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Philomena

Dir. Stephen Frears
Roteiro de Steve Coogan e Jeff Pope
Com Judi Dench, Steve Coogan, Sophie Kennedy, Michelle Fairley
Reino Unido, EUA, França, 2013
 
Indicado ao Oscar 2014 nas categorias: Melhor Filme, Melhor atriz (Judi Dench), Melhor roteiro adaptado, Melhor trilha sonora 
 

PhilomenaPor 50 anos, Philomena (Judi Dench) manteve um segredo. Ela ficou grávida após uma noite com um menino que conheceu em uma feira. Um dia que Philomena carrega por décadas, após as freiras do convento condenarem o seu feito – e o de tantas meninas – colocando nas costas jovens e ingênuas o pecado de uma mulher que nunca poderá se redimir aos olhos de Deus. Esse discurso cruel se entrelaça à vida de Philomena e a faz desabafar após esses anos de tormento. Agora Philomena quer conhecer o filho do qual a separaram quando era uma menina de 18 anos.

Para que ela consiga realizar esse sonho quase distante, Martin Sixmith (Steve Coogan), um jornalista em crise, entra na história a fim de tentar se arriscar no relato sobre fatos humanos. Não é o seu gênero favorito, pois pensa que é fútil relatar a vida cotidiana e, além disso, muito apelativa. Ele prefere dizer aos colegas que está trabalhando num livro sobre a História russa.

O curioso é constatar que Martin é ateu, muito cético quanto às relações humanas e não demonstra grande comoção pelos fatos curiosos que a mídia gosta de relatar. Porém, isso não o leva a querer explorar a história de Philomena com o prazer debochado o qual vem junto com esses tipos de relatos, ainda mais quando se tem discussões morais em jogo acerca da postura da Igreja Católica. Martin prefere manter uma sutileza na forma com que contempla Philomena e o caso do filho desaparecido, por meio de um carinho que fica oculto no seu desejo jornalístico pela verdade. Ou por uma perspectiva que saiba balancear a tão complicada tarefa de contá-lo.

Assim como o personagem opta por essa veia mais leve e sutil, o próprio filme de Stephen Frears não cai no perigo de ser mais uma história adocicada demais. Sabemos que muitos filmes do gênero que pretendem contar uma história real transmitem-na com certo exagero na dor do protagonista e abusando, por vezes, das frases emotivas ou rompantes de amor e redenção nessa busca pelo filho. O que Frears faz com Philomena é um trabalho ainda mais árduo e profundo: elo despe a personagem aos olhos do espectador como uma mulher devota, a qual sofre com o seu destino, mas com uma ingenuidade semelhante àquela que fora roubada com os seus 18 anos. Nem diante da crueldade da instituição religiosa, Philomena parece querer mudar. E é nesse ponto que o diretor consegue nos deixar livres para que tiremos nossas próprias conclusões sobre sua crença, sem cair no maniqueísmo.

Mais ainda, o enredo acende a dúvida sobre o quanto nós e o personagem Martin devemos nos envolver quando relatamos os fatos. No caso de uma história como essa, o que deveria ser transmitido? Somente a visão da pessoa envolvida ou a nossa também? Essa última é quase inevitável. Contudo, se ela é inevitável, como fazê-la sem soar um cientista colocando a vida do outro em teste? Martin aprende muito com esses dilemas. E o mais importante: isso é feito sem precisar de grandes diálogos que pontuariam o crescimento dos personagens. Esse ocorre quase que naturalmente.

O filme tem um brilhantismo encantador, conduzindo o espectador a um enredo até inesperado, focando em outros pontos os quais não esperaríamos ter tanto valor. O mais interessante é uma das passagens do filme em que Martin escuta Philomena contar a história de um livro que ela está lendo. Aquele momento em que ele prefere escutar a visão que somente ela tem da história deixa evidente o quanto ele aprendeu como jornalista. Martin tem uma história a contar, mas que não pertence a ele como uma simples matéria e sim, à Philomena e até mesmo aos futuros leitores. A função dele é ouvir e saber prestar atenção aos sinais de poesia. São esses os elementos que realmente fazem da história de Philomena algo que merece ser contado.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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