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A adolescência pelas músicas da Lorde

lorde

O assunto desta semana foram os shows do Lollapalooza. Entre as apresentações do Imagine Dragons, Muse e Phoenix, já bandas bem estabelecidas com grande público, houve o show da Lorde. Primeiro: eu assisti pela tv, o que é triste, queria estar lá. Mas assisti, é o que vale, e durante a apresentação, eu fiquei relembrando o quanto, desde o início, me chamou a atenção a perspectiva que a Lorde, com seus 17 anos, consegue fornecer sobre a adolescência, processo pelo qual ela mesma está passando, nas letras que compõe. Por isso resolvi escrever sobre o assunto e mergulhar nso versos e na adolescência através das músicas da Lorde.

Começo com uma música que não tem a mesma popularidade de Royals, mas que me parece deixar mais claro o significado da adolescência: Tennis Court.

 Como um adolescente, o pertencimento a um grupo ou as primeiras formas que se dá à personalidade acabam sendo pelos objetos que possuímos. Não apenas um celular, mas as roupas e a mensagem que elas transmitem. O seguinte trecho fala sobre isso: “And I am only as young as the minute is full of it, getting pumped up from the little bright things I brought. But I know they’ll never own me” (E eu sou tão jovem quanto o minuto é cheio disso/Bombardeada pelas pequenas coisas brilhantes que comprei/Mas eu sei que elas não me possuirão). Sabe-se, então, que as pequenas coisas – brilhantes, pelo valor que damos a elas, e também o que o senso comum pensa delas – parecem completar a nossa presença no mundo, falar por nós mesmos. Mas como afirma Lorde, não são elas que possuem plenamente o significado dessa identidade, muitas vezes sendo apenas sinônimos de status.

O refrão é ainda mais interessante: “Baby, be the class clown, I’ll be the beauty queen in tears, it’s a new art form showing people how little we care” (Querido, seja o palhaço da turma/Eu serei a rainha da beleza em lágrimas/É uma nova forma de arte mostrar às pessoas o quão pouco nos importamos). Na adolescência, é inevitável desejar se enquadrar nesses modelos e grupos. Se você for o palhaço da turma, será sempre o mais engraçado. Se for a rainha da beleza em lágrimas, assumirá a dramaticidade que lhe é pedido. Ou seja, incorporar esses tipos é como criar um personagem para si mesmo. Mas há um paradoxo: aceitamos esses personagens sabendo como eles serão vistos pelos outros, mas nos importamos pelo menos um pouquinho com o olhar do outro. Mesmo assim, dizer que não se importa é a defesa para tentar explorar as próprias possibilidades.

“We’re so happy, even when we’re smiling out of fear” (Nós somos tão felizes, até mesmo quando estamos sorrindo com medo). Acho que esse é o verso mais forte da música. Adolescência é a sensação de estar à deriva e esse sorriso ser a forma de se comunicar, com hesitação, ao mundo do outro. E se a tentativa dá errado, parece que o pouco conquistado desmorona. Basicamente, ser adolescente é estar numa peça teatral. E isso não é algo ruim, não. Criar um personagem faz parte do processo, porque é o momento em que estamos dando os primeiros passos para entender quem somos, se isso existe como essência, ou se podemos criar quem queremos ser. No fim das contas, adolescência é experimentar e aos poucos a gente entende se queremos sustentar esse eu criado por toda uma vida. Esse eu pode mudar, não tem problema.

“Let’s go down to the tennis court and talk it up like ‘yeah’” (Vamos descer para a quadra de tênis e falar tipo, yeah) e “It looked alright in the pictures” (Parecia tudo bem nas fotos) são versos que se completam, porque a ideia de descer à quadra de tênis, ter um espaço em que todos os outros jovens se encontram é onde cada personagem poderá mostrar quem é e, claro, tudo fica muito bem na aparência de uma foto. Além disso, adolescência é sinônimo de fragilidade. O que tentamos sustentar pode já não ser mais válido no momento seguinte. Se nos expressamos por uma roupa, um gosto particular, muitos a nossa volta julgam isso sem hesitar. E será que esse julgamento é verdadeiro? Como se julga uma pessoa somente pelo que ela gosta sem ao menos cogitar que aquilo, de fato, importa para ela?

