por apresentar o belo gesto que reside em segurar a pele como manto e se expor, vulnerável e humano, ao mundo.

Fonte:

DIDI-HUBERMAN, Georges. A pintura encarnada. Georges Didi-Huberman ; tradução de Osvaldo Fontes Filho e Leila de Aguiar Costa. São Paulo, Escuta, 2012

The statue of St Bartholomew in the Milan Duomo (Duomo de Milano)

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Bernardino Campi pintando Sofonisba Anguissola, de Sofonisba Anguissola

sofonisba anguissola retrato

À primeira vista, o quadro Bernardino Campi pintando Sofonisba Anguissola (1559), da artista renascentista Sofonisba Anguissola, parece evocar uma cena comum: um artista em cena pintando uma mulher. O título logo indica se tratar do professor de Anguissola, Bernardino Campi. E nos diz que a pessoa retratada pelo professor é a própria artista do quadro, Sofonisba Anguissola.

Ambos os personagens da tela parecem devolver o olhar ao espectador, principalmente Bernardino Campi. O fundo é enegrecido e engolfa professor e quadro. Há a aparente representação da dualidade entre o personagem ativo, o artista masculino, e o objeto passivo, esse comumente dado como a mulher representada. O que Anguissola propõe, porém, é expandir esse intervalo entre a artista mulher e a mulher retratada, colocando um personagem masculino o qual parece confundir as motivações da cena.

Nesse retrato, há múltiplas possibilidades de interpretação e nele reside um segredo a ser desvendado. A primeira é o fato de se assemelhar ao processo comum entre artista homem e mulher representada: como na história de Pigmalião, esse homem artista concederia vida à figura inerte da mulher, que está lá à serviço do ideário de modelo vivo e objeto a ser conhecido. Assim, ele se faz artista em função da mulher representada. A genialidade cai como um manto sobre o artista homem e o simples ato de se por diante de uma tela o legitima como artista, porque o espaço da crítica, o público, toda a estrutura é à favor do homem.

De acordo com Whitney Chadwick, em Women, Art, and Society, esse retrato feito por Anguissola é considerado “o primeiro exemplo da mulher artista conscientemente criando um colapso na posição do sujeito-objeto”. Isto é, a diferença entre a mulher artista, na posição de sujeito, e a mulher como tema da pintura e objeto de apreensão do olhar. Voltar ao fato de que a obra é assinada por Sofonisba Anguissola é o truque que busca quebrar a expectativa de que não se trata de um quadro feito por um homem, muito menos um quadro feito por uma artista mulher pintando a si mesma, sozinha na obra.

Essa cena comum é o que parece resumir o cenário do quadro. Mas não é o que a pintora pretende demonstrar com a obra. Sofonisba Anguissola apresenta outra história, oculta pelo gesto de si mesma representada no quadro. A resposta reside em sua mão. Ao olhar para a mão do pintor segurando o pincel, vemos logo abaixo a mão curvada de Anguissola, quase uma garra, o que dá a impressão de que ela está só posando. Porém, com mais atenção, percebe-se que há outra mão junto ao pincel de Campi: é a mão de Anguissola.

sofonisba anguissola retrato detalhe

Essa distorção que, ao ser percebida, torna o quadro inteiramente estranho, é a sagacidade de Anguissola e sua crítica. Porque a mão que antes era da mulher posando vira logo um membro abandonado, e o outro rompe por todo o cotovelo flexionado. Ela está, ao fim, segurando o pincel que a cria. Ela se enuncia como a verdadeira artista da obra.

Se fosse tirado do título e do quadro a assinatura, acharíamos que é mais uma obra do artista pintando a modelo feminina. Mas a mão duplicada dá o estatuto da obra. Com isso, Sofonisba Anguissola está falando, por meio do artifício, da dura função que é precisar usar a linguagem artística masculina, toda essa estrutura que mobiliza o artista oficial como homem, para que ela possa afirmar seu valor como artista.

Quando Anguissola inclui esse gesto criador no limite do visível e do invisível, ela apresenta como a ação da mulher artista muitas vezes é inviabilizada e obrigada a ser posta em segundo plano. Como algo que só pode ser feito nos bastidores, na escuridão. Não sob o mesmo direito da genialidade concedida ao homem.

A mão de Anguissola se encontra exatamente abaixo do mahlstick, essa espécie de estaca onde o artista apoia a mão para pintar. Ela é o real sustento da criação dessa obra. O próprio artista que ela pinta não se faz tão necessário na cena, principalmente pelo fato de que ele parece olhar para a Anguissola real que estaria fora do quadro e, assim, a pinta. Mas se Anguissola pinta esse quadro ao mesmo tempo em que Campi a observa para pintá-la, seria esse resultado de Campi tão fiel à Anguissola real? A possibilidade que isso dá, então, é que o quadro de Anguissola já estaria pronto e que Campi apenas posa fingindo que o pinta. Ou seja, ao fim ele é o modelo de Sofonisba Anguissola, e ela no quadro pende mais à situação de sujeito artista dela mesma do que apenas representação ao canto.

Além disso, essa versão de Bernardino Campi não indica ter sido pintado a partir do professor que posou para Anguissola. Ele é tão criação quanto a representação do feminino no quadro. E isso leva a questionar as idealizações em torno do feminino e do que é pintura. A noção do feminino, no Renascimento, era a de que uma mulher artista “virtuosa” era um desvio de rota, um caso particular e oposto à suposta natureza da mulher, que não teria a capacidade de intelecto em aprender e criar. Não era bem vista. Lavinia Fontana passou pelo meu escrutínio e a mulher artista, até hoje, ainda tem suas dificuldades de ser desvinculada da única imagem reservada a ela, a de representação feita por mãos e mentes masculinas.

