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Fantasmas

Móveis têm alma. Manifestam a dor quando emperram. A maçaneta cai em revolta, o parafuso se solta em cansaço, exigem de nós um empurrãozinho para se mexerem, a força que eles não têm. Porque a porta sente dor no corpo, tentando acomodar a alma carregada de saudade. A porta não quer se fechar diante da possibilidade de, ao abri-la, só receber o vento anunciando o vazio, dor da despedida.

O caderno carrega o peso do lápis que marcou as suas folhas com a mesma intensidade do passado registrado e agora esquecido. Os livros, com as anotações do leitor, post it colorindo as folhas com observações relevantes também já esquecidas. Nunca se sabe se serão abertos novamente. Os lps, abandonados, guardam as músicas que o Ipod ostenta.

Os objetos têm alma e sonham com a liberdade de se livrarem desse peso. Os seres humanos podem muito bem esquecer, se distrair, conhecer outras pessoas. Os objetos, não. Ficam lá, guardando fantasmas. E, muitas vezes, o único poder que possuem é o de provocar, colocar-se na nossa frente para mostrar que sabem muito mais do que imaginamos.

Nunca subestime um objeto. Ele vive de morte e vida. Aguarda o toque, a alegria para voltar à vida. Mas quando estão quietos, não estão exatamente mortos. Só em repouso, sabendo que a qualquer momento os fantasmas que eles guardam vão se corresponder com a lembrança que o seu inconsciente guarda tão bem.

É o mesmo que deixar um pingo da torneira vazar. Com o som martelando, a torneira provoca os cômodos a relembrar tudo. A nossa cabeça martela com o som de todos os objetos ecoando memórias. É como se o pingo denunciasse que tem o poder de libertar toda uma corrente d’água de melancolia ou um efêmero contentamento que um dia se sentiu.

É assim que objetos saem do estatuto de mercadoria e se tornam lembranças concretas. É um grande mistério…ao mesmo tempo eles guardam não sei que magia, o mistério da alma que carregam, sem serem vistas ou plenamente acessadas. Mas a corporificam, lançam o lembrete de que houve uma vida. Fantasmas escondidos nas cortinas como crianças brincando de pique-esconde ou velhinhos acomodados nas poltronas, esperando para contar histórias. Aquelas que conhecemos, mas fazemos o esforço de esquecer.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

3 comentários em “Fantasmas Deixe um comentário

  1. Interessante… Mas engraçado que esse tema é bem relativo… Sim, os objetos são fantasmas, carregados de memória… Mas, depende… Se vocês pegarem meu urso de pelúcia, ele é super importante pra mim, mas para meu pai, por exemplo, não tem essa importância… Pode-se dizer que os objetos são fantasmas pessoais, e isso não de maneira ruim, eles são guardam as fases, que, pelo novo cotidiano esquecemos, mas, é só vermos os objetos novamente, que lembramos do tempo de outrora… Muito bonito!

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