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No caminho de Proust: lembranças da leitura no aniversário do autor

 

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Neste dia 10 de julho, nasceu Marcel Proust, autor do grande empreendimento literário Em busca do Tempo Perdido. Conhecido pelas madeleines invocatórias da memória involuntária, Proust é um autor que, de forma equivocada, por vezes é temido. Dada à concepção de que suas obras são complexas por conduzirem um fluxo de consciência detalhado – elas são as verdadeiras ações na história – tornou-se um sinônimo de vasta cultura ter atravessado os livros dele. Infelizmente, dizer às pessoas que se leu Proust (ou pelo menos um livro dele) virou uma afirmação elitista, o que com toda certeza é preciso rebater.

Tratar Proust dessa forma é um equívoco grave. Porque sua obra fala sobretudo da memória e da vivência humana. Ele conseguiu colocar nas páginas a grande complexidade que é habitar no mundo: receber inúmeros estímulos pela percepção, sensações que se chocam com os nossos sentidos e os quais passam a morar no lugar oculto do inconsciente, até que elas veem à tona e redescobrimos o nosso mundo particular. Inúmeras vezes, na vida, somos assaltados por lembranças da infância, da adolescência, coisas que permaneceram adormecidas. O que Proust torna sua literatura é, porém, mais do que um mero relato de vida: ele recria a própria narrativa a partir das sensações que, muitas vezes, deixamos que morram novamente quando trazidas à consciência e resolvemos ignorar seus poderes. Proust indica que há uma profundidade densa em todos nós.

E, por esse motivo, achei que no dia de seu aniversário, eu deveria contar, reacender o que eu vivenciei lendo Proust no semestre da graduação em que estudei em Paris, na Sorbonne. Fiz seis meses como bolsista da USP nessa universidade histórica. Um sonho de infância ver Paris, que de alguma forma culminou no momento em que pude visitar todos os museus que amei minha vida toda, poder ver os quadros que estudo além das suas reproduções. E aí tive Proust como a leitura central da disciplina de literatura do século XIX. Tive sorte porque alguns amigos fizeram matérias que exigiam mais do que cinco romances em francês por matéria. Eu tinha outras disciplinas, mas para essa, eu precisava apenas ler um livro do Proust, À Sombra das raparigas em flor (À l’ombre des jeunes filles em fleur), o segundo volume de Em Busca do Tempo Perdido.

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manuscrito de um dos volumes de Em Busca do Tempo Perdido, créditos: Gallica/BNF

O engraçado é que não se trata de uma facilidade: ler qualquer coisa em francês já é um desafio. Ter que ler, escrever em provas e trabalhos, ainda mais; às vezes lembro com espanto de que eu enfrentei mesmo tudo aquilo. Por esse motivo, Proust se tornou a companhia mais assídua dos meus dias: eu ia para a cozinha, e os colegas me perguntavam como ia o Proust. Ele visitava os museus comigo, era o livro que dormia ao lado da minha cama, meus pais perguntavam dele nas ligações por skype. O livro virou uma pessoa, o próprio Proust, um confidente. Na semana em que ocorreu o atentado em Paris e eu sentia muito medo de lugares públicos, foi quando Proust recriou o meu quarto como um lugar seguro – lugar onde ele também se resguardou do mundo – e se tornou meu melhor amigo e distração para os medos.

Quando retornamos às aulas após o atentado, a professora se emocionou ao dizer que, mesmo em um mundo com situações que ultrapassavam nosso entendimento e coisas terríveis aconteciam, ainda havia resquícios de beleza no fato de que estávamos reunidos naquela sala para falar de Proust e trazer de volta as suas palavras, de falar sobre algo de uma ordem tão delicada da própria vida. E, com essa frase, continuei até as últimas páginas do livro.

Foi então que aconteceu a situação mais mágica que vivenciei com um livro. Eu precisava terminá-lo, provavelmente fui a aluna mais lenta para finalizá-lo, todos já tinham terminado há dias. Proust acabou tendo que dividir o tempo com Kant, trabalhos de filosofia e arte, e me vi tendo que ficar muitas e muitas horas dentro do quarto lendo sem nenhuma distração. Cortei tudo, era só eu, Proust, sopa instantânea, e um oi para os meus pais e alguns amigos do andar do meu quarto. Nesse momento, passei a consultar também a tradução do Mario Quintana, para comparar e ler as notas, e devo dizer que a mistura entre Proust e Mario Quintana foi a alquimia das mais belas, porque o poeta conseguiu realmente traduzir Proust acessando o invólucro das palavras e das sensações.

