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Crítica | Roda Gigante

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Publicado no site A Toupeira

Uma ex-atriz sonhadora que desistiu da carreira no teatro. Um rapaz aspirante a dramaturgo. Uma garota a qual busca reconstruir a vida longe do gângster que amou. São esses os personagens principais do novo filme de Woody Allen, “Roda Gigante” (Wonder Wheel), que estreia nesta quinta-feira (28).

O longa podia certamente ser encenado em um palco. Todo o intuito das passagens de diálogos longos e a ênfase nos tipos humanos soam como uma peça teatral ambientada na famosa Coney Island. Entre a brilhante praia, os mundos artificiais e ilusórios do parque de diversões, narrativa tragicômica escrita por Allen se estabelece.

A história conta o drama de Ginny (Kate Winslet), infeliz em um casamento com Humpty (James Belushi) e a paixão pelo salva-vidas Mickey (Justin Timberlake). O caos no centro familiar é dado com a vinda de Carolina (Juno Temple), filha de Humpty, fugindo da vingança de um gângster.

O roteiro de Allen soa como um pastiche de suas próprias obras. Ele repete as várias fórmulas que já desgastou no decorrer de seus últimos filmes. É verdade que “Roda Gigante” é melhor que o maçante e sem vida “Magia ao Luar”, mas sem a dose boa de melancolia em “Blue Jasmine”. E sem a magia adocicada de “Meia-Noite em Paris”. Todas as reviravoltas na trama são esperadas. Certamente, não é ruim que se saiba o que vem pela frente no enredo de um filme. Mas, se bem preparado o terreno e a atmosfera, aquilo pode funcionar. O que ocorre, porém, é o erro de o roteirista e diretor repetir, sem a menor dedicação, os estereótipos e viradas de roteiro já utilizados à exaustão nas suas histórias.

O índice mais forte é a personagem de Kate Winslet. Allen insiste em construir personagens femininas à beira da loucura ou ataque de nervos. Contudo, se em “Blue Jasmine” Cate Blanchett consegue dar grandeza à protagonista que deixou de ser rica e precisa trabalhar, se adaptando à vida sem luxos, pouco resta para Kate Winslet trabalhar com o roteiro fraco que tem em mãos. “Roda Gigante” é uma tentativa de aumentar o tom cômico e as cores que “Blue Jasmine” equilibra com sobriedade, soando como cópia colorida. O que ocorre é que, se pretende ser cômico e inesperado, não consegue com o roteiro de piadas batidas e personagens com os quais é difícil de realmente se envolver.

No fim, todos soam como peças mal utilizadas no filme. Ginny, de Kate Winslet, teria possibilidades interessantes com o seu passado de atriz. Mas ela só se torna a visão que Allen repete, em seus filmes, de muitas de suas personagens, com a diferença de que em “Blue Jasmine”, finalmente, a loucura que ele dá àquela personagem feminina faz sentido diante de tudo pelo qual ela passou. Enquanto isso, a versão de Allen para seus personagens masculinos são sempre aqueles que, mesmo com seus dilemas psicológicos e neuroses, se saem bem ao final, pelo menos com a chance de se realizarem intelectualmente.

De “Roda Gigante” realmente só fica a qualidade da fotografia. O grande protagonista do filme é, de fato, o trabalho refinado de Vittorio Storaro, pois é ele quem concede à produção alguma qualidade destacável. Coney Island é mostrada na tela com todos os tons possíveis de nostalgia daqueles verões litorâneos com parques de diversões para amenizar o tédio. A luz também fornece um papel importante para dar atmosfera aos sentimentos dos personagens, do azul se vai ao laranja, retorna-se ao azulado, se há discussões e intensidade, ele usa rosa ou vermelho. Tudo isso para mostrar como é falso o universo dos personagens que vivem ao lado do parque de diversões.

O grande problema é que, mesmo contando com esse trabalho de Storaro, a iluminação e fotografia perdem seu potencial quando o ator ou atriz precisam falar os diálogos. Eles parecem fora de tom, com uma comicidade na hora errada, não contribuindo para justificar as atitudes dos personagens.

Dentro de casa nada é belo como parece. E essa mensagem, que Allen fica enfatizando tanto durante o filme, só surge com beleza pela luz e fotografia, mas não pelo roteiro. Ao fim, o longa não permite emoções e nem construir impressões sobre os personagens, e mostra um Woody Allen tentando aplicar a todo custo as mesmas histórias que já contou.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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