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Souvenirs da infância

art

Textinho que escrevi em homenagem aos 40 anos da escola em que estudei, colégio Henri Wallon, para a página do facebook. Quase inevitável, ele acabou saindo como uma crônica poética e cheia de saudade, resolvi trazer pra cá.

 

Na escola da minha infância, eu descobri uma vida inteira. Quarenta anos de escola e o que tenho para lembrar dos meus anos é só coisa boa. Não são fragmentos da infância, mas sensações muito vivas, de criança correndo na areia, risos no recreio, lanchinho dividido entre os amigos, livros descobertos, conversas na biblioteca, instantes em que descobri a palavra escrita.

Por coincidência, esses dias estive relembrando de onde vieram as ideias e os temas da minha dissertação de mestrado, esse projeto de escrita interminável que embalo com tanto afeto, mesmo em dias caóticos como os desse ano. Tenho formação em Filosofia pela USP e agora estou nos últimos meses de mestrado, na área de Estética, estudando Manet, o feminino e a pintura francesa do século XIX. Foram nas aulas de artes que, sem imaginar o que viria, descobri aquilo que estudaria a vida inteira. Encontrei o desenho, as cores, o fascínio pelo impressionismo. Da Vinci, Picasso, Monet, Michelangelo. Até o século que eu estudo já anunciava que teria domínio na minha vida quando acabei interpretando Fantine, numa adaptação de Os Miseráveis que fizemos na escola, na primeira série. Uma adaptação muito curiosa e alternativa, com máscaras da tragédia, dramática para os meus sete anos.

sakura studying

A relação com os estudos, como um processo delicado, vivo e prazeroso, veio com certeza das atividades diversas feitas na escola. As apresentações anuais para a Fecriarte, as iniciações científicas para o F.I.C. já eram um prelúdio para a pesquisa acadêmica envolvida sempre com as artes. Foi com muita surpresa que percebi ter tornado tudo aquilo que me saltava aos olhos como beleza e cheio de alegria em um projeto para a vida, escrever ficção, pesquisar filosofia e arte.

Cada trabalho de literatura, para as aulas de português, era como suspender o tempo e habitar os livros que lia. Os exercícios de extrapolar o tema e criar maquetes, bonecos, jornais, revistas, dar vida em massinha aos personagens, adentrar naqueles mundos e realmente pesquisar, foi uma realização que carrego com tanto carinho, porque havia lá um entusiasmo e envolvimento de toda uma sala para criar ideias. De forma quase mágica, recriei a igrejinha de O Pagador de Promessas, o sapato da Dorothy de O Mágico de Oz, o Profeta Diário do Harry Potter, um escafandro por Desventuras em série, um diário na voz de Bentinho de Dom Casmurro.

from up on poppy hill 2011

Por isso que, quando voltei ao Henri Wallon em 2019, para fazer um estágio pela licenciatura, foi como se eu não tivesse exatamente saído de lá. Revi a escola com novos olhos, me encantei com o trabalho das professoras em sala, com a experiência incomum de poder acompanhar o processo de alfabetização. Não havia relação tão direta com filosofia, mas havia com escrita. Ver aquelas crianças descobrindo a fala, a escrita, a brincadeira, foi como finalmente dar um laço com a pontinha que eu segurava desde a minha infância, entre a palavra escrita e as cores das pinturas.

 

créditos das imagens: simply sminty (pinterest); Sakura Card Captors (1996-2000); From up on poppy hill (2011)

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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