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OBRA DE ARTE DA SEMANA | Madalena penitente, de George de La Tour

Madalena penitente (The Penitent Magdalen, 1640)

A flama duplicada queima diante do espelho. O perfil de uma mulher encara a vela se consumir no reflexo e na matéria. O quarto todo iluminado apenas pela luz bruxuleante da chama e um crânio no colo. Essa é a cena dramática e intensa criada pelo pintor George de La Tour, em Madalena penitente (The Penitent Magdalen, 1640).

A personagem é a figura religiosa icônica Maria Madalena, uma testemunha de Cristo que renunciou aos prazeres da carne por uma vida de penitência e contemplação. Na cena, ela se encontra diante do espelho, aplicado como um símbolo da vaidade. A caveira corresponde à mortalidade da matéria na terra, do pó viemos e ao pó retornaremos, elemento usado inúmeras vezes nas pinturas que mostram a dualidade da dama pura recebendo o beijo da Morte, significado de uma matéria virtuosa se entregando à eternidade, motivo da arte da Renascença. Por fim, a vela para a qual ela olha representa a espiritualidade almejada, a elevação do espírito além da matéria em seu colo.

Hans Baldung Grien, A Morte e a Donzela (1518-1520)

Não vemos o rosto de Madalena, encerrado nas sombras. Esse aspecto muito tradicional da pintura, de uma atitude de absorção do personagem em cena, leva a figura de Madalena ao instante da interioridade que contempla a própria existência. Ela passa pelos objetos nos móveis, refletindo sobre cada um e seu significado. O quadro inteiro é permeado pela fugacidade da vida humana, como se houvesse muito mais além do plano material, o que sugere o seu comprometimento espiritual com Jesus Cristo.

Vanitas, no latim, significa vaidade. O termo cunhou um gênero de pintura simbólica entre os séculos XVI e XVII, o qual visava tratar da questão da mortalidade humana e a vida terrena. A ideia central vem de uma crença, oriunda da Bíblia, de que tudo seria vaidade: uma vida virtuosa estaria baseada em um desfazer-se dos elementos que conduzem ao pecado, a fim de se dirigir à elevação espiritual.

Escrevi a respeito sobre o quadro Vaidade, de Frank Cadogan Cowper, obra de 1907 que faz referência a esse tema e gênero do período ao qual pertence Madalena penitente. Em ambas o espelho se figura como revelador dessa vaidade e falha humana. Vanitas ganha ainda mais ênfase quando se figura por meio do feminino e da ideia de uma beleza perigosa que leva à destruição. Sendo Madalena uma prostituta, o quadro obtém ainda mais elevação contemplativa quando somos postos no instante em que ela está absorta pensando nos ensinamentos de Jesus, que a levaram a outro caminho.

A tela inteira emana contemplação, interioridade e espera. Temos apenas o perfil de Madalena recortando a luz e as mãos repousam de forma que temos a impressão de que ela está totalmente entregue ao momento de reflexão. La Tour fez outras versões e é interessante observar as diferentes posições e o que elas provocam. Madalena penitente, como disse, carrega essa espera tranquila e entregue.

Madalena e a chama (Magdalene with smoking flame), 1640

Madalena e a chama (Magdalene with smoking flame), também de 1640, traz a personagem segurando o rosto com uma das mãos e a outra segura a caveira, a mortalidade. A contemplação parece pairar entre impaciência e entrega, como quem revela certa melancolia na espera por uma ascensão. Essa versão me parece mais terrena: as pernas surgem entrelaçadas, a pose é extremamente espontânea e humana. Vemos mais de sua pele, a blusa caída, a perna exposta, talvez com a intenção de ressaltá-la mais como mulher desejada. A beleza particular dessa versão é que a melancolia dela nos faz conseguir sentir que esperaríamos igualmente como Madalena, enquanto Madalena penitente tem uma pose que remete mais à postura de um retrato, as vestes fechadas, uma Madalena convertida e tranquila.

Madalena arrependida (The Repentant Magdalen), 1635-1640

Em mais uma versão, a cena se torna obscura e vemos Madalena por outro ângulo, invertida, como se estivéssemos no lugar da parede: em Madalena arrependida (The Repentant Magdalen, 1635-1640), tudo está à contraluz. Por isso a flama se encontra ocultada pelo crânio e tudo o que vemos é um contorno escuro. Maravilhoso estudo de uma composição trabalhando luz e sombras, com Madalena diante do espelho.

A composição tem algo de Caravaggio, na escolha de tons e jogo de luz e sombras. A cena traz o conflito entre a iluminação interna oriunda da vela alaranjada, e a extensão dela no ambiente, em embate com a escuridão – motivo bem certeiro para representar a dualidade cristã entre corpo e alma relacionada à personagem de Madalena. Nisso se assemelha bastante à Caravaggio, mas esse tinha um trabalho mais voltado a cenas dramáticas com gestos trabalhando o movimento corporal, enquanto La Tour permanece na leveza estática da contemplação.

As versões de Madalena revelam visões distintas, de uma personagem tornada referência na História Ocidental. George de La Tour, colocando-a nas luzes bruxuleantes da contemplação, nos inclui no processo de reflexão religiosa. E, por toda a luz que permeia o ambiente, sentimos o tempo de uma elevação durar em consonância com a espera da personagem. Esperamos com ela, nessa mesma eternidade de uma vela que queima em seu próprio tempo.

Uma curiosidade

É o quadro Madalena e a chama que a Pequena Sereia, no filme da Disney, tem na sua caverna, e como Madalena, a sereia ruiva clama por uma ascensão das sombras e viver uma chama que queima, no caso dela é a vida fora das águas e o amor. Ela canta:

“And ready to know what the people know (Pronta para saber o que as pessoas sabem)

Ask ‘em my questions and get some answers (Perguntar questões a elas e receber respostas)

What’s a fire and why does it (O que é o fogo e por que ele)

(What’s the word?) burn? (Qual é a palavra mesmo? Queima?””.

Ariel sonha mais com uma chama do conhecimento e do amor, de sair das águas e conquistar uma liberdade que, no fim, será terrena para ela nessa adaptação da Disney.

Referências bibliográficas

MET Museum

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Vaidade, de Frank Cadogan Cowper

Publicado no site Artrianon

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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