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Ode ao outono

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O lamento pela morte que o outono anuncia é o mesmo que celebrar uma vida que se desmancha no chão e, heroicamente, persiste até as últimas cores. O verde se converte a um amarelo e laranja que cultivam a vida de cor a qual clama pelos últimos instantes de sol. A cor se aproxima da divindade e toca a fenda da qual se libertam os segredos da morte.

O fechar dos olhos diante do sol reproduz a mistura de cores que surgem ao abrir os olhos. Fecho e vejo o milagre das cores que se unem em manchas, e o descobrir das pálpebras é o movimento que ascende ao repetido, as mesmas cores, olhos e natureza unidos por um instante da percepção, percebendo o outono.

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Dir-me-ia Flora que a primavera é a cor dos séculos, a mais bela e persistente. Contudo, digo que o outono encanta por resistir entre os ventos. Estes mesmos ventos balançam as árvores, as quais sustentam por dias as folhas que mudam em mesmo ciclo a cada ano, árvores inauguradas pela cor mais impossível. E, então, nestes dias que parecem eternos, o vento começa a tocar as folhas. Em sua resistência frágil, as folhas reproduzem uma dança nos céus em que seus lados tremeluzem nos galhos e, juntas, as pequenas sobreviventes se comunicam harmonicamente ao falar de sua preservação no galho que as sustenta. Por mais um minuto ou dias.

A morte das folhas é, porém, por completo o último suspiro. Pois elas ainda se esparramam pelas terras e perdura a cor que antes enfeitava o céu. Vê se um mar imponente na terra, parecendo ter destilado do sonho a pureza absurda e, assim, a natureza surpreende por trazer o oceano aos bosques mais ocultos. E, lá em cima, os galhos costuram o cinza do quase inverno, como se guardasse para si o esforço que fora, antes, de preservar e produzir aquelas folhas. Ficam como costuras entremeadas na neblina, e as poucas folhas que ainda respiram se formam como pequenas folhas-estrelas, com suas pontas iluminando o céu e a morte.

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A noite passa a se anunciar com prontidão e as seis horas da tarde viram noite, abafando as cores. Não é fácil presenciar a morte do outono. Pois como celebração, ele encanta; mas a ameaça do inverno e os galhos descobertos se tornam táteis a cada dia. Mais um passo próximo à queda. Talvez seja injusto dizer isso do inverno, o qual virá como estação de mais novos encantos e nova vida à cidade parisiense. Contudo, o outono fala da morte exaltando suas cores e sua fragilidade, alerta para o instante seguinte e obriga a se apegar ao olhar e ao instante de forma tão profunda quanto a folha que ainda resiste. É uma força pela consciência da fragilidade. Talvez seja por isso, então, que o outono é uma estação corajosa.

São as cores das folhas as quais os pássaros em revoada se aproximam para se alimentar, em um sobrevoo conjunto que deixa desenhos no céu e liberta mais folhas dos galhos. A queda delas é a vida deles. E o encanto natural persiste. O cachorro que rola pelas centenas de vidas amarelas na terra enquanto uma pequenina folha se prende a unha dele e sobrevoa o corpo do cãozinho, e o faz novamente, formando um arco, como se folha e cão brincassem na terra das folhas que descansam. Ambos rolando e embalando a vida e morte do outono, na celebração que dura um mês belo e inesquecível pelas cores e as folhas guardadas em livros. Para que o humano preserve em corpo da folha, entre as páginas, o espetáculo visto nos mais belos dias de cores que saem dos sonhos dos artistas e permeiam céu e chão. Um rompimento do impossível de todos os mundos, o outono.

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Créditos de imagem: Marina Franconeti, meus dias encantada com o outono de Paris

Categorias

prosa poética

Tags

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

5 comentários em “Ode ao outono Deixe um comentário

  1. Lindo texto, inspirador, nos dá muita vontade de conhecer Paris no outono. Você sabe descrever com poesia e sentimento. As fotos são maravilhosas. Continue aproveitando seus momentos em Paris.

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