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Homenagem a Jane Austen | Redescobrindo Orgulho e Preconceito

Como homenagem a Jane Austen em seu dia de morte, uma releitura de Orgulho e Preconceito me levou a diversas novas perspectivas da autora. Sem exatamente me planejar, fui chamada de volta às páginas da autora e o livro foi um alento nessa quarentena. Abrigar-se entre as terras de Longbourn, Pemberley, Rosings, Netherfield, as histórias das irmãs Bennet e o romance entre Elizabeth e Mr. Darcy têm a capacidade de nos fazer respirar com mais calma ou suspirar pelas sutilezas amorosas entre as falas, apreciar uma vida no campo além dos muros dessa quarentena.

Desta vez reli Orgulho e Preconceito por uma belíssima edição da Giz editorial, traduzida por uma amiga querida, Carol Chiovatto, e com um ótimo prefácio de Adriana Amaral, situando o valor da obra nas adaptações midiáticas. A tradução é de tamanha qualidade que é possível sentir a equivalência da voz e da pena de Jane Austen, um trabalho muito bem feito que respeita a linguagem e as particularidades do período. Talento da autora e da tradutora, conseguimos ouvir os personagens como se estivessem ao nosso lado.

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A história de Orgulho e Preconceito ficou muito popular. Elizabeth Bennet tem quatro irmãs: Jane, Mary, Kitty e Lydia, cada uma com um temperamento. As duas últimas, jovens, sonham em se casar e adoram perseguir regimentos de militares entre flertes e bailes; Jane é a doçura e a inocência, irmã mais velha, que vê sempre o melhor nos outros, esforçando-se para ponderar e encontrar bondade. Já Elizabeth incorpora a astúcia de quem estuda as características do outro, sempre desejando dizer algo distinto e irônico, porém muitas vezes sincero, na convivência entre famílias.

O grande enredo se constrói em torno das mudanças de perspectivas que Elizabeth e Darcy fazem um do outro e a relevância do matrimônio para a sobrevivência das mulheres. A mãe de Elizabeth, Sra Bennet, deseja casar cada uma das filhas por conta de um fato terrível: se o pai falecer, nem a casa nem seu dinheiro vão ficar para as filhas, mas para o primo, Sr. Collins, o herdeiro mais próximo do sexo masculino. Essa ameaça é sutil, mas deve ser destacada: como elas viveriam sem casa e sem o dinheiro do pai, com o risco de serem desalojadas pelo primo? Por isso o casamento, nesse caso, é questão de sobrevivência.

Carol Chiovatto, no posfácio da edição, comenta sobre esse ponto para que tenhamos atenção ao fato de que o desejo da Sra. Bennet vai além de mero interesse pela riqueza:

Quando Lizzy pensa que poderia ter sido dona de Pemberley com uma boa dose de arrependimento, aos olhos de hoje ela certamente parece interesseira, mas se trata apenas do modo como a sociedade estava configurada, e Austen nos exibe isso com maestria ao revelar tais pensamentos da sua protagonista.

Jane Austen acaba por construir uma relação amorosa que tem grande complexidade e fascínio ao leitor porque é humana, pois acompanhamos os erros e acertos desses dois personagens. E é um afeto que se cria mesmo com as condições comuns de se casar sem amor. A balança que ora se desequilibra entre vaidade, orgulho e as concepções errôneas que se cria a partir das aparências. Jane Austen entendeu seus personagens como Shakespeare, e digo isso não com a intenção de igualá-la a um homem para que, assim, tenha valor. É para dizer que tanto ela quanto Shakespeare são essas duas vozes populares que, com o tempo, adquiriram demais a imagem da cultura britânica, e isso é grandioso.

Considerando que já ouvi um colega e outro diminuindo o valor de Jane Austen, dizendo que era “só uma autora de livros para mulherzinhas”, lembrar e estudar sua obra é uma necessidade. Pois esse preconceito se estende a toda e qualquer autora que venha a pegar uma caneta (ou pena) e a escrever uma história. Se ela resolve falar de amor, é lida como frívola, deve esconder seus manuscritos. O que Jane Austen fez foi identificar a sua própria época e revelar hábitos entre as pessoas que vão além do período regencial, e mais: consegue estabelecer uma crítica dentro das próprias estruturas do matrimônio.

