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Ser utópico

 Após alguns meses, aqui está a minha redação do Enem 2009!

Na contemporaneidade é comum ouvir indivíduos dizendo que todos os políticos são corruptos. Ao falarem isso, cada um isenta-se desse “grupo” de corruptos e opta em permanecer, narcisicamente, fechado no próprio mundo. Mas, vivendo em sociedade, a grande questão é como estimular a ética coletiva em meio a tanta corrupção e receio de indignar-se com o que ocorre.

A filósofa Hannah Arendt contextualizou adequadamente o sentindo de conviver em sociedade: essa seria, metaforicamente, como uma “mesa”, em que aqueles que estivessem sentados permaneceriam com singularidade própria, as suas convicções, mas que, em face da mesa, buscariam um senso comum, ideias que pudessem ser justas a todos. A partir do momento em que o sujeito generaliza a corrupção, é como se a aceitasse e deixasse de buscar estabelecer culpas gradativas, isto é, punir aqueles que deixaram de exercer a autoridade (no sentido de conservar os direitos da sociedade).

Nesse ponto, na discussão acerca da culpa, Arendt também a diferenciou de responsabilidade. Ser responsável é aceitar transmitir preceitos, Cultura, História às próximas gerações; é não permitir a deterioração do mundo diante da nova geração que está se formando. E é exatamente da concepção de responsabilidade que a política necessita.

Portanto, estabelecer culpa a todos impede de haver justiça em sociedade. Dizer-se solitário por ser honesto é um equívoco, pois é função do sujeito cobrar justiça da autoridade que lhe representa. Como o filósofo do século XX, Isaiah Berlin, expressou, sonhar com um mundo igualitário em sua máxima expressão, é utópico demais. A ideia de liberdade e igualdade não consegue caminhar lado a lado, ambas se anulam entre si. Porém, é a utopia que move o ser humano a fim de tornar a sociedade a mais justa possível em face do impossível, da perfeição da utopia. É necessário construir um futuro baseado no passado e tentar alcançar as grandes narrativas, “repetir, repetir até ficar diferente”, como Manuel de Barros sabiamente escreveu.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

3 comentários em “Ser utópico Deixe um comentário

  1. Uau!!!!!
    Mandou bem!!!!!!

    “Repetir, repetir até ficar diferente”, é isso aí.
    Percorrer em caminhos que ainda não foram percorridos, é isso que vc tem feito. Parábens….bjs..te amo.

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  2. Marina, sua redação está magnífica! Muito pertinente com o contexto atual e de uma sabedoria ímpar! A relação que vc consegue fazer com os autores mencionados e as analogias estão acima das expectativas para a maioria das redações nessa faixa etária.
    Parabéns! Vamos ouvir falar muito no seu nome!
    Um grande abraço e muito sucesso na sua futura e brilhante carreira.

    Curtir

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