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Toy Story 3

Filmes infantis, muitas vezes, demonstram mais os anseios humanos do que propriamente o único objetivo de entreter as crianças. O atual Toy Story 3 é um exemplo disso. Já se sabe da competência da Pixar para criar filmes aliados à tecnologia e ao bom enredo. Nesse caso, muito se torna secundário diante a história bem construída.

Cresci vendo os filmes da Disney – mesmo que não tenha visto com tanta frequência – e me identificava com a Bela, de A Bela e a Fera, já que ela é encantada pelos livros, como eu. Não é à toa que esse desenho foi o único a ganhar o Oscar de melhor filme, mesmo sendo uma animação. Mostra a antítese entre o grotesco e o belo (característica da escola literária Romantismo) e a Bela tem um pouco da emancipação feminina, lê e ousa pensar diferente da coletividade de sua aldeia e do arrogante Gaston.

E o que isso tem a ver com Toy Story 3? O filme mostra o embate com o coletivo. Afinal, o Lotso – aquele urso fofinho – é praticamente o Stálin! Aparentemente, a sociedade que ele cria entre os brinquedos é harmoniosa, perfeita, tal qual a ideia do socialismo implantado na URSS. Mas, aos poucos, os brinquedos que ficam na sociedade do Lotso, começam a sofrer repressão por não concordarem com o coletivo e ser uma ameaça para o governo sólido. Tudo isso é narrado sutilmente e sem moralismo.

O filme é um convite aos adultos para se lembrarem da infância, para as crianças se divertirem. E os adolescentes se sentem como o Andy, dono do Woody. Afinal, ele tem 17 anos, está prestes a entrar na universidade. Precisa fazer escolhas difíceis, a começar pelo abandono dos brinquedos que o acompanhou por boa parte de sua vida. Quem não sente um nó na garganta ao pensar em doar aquele ursinho com o qual você superou o medo do escuro?

Andy passa por algo semelhante às decisões do Woody, o protagonista cowboy. O momento árduo para ambos é saber se deve abandonar o passado ou não. É o momento da separação; porém, não é preciso esquecer o que fora para tornar-se um adulto. Manoel de Barros, na tentativa de narrar em poemas a sua infância, mocidade e velhice, percebeu que não era preciso separá-las. “Eu só tive infância”, declarou o poeta. De fato, não há algo demarcando o fim de cada fase. Claro que esses momentos são feitos de “mortes”, separações. Mas o que você foi continua como memória.

Woody continuará sendo o símbolo infantil para quem viu Toy Story. O filme, como muitos da Disney, é um modo de revisitar a infância. E Woody ainda será um dos brinquedos mais importantes do Andy, pois esse marcara seu nome na sola do sapato do cowboy. Para nunca esquecer o passado ao qual pertencera.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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