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Ambrosia

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Procurei pelos mercados

Entre plásticos, pessoas e potes

Os vestígios de sabores perdidos

Da boca que prova o passado

E o devora guardando

No mais interior profundo

As memórias digeridas.

Elas aguardam,

Para em choque retornar

Na forma de cereja vermelha

Que minha mãe segura entre as mãos.

Juntas escolhemos,

Em busca infantil,

Em comunhão de mãos que pesquisam

A pequena ambrosia

Em vinho lustrado.

Como dói ver aquelas vermelhas

Quase pretas,

Ostensivas em suco e doçura.

Os dedos cavam entre as manchas

Na busca das mais maduras

Mas o caminho mistura os dedos,

Em carne e vermelho

E eis que se convocam as memórias

De infanta vontade

De provar a pequenina.

A preciosa cereja,

Que antes era breve frutinha,

Mas que agora ganha ares

De grande simbologia,

De uma comunhão guardada pelo tempo

Grandioso e atemporal.

De cereja que veste o Natal

Em vinho resplandecente

Que compõe, ao fim,

O grande pavilhão brilhante

De minhas memórias, vivas, enfim.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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