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Shostakovich e Gogol: uma ópera com narizes dançantes

ILUSTRAÇÃO: UTKINVASILIY

Publicado no site Querido Clássico

Espreguiçando-se ao acordar, o assessor do colegiado Kovaliov se levanta para examinar o rosto no espelho e descobre que o seu nariz sumiu. No lugar dele, havia apenas uma superfície tão lisa quanto uma panqueca. Essa é a premissa do conto absurdo do autor ucraniano Nikolai Gogol, de 1836. Mas a coisa não para por aí: Kovaliov vê se nariz andando pela cidade, vestido de farda, e começa a sua corrida para descobrir onde encontrá-lo e se identifica algum culpado.

Anos depois, em 1930, Shostakovich lança a encenação operística do conto de Gogol. Um excelente encontro entre conto e fábula surrealista, a história de Gogol incitou Shostakovich a criar uma versão para os palcos. A cena de introdução é composta por bailarinos com fantasias de narizes gigantes, sapateando com perfeita sincronia em torno de uma cama enorme e circular. Shostakovich incluiu piadas musicais e paródias, sapateado e canção folclórica, acompanhada por balalaica e polcas

“Como diachos seu nariz, ainda ontem ornando seu rosto e incapaz de se mover, tanto a pé quanto em qualquer veículo, usava agora um uniforme?”

Na época, o clima cultural soviético se voltou contra obras vistas de maneira frívola, afinal, qual seria a relevância de um enredo absurdo sobre um nariz? E este fato não deixa de ter algo em comum com a publicação do conto: alguns trechos foram censurados ou passaram por reformulações. Na edição da L&PM, as notas de rodapé trazem os trechos que foram modificados e podemos ver as alterações no final e até detalhes retirados, como um trecho indicando o suborno de um policial. 

THE NOSE, GOGOL. ILUSTRAÇÃO DE KEVIN HAWKES

O conto teve três versões: uma primitiva, presente no manuscrito de Gogol, submetida ao Observador Moscovita em 1835; a versão de 1836 publicada por O Contemporâneo, e a versão definitiva das Obras Reunidas, em 1843, que é boa parte do conto que temos na edição.

A ópera foi rapidamente retirada do repertório, mas, desde sua redescoberta na década de 1960, vem ganhando reconhecimento constante pela inteligência brilhante e desconcertante de Shostakovich. A versão abaixo é de The Royal Opera House, com tradução para o inglês feita por David Pountney.

O conto de Gogol

Em um tom de ironia, Gogol coloca o leitor no centro de uma história fantástica que imagina o impossível e não busca explicar com grandes razões que reduzam a dimensão fantasista de seu enredo. O nariz de Kovaliov começa a ter privilégios, enquanto ele, com a sua ausência, se sente rebaixado. Socialmente, o homem se vê excluído das festas e do convívio dos nomes de pessoas ilustres, as quais ele repete os nomes como se fosse um mantra ou a senha capaz de permiti-lo adentrar em um mundo restrito. O sumiço do nariz nos leva a notar essas nuances entre os privilégios sociais, o matrimônio, a posição como major e, sobretudo, o que assumimos de fato como sendo nosso rosto, nossa expressão facial. As aparências contam muito para serem criadas a partir do rosto. O nariz, com sua forma a qual se estende além das bochechas, parece um transgressor nas máscaras assumidas entre os grupos. Se ele some, o rosto se desequilibra. O nariz é o que se adianta à frente, toca o mundo primeiro. Isto é, pode servir como uma metáfora para aqueles que acessam outras categorias sociais, proibidas para certos grupos, acessando-os exclusivamente. Alguém com a posição social de Kovaliov tem o mundo revirado por perder aquilo que é usado socialmente para delimitar padrões de aparências.

Um dos pontos mais inteligentes do conto é a intervenção do próprio narrador como autor, se questionando sobre a verossimilhança e o absurdo envolvendo o nariz. Somos guiados a um universo em que é impossível não sentir a agonia que se instaura na vida do personagem, com um misto de riso e um leve temor ao imaginar como seria na realidade. E, assim, com sua imaginação vívida, Gogol instaura um conto fantástico encantador.

“Convenhamos, a fantasia não conhece leis, e além do mais efetivamente ocorrem no mundo muitos acontecimentos perfeitamente inexplicáveis.”

Referências bibliográficas

GOGOL, N. O nariz seguido de Diário de um louco. Tradução de Roberto Gomes. São Paulo: L&PM, 2000. 

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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