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Catarse vermelha

Paulo e Ana acreditavam no fim do mundo. Eram supersticiosos, tinham fascínio pela possível profecia dos maias. Adoravam assistir aos documentários na TV que misturavam Nostradamus com os maias, acreditavam nisso porque, afinal, era um canal de História, até com simulações! Por que não seria assim? Mas a verdade é que adotavam uma crença e um estímulo para o marasmo da vida de casal. Era o mesmo que criar uma ficção e se fazer personagens dessa peça até o fim, planejando cada passo ou fala.

Cogitaram, primeiro, ir para essas cidades que lucravam com hotéis em lugares supostamente seguros para o fim do mundo. Mas era tão sem graça! Eles queriam vivenciar o fim. Se não acabasse…bem, eles não ousavam cogitar. Mas, se acabasse, eles teriam ido ao limite de suas loucuras. Não se ocupavam em pensar se haveria algo além desse mundo, porque já era místico demais e, para eles, a ideia de que um povo antigo havia previsto o fim era mais emocionante ou menos clichê para as suas ficções do que seguir uma religião.

Os dois pensavam que se o fim do mundo estava próximo, deveriam fazer o que nem ousavam pensar. Resolveram, então, convidar a mãe de Paulo e o pai de Ana para jantarem, a única família que tinham. Mas havia alguns detalhes nessa relação. Abandono, retorno da mãe à casa de Paulo depois que ele perdeu o pai, o seu grande herói, o único que soube sustentar a vida do jovem. Inúmeras traições e humilhação à mãe de Ana, a heroína dela. Era esse rancor pelo próprio sangue que unia a ambos.

A campainha tocou. A mãe de Paulo esperava à porta, fingindo que 12 anos não existiram na separação dos dois.  Passou a mão no rosto do filho, um sorriso doce, mas os olhos opacos. Meia hora depois, de desconforto entre os três sentados no sofá, chegou o pai de Ana. Sempre espaçoso, sentou-se em frente à TV, vendo um canal de esporte, com uma taça de vinho na mão, que mandara a filha buscar na cozinha.

O jantar estava servido, coisa simples. Macarrão com molho ao sugo, frango e vinho. Todos se sentaram na mesa apertada de apenas quatro lugares, feita somente para aqueles convidados, deixando-os constrangidos com o contato. A conversa não evoluía muito entre eles.

-Então você está desempregado, não acha sequer um trabalho? Pode ser qualquer coisa!

-Está difícil de achar, mãe. Já fiz algumas entrevistas, mandei currículo, e tô esperando ligarem, né?

-Hm, isso aí não é desculpa. E ainda me serve um almoço desse? Em casa é só botar molho no miojo que fica igual a esse macarrão.

-Ana, minha filha, você realmente acha que casou com o cara certo? Ele nem te sustenta.

-Não casei pra alguém me sustentar…e é só uma fase. Tá puxado pra dar conta da pós, do trabalho, mas tá ótimo.

-Na minha época mulher não fazia pós-graduação. E acho que é inútil, de qualquer forma. Seu marido tinha que pagar esse frango aqui…e um frango melhor – olhava, com desprezo, para o genro.

-Não, eu fico tranquila que casei com alguém que não me trai e nem me humilha – respondeu Ana, com a voz rouca.

A raiva borbulhava, acumulada. Ana cobiçava aquele vermelho do molho e do vinho, como uma catarse do seu sentimento por aqueles da mesa. Paulo e Ana se entreolhavam, ansiosos. A moça apanhou as taças dos convidados e, com um sorriso, levou-as para a cozinha com a desculpa de ter deixado a garrafa lá.

Voltou com as taças novamente cheias, segurando-as com as mãos trêmulas. Os dois perceberam e questionaram.

-É a ansiedade! É bom vê-los aqui. O fim do mundo está aí e seria bom acertarmos o passado numa mesa de jantar – Paulo se adiantou, respondendo gentilmente – Que tal um brinde?

Os dois convidados assentiram logo com a cabeça e beberam o vinho, à vontade, aliviados pelo entusiasmo de Paulo.  Ele e a esposa encaravam seus pratos. O som da mastigação e o bebericar do vinho soavam alto demais por aquela sala.

Ouviu-se um engasgar aflito. Com um baque, os convidados deixaram a taça cair, o vinho escorreu sem dó pela toalha de linho branca. Ana e Paulo pararam de mastigar o macarrão e olharam para o outro lado da mesa, hesitantes. Os dois repousavam a cabeça no prato, com o molho respingado na mesa. O vermelho manchava a toalha com a mesma presença do vermelho natalino que Paulo insistira em usar para enfeitar a casa, apesar do fim do mundo. Se antes, nessa cor, Paulo e Ana repousavam, com a leve esperança de realmente chegar o Natal e continuar vivos, agora o vermelho adiantara o desfecho que eles sempre quiseram mais profundamente. Era uma cor que rasgava qualquer ficção e os trazia para a realidade mais crua.

Agora restava a eles esperar, na sacada, o mundo acabar, como um camarote para a segunda peça que viria a seguir. Já haviam decidido deixar esse mundo despejando o raivoso passado por entre as taças e os pratos. E Paulo e Ana fizeram isso retrucando à tênue esperança do vermelho, na qual repousaram a vida inteira. Aquele mundo das ficções, da raiva engolida, acabou na peça que montaram. E, ironicamente, acabou por meio de mais uma ficção, com todo aquele molho fingindo ser o sangue que desejavam.

O vermelho espalhado na mesa era a resposta final de que esperança alguma existia. O mal guardado se revelara no jantar acabado. Um mundo hostil se desfazia na toalha de linho, destruindo a esperança de haver uma sobremesa.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

2 comentários em “Catarse vermelha Deixe um comentário

  1. Esse conto é totalmente diferente de tudo que você já escreveu!!!
    Retrata a mania dos pais que só opinam e criticam os filhos, ao invés de apoiá-los.
    Apesar da simplicidade em que vivem, a felicidade incomoda seus pais que não valorizam as escolhas dos filhos.
    Fico indignada com essa postura.
    Muito bom, gostei muito!!!

    Curtir

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