Dias vivendo basicamente dentro do livro, comecei a notar que minha mente estava existindo completamente nas praias de Balbec com Marcel. Tenho lembranças dos lugares, como se fossem minhas. Conheci as meninas em flor que o encantaram. Elas chocaram o narrador, na verdade, por serem seres livres e muito mais do que as invenções da mente de Marcel. Andam em suas bicicletas, com vestidos confortáveis, desafiam a gravidade e os ventos marítimos, e se tornam, na nossa imaginação, borboletas que nascem no impossível do penhasco de frente ao mar.

A magia implodiu nesse contexto. Já estava em uma leitura tão intensa e envolvida que o meu quarto se desintegrou por completo nas últimas páginas. E, em prováveis cinco segundos, o canto do armário foi substituído por uma floresta, onde estavam Marcel, Albertine, Andrée, as amizades de Balbec sentadas no chão, muito perto de mim, rindo e brincando de um jogo semelhante ao passa anel, como a cena do livro. Não foi um caso de mera imaginação; foi como se eu tivesse materializado corpos e florestas no quarto e os visto diante de mim com a exatidão com que veria se estivesse mesmo no meio das árvores. Sempre um pouco se perde quando as sensações são acordadas, mas o souvenir daquele instante permaneceu muito vivo. Se escrevo isso, no dia do aniversário de Proust, é porque acordei com esse sonho ainda me espantando, quase cinco anos depois.

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meu registro do último dia de aula de Proust

No dia seguinte, ao sair de casa após ler o livro e dias isolada nas páginas, o frescor do frio com o sol invernal estava mais acentuado, meu corpo sentia mais os passos, extraía os detalhes. Até que uma mulher passou por mim, de sobretudo creme, a bota ecoando um barulho no concreto, cabelos loiros, o ineditismo de um batom vermelho e um perfume forte – muitas francesas não usam maquiagens e perfumes que se perceba – e, por ter saído recentemente das imaginações de Marcel sobre Albertine, o perfume permaneceu. Lembro de rir sozinha na rua, entre o choque de verificar que o mundo tinha muito dos livros de Proust e os livros de Proust carregavam muito do mundo com eles.

O trabalho inicial que apresentei sobre a metade do livro teve uma nota bem fraquinha. A escrita dele coincidiu com a semana pós atentado e, mesmo não falando para a professora que foi por isso, ela deixou que eu refizesse. É muito irônico que eu tenha ido muito melhor depois, numa prova escrita à mão, sem nenhum dicionário para consultar e nem tempo para pensar, do que num trabalho digitado e feito por dias. Mais uma relatividade do próprio tempo. A prova feita assim que terminamos o livro em meados de dezembro, foi sobre a vocação do escritor no decorrer da obra. Sorri diante do tema, e mergulhei no papel. Havia naquela prova um ponto de onde eu podia realmente partir, como se Proust tivesse me ajudado, pelo seu livro, a colocar minha própria narrativa na dele: o crítico, o pintor, as meninas em flor, a jovem da calçada, o perfume, a floresta evocada no quarto. Na intensidade quase enlouquecida de terminar a obra para uma prova, eu esqueci da própria prova e tornei o livro inteiro de Proust a minha própria vivência.

“A sabedoria não se transmite, é preciso que a gente mesmo a descubra depois de uma caminhada que ninguém pode fazer no nosso lugar, e que ninguém nos pode evitar, porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas. As vidas que você admira, essas atitudes que lhe parecem nobres, não as arranjaram o pai de família ou o preceptor; começaram de modo muito diverso; sofreram a influência do que tinham em torno, de bom ou de frívolo. Representam um combate e uma vitória. Compreendo que não mais reconheçamos a imagem do que fomos num primeiro período da vida e que nos seja desagradável. Mas não há que renegá-la, porque é um testemunho de que temos vivido de acordo com as leis da vida e do espírito e que dos elementos comuns da vida – da vida dos ateliês, dos grupinhos artísticos, se se trata de um pintor – tiramos alguma coisa de superior a tudo isso”.

Referências bibliográficas:

PROUST, Marcel. À l’ombre des jeunes filles en fleur. Édition présentée, établie et annotée par Pierre-Louis Rey. Paris, Gallimard, 1988.

PROUST, Marcel. À Sombra das raparigas em flor. Tradução de Mario Quintana. Porto Alegre: Editora Globo, 1981.

Crédito da imagem de capa: manuscrito de Marcel Proust, Gallica BNF

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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