Agora a ideia é entrelaçar três músicas. Bravado carrega um verso muito bonito que Lorde pegou emprestado de Kanye West (…me found bravery in my bravado) para transformar em “I’ll find my own bravado” (Eu vou encontrar meu próprio heroísmo), o que significa que ser adolescente é ir descobrindo aos poucos tudo aquilo que o motiva ou o que realmente quer fazer como projeto.

I was frightened of every little thing (Eu estava amedrontada com cada pequena coisa)
That I thought was out to get me down (Que eu pensei que estava lá fora para me derrubar)
To trip me up and laugh at me (Para me tirar do caminho e rir de mim)
But I learned not to hold the quiet of the room (Mas eu aprendi a não manter o silêncio na sala)
With no one around to find me out (Com ninguém por perto para me encontrar)
I want the applause, the approval, the things that make me go (Eu quero o aplauso, a aprovação, as coisas que me fazem prosseguir)”

O eu-lírico não vê nada de errado em querer essa aprovação, desde que ela venha a partir das coisas que ele sente serem particulares a sua formação, ao seu caminho. Desta forma, bravado, uma palavra difícil de se traduzir, seria ao mesmo tempo encontrar o heroísmo, a coragem e o caminho idealizado em que essa coragem será necessária.

A World Alone expõe a sensação de deslocamento nada incomum na adolescência e a obrigação que paira no ar de que você precisa agradar às expectativas não somente dos outros que têm a mesma idade, mas ao estereótipo que se criou do jovem destemido que precisa experimentar os extremos.

Essa pressão social está nos seguintes versos:

All my fake friends and all of their noise (Todos meus amigos falsos e todo o seu barulho) Complain about work (Reclamando do trabalho)
They’re studying business, I study the floor (Eles estão estudando Negócios, eu estudo o chão)”

E dançar sozinho com um amigo, como diz a música, é criar um próprio mundo no qual você é o protagonista e escolhe as pessoas que pertencem a ele. Nesse ponto, é curioso ver como podemos ser um tanto narcisistas na adolescência. Mas é um narcisismo que, muitas vezes, beira à ingenuidade. Falar aos quatro cantos que, quando for um adulto, fará algo incrível como ganhar um prêmio e ser rico. Esses sonhos que são muito enfeitados na adolescência. Como parecemos estar suspensos num período de espera que, ao mesmo tempo, exige ações importantes como escolher uma profissão, o narcisismo é quase uma defesa, é assumir o discurso de que você tem um valor diante do medo de descobrir que, no fim das contas, há pessoas bem parecidas com você mundo afora. Por isso, nos apegamos tanto às nossas pequenas coisas brilhantes, ao amigo que está ao lado, às nossas opiniões. “Somos um trem desgovernado esperando acontecer”, nas palavras de Lorde. Porque parece que ser adolescente é quase o mesmo que ter a função de colher tudo aquilo que lhe agrada e, o mais difícil, ter que escolher o que mais vale a pena visando o futuro. Sempre à espera do que vai acontecer enquanto o presente parece se estender infinitamente.

Para fechar esse trio de músicas, analisar Team acaba por voltar à Bravado e A World Alone. Por quê? Team tem uma atmosfera fantástica, em que a Lorde optou por desenvolver um sonho que teve. Trata-se de uma sociedade distópica, um time resistente ao mundo. Dancin’ around the lies we tell/Dancin’ around big eyes as well” (Dançando em volta das mentiras que contamos/Dançando em volta de grandes olhos também). Ou seja, a reunião entre amigos em comum na adolescência é quase um ritual em que se cria um momento particular, uma ficção, na qual o adolescente se volta, não deixando também de ser visto pelos grandes olhos daqueles que não fazem parte dela.