Não é à toa que é possível contar a história de seus livros em um cenário contemporâneo, como em The Lizzie Bennet Diaries, porque seus personagens tem vivências que, mesmo permeadas pela sua época, exibem os vícios e virtudes humanos, o que nos cativa. Jane Austen construiu uma obra que conseguiu falar do matrimônio sem que esse fosse somente um único discurso e influenciado pela perspectiva masculina, onde a mocinha acaba por ter um único molde e o homem, cheio de virtudes ou merecedor de recomeços ao fim da história. É plural, cheio de nuances, de relações igualitárias, desiguais, felizes ou cheias de desventuras.

Austen falou de pobreza, abandono, categorias sociais, perdas, amor, irmandade, controle familiar, construindo camadas profundas e ocultas nos diálogos, prontas para o leitor redescobri-las. Os personagens masculinos de Jane Austen são um caso à parte, pois é o olhar ativo de uma autora sobre um gênero que, majoritariamente, é posto como única fonte de afirmação na literatura. Nesse caso, é uma escritora falando sobre amor, desejo, casamento e normas sociais, submetendo também o homem à posição de objeto observado, não apenas observador.

As adaptações

Quanto às diversas leituras de Orgulho e Preconceito, as adaptações da BBC, feita por Andrew Davies em 1995, e o filme de 2005 de Joe Wright, são belos complementos entre si do universo do livro. Se o primeiro tem uma fidelidade ao texto e ao espírito dos personagens, o segundo consegue demonstrar com excelência a interioridade deles. Curiosamente, mesmo Jane Austen sendo o contrário de uma autora gótica, a adaptação de 2005 tem algo das heroínas góticas reflexivas, intensas, entre penhascos e belos cenários, com a natureza refletindo os sentimentos humanos. O diretor conseguiu algo que era impossível, juntou algo de Jane Austen e Emily Brontë, sem que parecesse um híbrido ou uma traição à escrita de Austen.

Ambas as adaptações lidam com o erotismo do romance de forma muito particular. A obra da BBC criou em torno de Mr. Darcy o ar de ícone ao acrescentar a cena em que ele sai do lago diante de Lizzy, tornando Colin Firth um símbolo sexual e fonte de suspiros femininos. Essa iniciativa é, na verdade, um gesto de frescor ao mostrar que o corpo e a imagem masculinas também incitam desejos. Na versão de 2005, com o também admirado Matthew MacFadyen, a cena em que Mr. Darcy dá a mão à Lizzy é uma das mais belas cenas, onde a tensão sexual reside em um simples contato entre peles. A cena da tempestade, com a confissão de Darcy, é a grande junção dos sentimentos confusos dos dois e a natureza. E ambas as adaptações deram um jeito de inserir os beijos sonhados nas páginas do livro.

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Os personagens

Tratando-se de uma sátira social, temos vários tipos humanos nas páginas de Orgulho e Preconceito. A elite que chega à região, se instala e incita comentários das famílias, sonhando em conseguir alianças pelo casamento, está na forma de Bingley, seus amigos e Darcy. Lady Catherine também outra face complementar dessa classe, que recebe os demais em sua casa e dá suas opiniões para melhoras da região com a superioridade de sua classe e dinheiro que excede os limites, porque ela deixa bem claro no seu discurso que é praticamente dona da vida alheia. Sr. Collins, que a exalta tanto quanto exalta Deus, é o resultado dessas relações, onde ele preserva o poder da classe dominante ao se por como seu inferior prontamente. Aqui o orgulho de Collins está em servir; em Lady Catherine está na reputação e dinheiro; e mesmo o doce Bingley cede demais seu orgulho e decisões aos amigos.

Sr. Collins, inclusive, é um personagem interessante na obra porque ele não difere em nada de tipos que vemos hoje. Extremamente pedante, inicia monólogos cheios de teologia e moralismo, com uma sede de se mostrar inteligente. O engraçado é que todo mundo percebe isso, mas ele nunca vai levar uma rasteira a ponto de rever seu comportamento. Porque se acha tão incólume e superior só por ser temente a Deus, o ego nunca será posto em conflito. Sua ignorância é, de fato, uma benção. Apenas para ele, não para quem o escuta todo dia.

