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Os filmes que vi do Festival Varilux

Os filmes que vi DO Festival Varilux

Até o dia 27 de agosto, cerca de 50 filmes franceses legendados ainda estarão disponíveis gratuitamente na plataforma streaming Looke, todos do catálogo do Festival Varilux. Como sempre prometi a mim mesma assistir aos filmes do festival e, todo ano, dava um jeito de adiar, a quarentena me forçou a cumprir com a promessa. Venho assistindo nas últimas semanas e a experiência está sendo ótima. Tem filmes com referências clássicas e literárias, outros são o melhor das produções dos últimos anos. Por isso montei uma listinha com os que vi até agora, vamos ver se consigo ver mais filmes no decorrer do mês e montar mais uma.

Gemma Bovery – A vida imita a arte (2014)

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Filme bem-humorado e despretensioso, em que o protagonista é um padeiro e editor aposentado, que vê uma jovem chama Gemma Bovery chegar à Normandia com seu marido. Ele enlouquece com as coincidências que ocorrem relacionadas à Madame Bovary, de Flaubert, a começar pelo nome, pelo local e, bem, pelos possíveis romances proibidos. Alguns acontecimentos são óbvios, coincidem com o livro. Ainda fica na visão restrita masculina dessa personagem erotizada: o padeiro admira constantemente a jovem, há toda essa aura em torno dela. É bom lembrar que Bovary ainda é uma representação escrita por um homem. Ainda assim, é um filme que entretém e entrega algumas surpresas que invertem um pouco a narrativa de Flaubert. Diverte e dá vontade de voltar às páginas do autor, porque várias cenas reproduzem trechos memoráveis da obra.

O mistério de Henri Pick (2018)

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Às vezes o cinema francês parece um bairro pequeno, que nem as produções britânicas, e aí você vê o mesmo ator em vários filmes. Fabrice Luchini está em Gemma Bovery e em O Mistério de Henri Pick. Simplesmente amei esse filme. É cômico, inesperado, e fala de livros. Na história, temos uma editora que procura novos romances para publicar. Um dia, ela visita uma biblioteca de manuscritos rejeitados e encontra uma história nunca antes publicada. Detalhe: foi escrita por um pizzaiolo chamado Henri Pick. Só que a família nem sabia que ele escrevia. O livro vira uma febre, e um crítico literário neurótico e obcecado quer descobrir a identidade do autor. Sendo um cara muito elitista, deseja demonstrar que Henri Pick não existe e que pizzaiolos não conseguem escrever com aquela qualidade. O filme é um thriller simpático e com ótimas sacadas sobre o mundo editorial, retomando as reflexões sobre o mito da genialidade do escritor e da crítica, que pode tanto endeusá-lo quanto destruí-lo.

A última loucura de Claire Darling (2018)

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Uma lista sobre cinema francês sem a icônica Catherine Deneuve não é a mesma. A última loucura de Claire Darling, com a atriz como a protagonista, é um retrato muito bonito e melancólico sobre velhice, memória e morte. Claire tem lapsos de memória e deseja vender todos os objetos da sua casa, porque o relógio revelou que irá morrer naquela noite. A casa é cheia de artefatos preciosos de circo, brinquedos muito antigos. Ao fim, é um filme que tem muito a dizer sobre o valor que associamos aos objetos e a aura: será que todos carregam memórias ou são apenas acúmulos? O que fica de mais importante nessa convivência com eles? Na sede de vender os objetos, Claire também demonstra que são poucos aqueles que são de fato preciosos em sua vida, em sua jornada. Um filme que permanece com o espectador tamanha sua delicadeza.

Cyrano mon amour (2018)

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Cyrano mon amour conta os bastidores da criação, por Edmond Rostand, de uma das peças mais bem-sucedidas de todos os tempos, Cyrano de Bergerac. O mesmo tom de comédia e drama da peça está no filme, o qual acompanha o jovem autor no processo difícil de dar vida a esse clássico. Cyrano mon amour inspira quem encontra dificuldades na escrita, e faz suspirar ao mostrar a obra crescer em poucas semanas. Mostra toda a beleza do amor eterno, do efêmero, do heroísmo e da magia da poesia. Assim como as aflições humanas no processo da escrita. O que move Edmond Rostand é o conflito entre o belo e o grotesco, das relações que permanecem com o tempo. Uma obra metalinguística que ainda faz pensar sobre o poder das artes, do teatro, da palavra, da poesia. Terminei o filme querendo ler e assistir adaptações da peça.

O professor substituto (2018)

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Este é daqueles filmes que rendem estudos e fundamental para quem vai lecionar. Após um professor se suicidar em sala de aula, aquele que o substitui passa a observar um grupo de alunos com reações misteriosas e suas relações de poder, na escola. Fala sobretudo desse mundo em destruição. É um filme de suspense, mas bem sutil na sua mensagem, que fica para ser desvendada bem depois de seu fim. Fiquei me questionando por dias, com um vazio, pensando que deve ter alguma alternativa para que não nos tornemos violentos, nem apáticos, nem alienados e nem insensíveis a esse mundo. Com certeza, primeiro, é assumindo essas forças de construção e destruição. Lecionar é, de alguma forma, apresentar máscaras da história e também tirá-las. O grande conflito que o professor acaba enfrentando, no filme, é o medo que ele tem, que os alunos têm. E, às vezes, funciona bem mais ouvir o outro lado adolescente do que buscar afirmações prontas ou interdições.

O amor à segunda vista (2019)

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Este é um filme leve e perfeito para domingos. O amor à segunda vista traz o clichê “personagem acorda em outra realidade, onde a mulher que o ama não o conhece”, mas o torna mais realista e o questiona, em seu processo. Filme divertido, delicado, e seu tema central não é apenas o amor, mas como o artista se coloca no mundo. O protagonista esquece da esposa, a qual o ajudou a formar o livro que vira best-seller. Ela se torna invisível. É um filme que não perdoa o escritor que se acha superior à musa, fazendo-o levar boas rasteiras da vida para ver se acorda. Lembra um pouco o filme britânico Questão de tempo (About Time).

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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