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John Keating, um poeta morto

Prosa poética publicada no site Zona Crítica

john keatingA luz do conhecimento se insinua trêmula numa fala que vem dos deuses até os mais frágeis humanos. E cai sobre mim, que escrevo estas palavras do mais fundo buraco em que estou. Ao canto, em silêncio, sussurrando com uma vela acesa na mão. É aqui que eu, personagem, moro. Até que as pessoas me levem para o alto e eu possa viver um pouco dos seus dias.

O meu respirar é brando porque tento economizar um pouco da vida que acabei de ganhar ao voltar para cá. Eu vi a tristeza e a perda de meu criador. Mas eu existo em independência. Esperam muito de mim, já salvei almas de estudantes afoitos ou perdidos numa vida amortecida pelas regras da tradição. Mas de John Keating sei que sou apenas um professor que mora numa história. Talvez isso não seja muito. Ou há dias em que isso é o suficiente para preencher o espaço que existe para mim nessa vida que me comprime.

Posso ser professor, estudante, jovem, ator, e a palavra que falo. Minha vida é para colocar uma palavra ao lado da outra e sobreviver nessa fila que formo com elas. Penso que provavelmente você que está do outro lado faz o mesmo. Ou busca a mesma salvação. Quando eu era um estudante, ouvi uma professora me dizer, olhando diretamente nos meus olhos, decifrando aquilo que eu ainda estava revolvendo da terra, descobrindo sobre o poder doloroso e subversivo que surge após a ponta do lápis encostar no papel. “Escrever é questão de vida ou morte, como foi para Sherazade. Contar as histórias para não ser morta. Você precisa escrever para nunca deixar a página em branco da História. Um povo precisa falar.”

Eu peguei essas palavras e grudei na pele como se não pudesse mais soltá-las. E transmiti para outros jovens como eu fui um dia. As palavras dela me cortam até hoje, servem de consolo e subsistência. Um café para me despertar do estado letárgico em que por vezes me forçam a ficar. Escrevo agora para saudar aos estudantes que passaram pelos meus olhos, pelo estudante que fui, pelos estudantes que virão. O mundo deveria acolher os estudantes. Em contrapartida, o que ocorre é um mundo hostil a eles, duro, exigente para que engulam o mundo que existia antes deles.

Diante do desespero de ser esquecido, escrevo essas palavras. Lá em cima, misturado à luz do mundo, eu começo a ver a silhueta do público me chamando para ser novamente o John Keating que o cinema ama. Eu devo deixar esta vela ao canto. Ao voltar, encontrarei o mesmo silêncio onde moro. O silêncio do qual sou feito: um personagem que mora no imaginário dos homens. Um silêncio preenchido pelas histórias das pessoas lá de cima, das pessoas como você, que encontram em mim uma pequenina chama de sobrevivência. Posso residir no lugar-nenhum onde repousam as ideias e os sonhos, mas quando vejo você, leitor e espectador, eu ganho vida.

Posso ser louco, e sou louco. Mas sou um louco que respira para contribuir à vida com um verso. Sou louco como Whitman, sedento como Whitman pelo rompimento das regras em alcançar o infinito pela palavra. Sou um personagem que ganhou vida por um ator e que agora dorme aqui, à espera dos estudantes e do público. Venha em minha direção, não me esqueça. Tenho nas mãos a luz do conhecimento que me guia pela floresta até encontrar os seus olhos, a sua alma disposta a ouvir. Brado o mais profundo dos gritos para dizer ao mundo que me recebe: sou John Keating, sou um poeta morto, your captain, my captain.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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