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Multidões no cofre

Chega o momento em que se conta os amigos. Contudo, esse momento é indeterminável. E, infelizmente, não se pode dizer que esse gesto irá cessar alguma vez em sua vida. Mesmo assim, há aqueles que você sabe que ficarão ao seu redor. Separa-os daqueles que são companhias efêmeras. As pessoas que viu uma vez ou outra. Toma-se para si as poucas moedinhas, mas as que valem mais, entre as dezenas que povoam o cofre. De um pote de moedas, partem-se mundos, multidões conectadas, pessoas incontáveis que passearam pela sua vida e guarda aquelas que se sentaram num banco próximo e ficaram para ouvi-lo falar, contaram sobre o seu dia ou apenas para observar junto com você as muitas alterações dos anos. Essas são moedinhas preciosas. Gastá-las? Não. Cultivá-las, como depositárias da sua sorte.

Em amizades ocorrem o mal humor – seja matinal ou não! -, as dissenções pelos simples gostos musicais ou cinematográficos. Ou até mesmo tempestades naquele dia em que nada vai bem. Mas que, no dia seguinte, não passa de uma garoa. E, no fim, parece apenas ter regado o jardim e volta tudo como era antes.

Amizades são circulares e, por isso, não se define começo e fim. Ter uma amizade não é tomar o ônibus num ponto, aproveitar a paisagem vista pela janela e, depois, descer e tomar outro rumo. De fato, isso acontece no convívio com algumas pessoas. Deixa-se de ver o outro por incompatibilidades, a revelação de que nunca foram amigos, há decepções, mas os desencontros são possíveis e pode significar apenas um breve adeus.

A verdade é que a amizade é uma experiência sinestésica. O abraço inigualável, a música que você gosta o outro ama com a mesma intensidade, o livro que emociona os dois, o docinho que gostam de comer juntos. Amigos são sons, gostos, palavras, gestos, expressões. O mais irônico é descobrir que, se antes você tinha uma multidão de pessoas em sua vida, mas poucas com grande significado, você descobre que aquelas poucas moedas selecionadas guardam em si multidões distintas que, juntas, já povoam infinitamente todo um cofre.

Inspirado na letra da música The Party, de Regina Spektor (ouça aqui).

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

2 comentários em “Multidões no cofre Deixe um comentário

  1. Os docinhos são os cupcakes do shopping Paulista!!! hahaha
    Com o Danilo Gentili do lado, né?!?!
    A música? Acho que só pode ser a Barbra… Filme? Amelie!!!
    A moeda, só não pode ser a de fifty cent, de resto, tudo bem!!! hahah

    Desculpa as brincadeiras, mas adorei o texto!!! E você me conhece, sabe que o meu jeito é esse bobo mesmo, né?!?! É esse respeito que nos torna tão amigas, com ponto de partida e espero que sem um ponto de parada!!!

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  2. Que sensibilidade a sua ao descrever a importância dos amigos!!!
    Refleti com seu texto e cheguei a conclusão que nos últimos tempos, tenho poucas moedinhas separadas e que preciso cultivar mais os antigos amigos e descobrir novos!!

    Curtir

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