Já Mr. Darcy é o grande centro dessa história de uma construção muito sábia, de um ego que é abalado justamente por uma jovem de classe inferior a dele. Ele começa esnobe, diminuindo a beleza de Lizzy no baile, passa a se encantar por seus olhos e comentários inteligentes, culminando em confissões que, mesmo quando demonstra sua fraqueza, busca diminuir a família e a classe de Lizzy. Ela, por sua vez, mantém suas virtudes ao se por ao lado da família, um orgulho contrário ao de Darcy: em vez da superioridade elitista, o orgulho de Lizzy é bem humano ao defender aqueles que ama.

Darcy passa a se reconstruir com os fatos que ocorrem com o tempo. O ápice do enredo envolvendo a família de Darcy e Lizzy é o instante em que ele se vê num conflito moral: tentar resolver situações do passado e impedir que a desgraça, que iria ocorrer com a irmã, não ocorra com outra. E, ainda assim, é um gesto velado de amor por Lizzy. Não conta a ela para ganhar vantagens, faz porque não deseja a ela e sua família a desonra, a pobreza. Vamos acompanhando esse processo de Darcy, em que ele identifica o erro que foi presumir coisas a partir da aparência, da classe, e interferir na vida dos outros de forma negativa.

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Lizzy também se confronta com as falas que deixa para trás. Sua perspicácia – assim como a de Darcy, em outro nível – é um desejo que a própria assume de afagar o ego ao encontrar um inimigo em comum. Zombar do outro, preencher as horas com falas cômicas e se envolver nas versões do outro sobre uma pessoa acaba criando uma bola de neve que deturpa a imagem que tem sobre Darcy. O conflito é esse: Darcy é quem aparenta ser? Não é como se ele também se esforçasse pra mostrar suas virtudes na convivência. Mas Lizzy confronta o próprio ego ao ver que não deveria ter cruzado os limites da razão, atormentada pelo regozijo do ego.

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Tanto essa situação pessoal com Darcy quanto a ameaça do futuro de sua família desafiam Lizzy a reencontrar seus princípios. Não deseja se casar sem respeitar, amar e admirar o marido. Vive perigosamente porque pedidos de casamento vindos de homens distantes ou que lhe são desprezíveis distanciam ainda mais a família de se salvar.

“Não se casar significaria penúria. Com um escândalo na família, nenhuma delas conseguiria sequer um trabalho digno com que prover o próprio sustento e precisariam contar com a caridade de familiares” (CHIOVATTO, 2016 p.398).

Por isso o que Lizzy enfrenta é pesado. Acima de tudo, é muito ousado para o seu contexto e época, e tão fácil de se colocar ao lado da personagem, por escolher os sentimentos.

Orgulho e Preconceito é, então, esse encontro de personagens que, tão bem esculpidos por Jane Austen, se torna uma obra facilmente querida. Amada por adolescentes, adultos, do período regencial até os dias (conturbados) de hoje, Jane Austen continua a falar e a promover relações de carinho do leitor com sua obra através do tempo.

Mais uma homenagem

Redescobri um desenho que fiz da personagem Elizabeth Bennet em 2011 e resolvi refazer, agora em aquarela, quase dez anos depois. A diferença é gritante, e uma alegria poder render uma homenagem dessas a uma história que amei tanto.

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Referências bibliográficas

AUSTEN, Jane. Orgulho e Preconceito. Tradução, notas e Posfácio de Carol Chiovatto. Apresentação Adriana Amaral. São Paulo: Giz Editorial, 2016.

CHIOVATTO, CAROL. Feminino e sociedade em Jane Austen: Casamento, afeto e sobrevivência in AUSTEN, Jane. Orgulho e Preconceito. Tradução, notas e Posfácio de Carol Chiovatto. Apresentação Adriana Amaral. São Paulo: Giz Editorial, 2016, pp.394-399.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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