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Um sábado na zona eleitoral

Tirar o título de eleitor mais parece uma batalha épica, uma prova de resistência, daquelas narradas por Camões em Os Lusíadas. Não estou sendo hiperbólica.

Mães levam carrinho com o bebê dormindo tranquilamente; crianças não agüentam mais ficar em pé, pessoas com cachorros em plena zona eleitoral. Coitado do cachorrinho preso pela coleira que não tem livre-arbítrio, ele está lá pela escolha egoísta do dono. Pais acompanham os filhos que estão tirando o título pela primeira vez – dá para ver pela expressão confusa destes ao deparar-se com a fila.

Passa-se uma, duas horas e você lá, ainda na fila. Esta parece a mesma desde o início. A fila anda não pelo atendimento e sim, por desistência. E torça para que as pessoas na sua frente desistam. Assim, os minutos na fila possivelmente podem diminuir.

Acredito que a fila na zona eleitoral é mais uma metonímia, reflete a falta de organização e a burocracia típica no Brasil. Obviamente em outros países deve existir. Mas são nesses momentos que dá para perceber onde está a teoria do Sérgio Buarque de Holanda sobre o homem cordial. Pessoas que levam a família inteira – até o cachorro – furam fila só porque está com uma criancinha de colo, além do carrinho e da filha pequena.  É a tentativa de usar a esperteza para ficar menos tempo na fila em vez do restante que está lá há horas.  Mesmo que idosos e mulheres grávidas tenham direito de não ficar na fila – tem lógica – levar um bebê de pouquíssimos meses para a zona é expô-lo a um estresse desnecessário.

Uma mulher, já prestes a receber o título de eleitor, estava estressada e o marido também. “Ah, não dá para você ficar nervosinho agora, não! Já estamos aqui mesmo, não tem jeito. Demora e é ridículo ter que passar por isso!”, disse a mulher. Quando, após alguns minutos, essa senhora recebeu o título, ela comemorou diante de um monte de gente, com gritinhos, como se tivesse ganhado algo de valor inestimável! Deve ser, depois de passar por uma prova de resistência tão intensa em pleno sábado.  

Enfim, este foi o primeiro passo de algo que tem uma complexidade ainda maior: escolher um candidato. Tem até outubro para pensar, mas é preciso saber que nenhum deles irá fazer do Brasil um país utopicamente perfeito.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

6 comentários em “Um sábado na zona eleitoral Deixe um comentário

  1. Pois é Má. Gostei que você não desistiu diante dessa situação. Você poderia ter ido embora e tirar seu titulo posteriormente, com tranquilidade. Mas você quer exercer o seu direito de cidadã o mais cedo possível. No final de tudo foi até cômico!!!

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  2. Nossa Ma fico triste por você ter tido que passar por tudo isso, pra mim ir hoje na zona eleitoral foi tão rápido e calmo, não entendo o que te aconteceu. Mas fico feliz que você tenha vencido essa prova de resistência, hehe E me diz quando você recebeu o título também pulou e comemorou feito aquela mulher? Kkkkkkkk

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  3. Eh, Má…infelizmente essa é a realidade do nosso país.
    Mas, assim como você, acredito que os novos jovens eleitores irão mudar esse cenário.
    Parabéns pelo artigo.
    Bjo

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  4. E a maior hipócrisia em tudo isso é o fato das pessoas pegaremm o título por pegar, mas quando o tem nao sabem o que fazer com ele (pense em quantos vendem o voto, votam em branco, nulo…).
    A senhorita/senhora deveria fazer um livro com crônicas, pois as redige muito bem 😀

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