“We live in cities you’ll never see on screen (Nós vivemos em cidades que você nunca verá nas telas)
Not very pretty, but we sure know how to run free (Não muito bela, mas com certeza sabemos como correr livremente)
Living in ruins of a palace within my dreams (Vivendo em ruínas do palácio dos meus sonhos)
And you know, we’re on each other’s team (E você sabe, estamos um no time do outro)”

Assim como se dança sozinho no mundo, aqui é o mesmo que viver nas ruínas de um palácio criado por si mesmo e dividi-lo com os outros. Ou ainda, em outros versos de Team, todos estão competindo pelo amor que não vão receber, e o que esse palácio deseja é liberdade de não se ver preso a esse apelo vicioso pelo outro.

Após toda essa análise das letras da Lorde, dá para pensar um pouco mais sobre a adolescência. Ela não é um período que acaba totalmente. Quando completei 18 anos, a dificuldade no primeiro ano da graduação foi a insegurança de ver que havia gente que sabia muito mais do que eu, o desespero de tentar correr atrás desse conhecimento. Aquilo que eu ouvia nas aulas de filosofia sobre encontrar a autonomia e sair da menoridade para Kant, era muito mais difícil do que eu pensava. Não foi nada automático. Com o tempo, você aprende a resgatar aquele “palácio dos seus sonhos” agora entre um realismo mágico, talvez, como um apoio para respeitar o seu próprio ritmo.

Até hoje eu fico pensando na música que tocou no final da minha formatura do ensino médio, Viva la Vida, do Coldplay. Sem dúvidas, ela é animada para o momento. Mas a letra é ambígua e complexa demais. Veja bem: o eu-lírico perdeu a chave do seu reinado. Antes disso, todos seguiam dizendo “vida longa ao Rei” e agora que seu reino foi perdido, resta lembrar o quanto no passado ele costumava comandar o mundo. Essa tristeza pelo rei da letra me fazia pensar se eu estava perdendo o mundo que eu comandava, o meu mundo das coisinhas brilhantes que a Lorde afirma.

Mas isso fica bem claro em Tennis Court, “everything’s cool when we’re all in line for the throne. But I know it’s not forever” (Tudo é legal quando estamos todos na linha do trono. Mas eu sei que isso não é para sempre). É um reinado que não dura para sempre. Não dá para ser adolescente para sempre. Dá para manter, pelo menos, essa vontade de conquistar. Quando você se forma e encontra o mundo – essa realidade aberta – parece que se perde a chave do reinado anterior, mas se ganha uma muito mais humilde. Ainda assim, uma chave para esse mundo que nunca vai se esgotar enquanto você tenta conquistar um novo reinado. Talvez seja esse o significado de crescer.

O álbum completo Pure Heroine pode ser ouvido no Spotify aqui

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

5 comentários em “A adolescência pelas músicas da Lorde Deixe um comentário

  1. Muito boa sua análise! Gostei muito! Escuto Lorde desde que começou fazer sucesso! Porém sempre procrastinei ir atrás do significado de algumas músicas, talvez até por isso não dava valor a ela como valorizo hj, e parte dessa procrastinação, deve se a essa pressão social que vc citou no texto! Eu tava bem novo quando foi lançada e ainda passando por muitas dessas dúvidas adolescentes! A parte do texto que mais gostei, foi a que diz que: “Basicamente, ser adolescente é estar numa peça teatral. E isso não é algo ruim, não. Criar um personagem faz parte do processo, porque é o momento em que estamos dando os primeiros passos para entender quem somos, se isso existe como essência, ou se podemos criar quem queremos ser.”
    Essas coisas entre outras ditas no texto, será a que levamos pra nossa vida toda!

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  2. eu amo essa sua resenha. já li umas 2 vezes. eu tenho 16 anos e a Lorde fala de temas que é como se ela estivesse lendo minha mente (o Pure Heroine é apenas eu em forma de músicca) kkkkkkkkkk. amo os outros também. é muito bom saber como a adolescência realmente é. esse comentário está sendo feito anos depois, mas acho que vai continuar valendo!

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    • oi Diego, fiquei tão feliz com seu comentário, de saber que leu a resenha duas vezes!! pure heroine é uma geração toda e só fica melhor ainda com o tempo. Eu quero ainda escrever sobre melodrama pra me preparar para esse álbum novo da Lorde que nunca sai hauaha um abraçoo

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