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Bonequinha de luxo: Uma crônica sobre a vivência de um clássico no cinema

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Coluna semanal no Fashionatto 

A tela de um cinema pode guardar os segredos de uma história mantidos por décadas e revelar quando bem entender. Foi essa a sensação de rever o filme Bonequinha de luxo na tela de um cinema. A iniciativa é das redes Cinemark, que abriu três sessões por semana exibindo alguns filmes considerados clássicos, como Taxi Driver, Pulp Fiction, Laranja Mecânica, Nos Embalos de sábado à noite, Grease e Bonequinha de luxo. É provável que tenha outras temporadas de mais clássicos nas telas.

A experiência de rever um clássico na tela parece reposicioná-lo no instante em que a obra é descoberta. Hoje o cinema já o consagrou, mas a exibição na tela renova a aura em torno das cenas. Uma sala lotada de jovens e alguns senhores e senhoras de meia-idade compunha o público que ia ver Audrey Hepburn na pele de Holly Golightly. A sua entrada triunfal na Quinta Avenida descendo de um taxi rumo à vitrine da Tiffany’s, o café da manhã diante das jóias e o ar tranquilo da personagem me pareceram ainda mais intensos do que pela primeira vez em que vi Bonequinha de luxo.

Claro, não dá para contar como um grande parâmetro a primeira vez em que o vi, com treze anos de idade. A questão é que nas outras vezes em que assisti ao filme, as belas roupas e a simpatia de Holly davam espaço ao texto simples e astuto presente no roteiro. Fui descobrir depois que esse era baseado no livro de Truman Capote. E ainda após ler a obra do autor, visualizar o filme agora conseguiu aprofundar ainda mais a relação com a composição dos personagens por seus criadores.

O texto de Capote está vivo no filme. Dificilmente se encontra adaptações que conseguem vivificar as palavras do autor de uma maneira nova, preservando o discurso e a intenção inicial dele, ao mesmo tempo em que se propõem cenas que conseguem acrescentar lirismo à criação literária. Muito do que Blake Edwards decidiu criar na direção de seu filme respeitava o espaço do autor que criou Holly. A fotografia limpa e simples diante do luxo que é Nova York, as transições de cenas feitas pela presença do gato, a trilha inspirada somente em Moon River foram elementos que, hoje, são impossíveis de desvincular do imaginário. Truman Capote também existe pela criação de Blake Edwards.

Nas telas de cinema, a direção de Blake Edwards me soou impecável. A cena bem construída da festa no apartamento de Holly cede um dinamismo maior que na obra literária. E a cena final da película se aproxima mais do ideário dos anos 50 e 60 do que o livro, ou seja, do que se esperava ver em um filme do gênero. Porém, isso não o faz ser uma opção fácil. Se no final de Capote há uma melancolia permanente, Blake Edwards a dividiu em pequenas porções em todo o filme, e pelas palavras do próprio Capote. Tanto o escritor quanto o diretor brincam com os sentimentos do leitor e espectador. Lidando com um tempo alinear, Capote nos faz voltar atrás na história para tentar tranquilizar o coração quanto ao destino de seus personagens. Blake Edwards parece nos colocar em desespero na cena final para, logo, nos recuperar.

De qualquer forma, Capote e Blake Edwards fazem boas jogadas na composição de suas histórias. Na tela do cinema, consegui me encantar ainda mais pela atuação leve e bem dosada de Audrey Hepburn. Entre a sala lotada, foi experimentada a sensação de que estávamos numa sala isolada presente em um tempo perdido o qual havia voltado por poucas horas. Nos trechos quase esquecidos de Bonequinha de luxo, percebi que a tela do cinema ainda consegue ceder um tipo de magia quase inexplicável.

Não estava lá um público apenas querendo ver o que havia idealizado de um filme, que se tornou um ícone respeitável pela tradição. Provavelmente estávamos para isso também. Mas havia uma expectativa tácita de rememorar as passagens que o agradaram em algum momento distante. E que agora poderia ser recuperado com um frescor raro. Assim, pude redescobrir um carinho por Bonequinha de luxo. Um carinho que talvez eu tenha cultivado com o tempo, mas que por essa recuperação viva, ele tenha se tornando um pedaço forte na minha memória.

 

Leia também:

Os 85 anos de Audrey Hepburn, Fashionatto

Bonequinha de luxo, de Truman Capote  em Indique um livro, site do Literatortura

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

2 comentários em “Bonequinha de luxo: Uma crônica sobre a vivência de um clássico no cinema Deixe um comentário

    • Foi fantástico, também vi O poderoso chefão, o cinemark está com nova temporada de filmes clássicos no cinema, vale a pena. Muito obrigada por comentar 😀 continue acompanhando o blog! Abraços

      Curtir

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