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Orelhas grandes

RabbitEarsGCO ponto de ônibus havia mudado. Uma distância – ainda que pequena – maior para percorrer e a necessidade de sair mais cedo para nenhum imprevisto resultar em atraso para a aula. Nenhum ônibus surgia no final da rua, tudo silencioso na manhãzinha nublada e preguiçosa.

-Filha, segura direito minha mão. Cê não pode sair correndo assim…aliás, tu sabe que eu não gosto quando você faz isso e ainda…ontem você foi inventar de brincar com meu celular e quase quebrou.

A menina tinha por volta de quatro anos e olhava de baixo para cima com os olhos inocentes arregalados. O celular toca num tom estridente e a moça atende, conversando com o marido. A menina se agacha, então, e pega uma florzinha vermelha tímida que repousava no cimento, depois de ter caído da árvore. Ela estende hesitante para a mãe.

-É pra mim?

-É, sim.

-Vem cá, vai – disse a mãe arrumando os cachinhos da menina. Desligara o celular.

-Sabia que seu pai sempre passa de moto em frente ao meu trabalho pra falar um oi na hora do almoço? Ele finge primeiro que não me vê, mas depois vem falar oi – ria gostosamente a mãe – e como foi na escola?

-O coelho da páscoa foi lá na escola e todo mundo ficou assustado. Era rosa e grande e gordinho.

-Ué, por que filha? O coelho é legal, dá chocolate. Cê ficou assustada?

-Fiquei assustada, não gostei dele…ele tinha orelhas grandes.

-Mas coelhos tem orelhas grandes! E você não ganhou ovo? Crianças que são boazinhas ganham ovinhos.

-Ele não levou nada! E eu sou a única boazinha que faz tudo lá na escola, eu merecia – lamentou a menina.

O ônibus chegou e a garotinha subiu com a mãe, animada para sentar no espacinho que tinha ao lado do banco. Crianças adoram subir lá, como se estivessem desbravando uma montanha no arriscado sacolejar do ônibus. A conversa entre mãe e filha ressoou por toda a semana na minha mente. Torci para que ela não tivesse medo das orelhas grandes do coelhinho e que ganhasse um ovo de páscoa. E que a florzinha dada à mãe tenha deixado o dia dela mais doce. Da mesma forma que transformou a manhãzinha preguiçosa numa cena cotidiana a ser contada.

*imagem: rabbit ears, from the game cook

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

4 comentários em “Orelhas grandes Deixe um comentário

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