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Uma vela a se consumir…

A beleza sumira, o tempo passara. Diante de um espelho – também envelhecido – Helena não se reconhecia. Fios grisalhos enrolavam-se cada vez mais aos cabelos que outrora foram pretos. Penteava-os com esmero ao ver o preto luzir. Agora só contemplava o cansaço nas faces e a velhice. O problema não era exatamente o reflexo que encarava no espelho. O que mais doía era ver o seu passado tornar-se remoto e o fugaz presente fazer dela o que já foi para a nova geração. Um dia a juventude lhe preenchera e fizera de Helena a mais bela. Papai gostava de brincar que eu era Helena de Tróia, a mais bela entre as mortais… os mitos foram eternizados; ela, não.

E o que fazer? Só lhe restava o lamentar ao ver a flama consumir lentamente a vela. Helena gostava de conservá-la ao seu lado, como se fosse uma ampulheta provocativa. Na sala distante, o relógio que enfeitou a parede de sua avó indicava as dez horas da noite e o final de mais um dia para ela. Não haveria mais ninguém que poderia herdar aquele relógio significativo. Provavelmente, quando eu morrer, mandem-no para alguma feira de artigos antigos. As pessoas se dizem apaixonadas por conservar um objeto dito raro, né? Mas os velhos, de fato, tornam-se apenas descartáveis. Eu transmiti algo a alguém? Não. Simplesmente não fui mãe para iniciar o meu filho ao mundo; não fui avó para ser um rapsodo de tradições. Certamente não sei mais quem fui ou quem representa o reflexo que contemplo.

Ao fundo das reflexões melancólicas de Helena, tocava na vitrola Memory. A música a fazia lembrar da viagem à Nova York e o primeiro musical que assistiu na Broadway: Cats. Se há algo para me representar é a gata Grizabela, ao cantar Memory. Abandonada, velha, alimentada por memórias. Ao sair da peça, só me lembro de ter achado belíssimas as coreografias, mas Grizabela não me agradou. Por quê? É, ela só era o retrato de um glamour que sumira… como eu continuaria a ser uma grande atriz de teatro se ficasse velha e esquecida? Preferiram a substituta, magrela que dava dó. A vida perdeu o frescor! Agora, só sonho com algum contato de um mundo que me ignora. Enquanto isso, aguardo diante do espelho, ao lado da vela. E espero pela admirável Morte, com seu manto negro, envolver-me e me levar, quem sabe, para uma próxima aventura…

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

2 comentários em “Uma vela a se consumir… Deixe um comentário

  1. Bom… O que falar… Como diria o professor na aula de inglês que tive sexta “I’m speechless”.
    A vela se consumindo, a vida passando, ao som de Grizabela… Dá até medo!!! Eu, que estou meio chorosa esse fim de semana, enchi os olhos de lágrimas!!!

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