O retrato de Sofonisba Anguissola revela uma autossuficiência, a qual muitas mulheres nobres e da classe média italiana buscavam, se reafirmar além da condição de virgens dispostas ao matrimônio e à maternidade. O que Sofonisba faz é um gesto importante demais, ao mostrar também que a musa da qual uma obra é feita é dotada de existência, e que a mulher artista tem igual direito de se firmar pelo intelecto e criação de uma obra de arte.

Referências bibliográficas

GARRARD, Mary. Here’s looking at me: Sofonisba Anguissola and the Problem of the Woman Artist in Renaissance Quarterly, vol. 47, no. 3 (Outono, 1994), pp. 556-622, Cambridge University Press, pela Renaissance Society of America

A palestra “Quando as mulheres (se) pintam: representações do motivo iconográfico da artista em ação (séculos XIV-XIX)”, ministrada pela Profa. Dra. Maria Cristina Pereira (FFLCH-USP), no MASP dia 14 de setembro de 2019. Foi comentada brevemente a obra de Sofonisba Anguissola, bem como uma enorme variedade de quadros feitos por mulheres artistas em ateliês e retratando a si mesmas como artistas.

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Simpatia e outras obras com cães, de Briton Rivière

Sympathy c.1878 by Briton Riviere 1840-1920

Publicado no Artrianon (agosto)

O desolamento das duas criaturas sentadas em retiro na escada é de comover e levar ao riso doce. A obra Simpatia (1878), de Briton Rivière, tem a doçura singular da infância e da inocência no cão branco que acompanha a menininha e o lamento mudo nos olhos dos dois.

A escada é onde os dois se encolhem. A imaginação perpassa a cena, pensando se a garota foi repreendida e o cãozinho é o único que intervém a seu favor. Ou se ambos foram proibidos de passear lá fora com uma chuva torrencial acabando com os planos de diversão da menina e seu cãozinho.

O espaço demarcado pelo mogno pesado da escada descomunal onde a garota se apoia contrasta com a sinuosidade delicada e mole do cãozinho branco. Naquilo que serve de muro imbatível e claustrofóbico onde a garota melancólica se apoia dilui-se a tristeza pela amenidade do carinho que jorra do cachorro ao seu lado.

Há a correspondência dos olhinhos doces e inocentes entre os dois personagens, a mesma altura ao se sentar, e a pequenez no espaço da casa e dos adultos. Ambos fazem um biquinho de descontentamento e, assim, o cãozinho puro é a figuração duplicada da menina. Rivière consegue despertar não só a simpatia do espectador adulto, mas promove uma leve sensação de culpa em ser o espectador que presencia a cena, por estar entre os dois e o adulto que parece reprimi-los.

Rivière alcançou imensa popularidade com o público vitoriano por suas imagens anedóticas e muitas vezes cômicas de animais. A primeira versão de Simpatia foi exibida na Academia Real em 1878, mas a obra exibida no Tate é um estudo que Rivière fez para uma segunda versão.

Outra obra do artista é Requiescat, que em latim significa algo similar ao descanso, o repouso final de alguém que faleceu. Nele, um homem está deitado com sua armadura. E o cachorro de grande porte emoldura a cama ao seu lado, numa postura altiva igualmente heroica à do dono que faleceu sob serviços prestados. O perfil do humano se encaixa perfeitamente com o do cachorro; e os olhos amendoados do cão se perdem numa leve melancolia. The Long Sleep (O Longo Sono), também de Rivière, tem o tema da morte, mas com um tom mais lúgubre quando nos damos conta de que os cães se encontram desesperados tentando despertar o dono que está morto.

requiescat briton riviere

the long sleep briton riviere

A expressividade que os cães ganham pelo seu desenho é de uma exatidão admirável. A forma com que o corpo se agita, o brilho dos pelos, os pulos, tudo é milimetricamente bem formulado por Rivière para pensar o movimento que sabe forjar muito bem a vida.

“Eu nunca trabalho com um cachorro sem a ajuda de um homem que conheça bem animais. Eu acho que os collies são os cães mais inquietos, os galgos também são muito inquietos, assim como o fox terrier. A maneira de pintar animais selvagens é gradualmente acumular um grande número de estudos e um grande conhecimento do próprio animal, antes que você possa pintar sua imagem. Eu pinto tanto animais mortos quanto vivos. Tive o corpo de uma bela leoa no meu estúdio. Trabalhei bastante nas salas de dissecação dos Jardins Zoológicos de tempos em tempos”.

Entre seus trabalhos, há cães que se debruçam no joelho do dono enquanto ele chora, em Fidelity (1869). Ou aquele que participa compulsoriamente do estudo da garotinha, em Compulsory Education (1887). Sempre um técnico supremo em suas obras, Rivière também pintou assuntos e retratos históricos, mas foram suas cenas de animais às quais o público respondeu com mais entusiasmo. Elas têm uma carga de humanidade muito densa. Olhar a dignidade dos cachorros que acompanham seus donos em situações diversas se conecta com muita profundidade com a vivência mundana. Ao mesmo tempo em que Rivière lança luz a essas cenas anedóticas com uma composição dramática, cômica ou heroica, elas emolduram as histórias e vivências cotidianas com as quais é fácil se identificar, como a amizade, a fidelidade, a morte, o medo, amenizando assim a aura que o academicismo do Salão e seu júri rendiam à pintura.

Mesmo sendo valorizado enquanto artista histórico, gênero de pintura do mais alto grau de qualidade aos olhos dos críticos, eram os animais em sua existência profana que ganhavam tons de pequeninas divindades espalhadas mundo afora.

 

Artist Art

compulsory education briton riviere

Referências bibliográficas

Tate 

“How I paint animals”, Chums Boys Annual, No. 256, Vol. V, 4 August 1897.

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