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O Gambito da rainha: o viver e crescer de uma mulher-prodígio no xadrez

A minissérie da Netflix, O Gambito da Rainha (The Queen’s Gambit, no original), traz para o centro o universo dos torneios de xadrez entre o final dos anos 1950 aos 1970, com uma personagem cativante que enfrenta os desafios de ser uma mulher em um espaço masculino e competitivo. Dirigida por Scott Frank, o roteiro é baseado no livro homônimo de 1983 escrito por Walter Tevis, autor de O Homem que Caiu na Terra, clássico adaptado aos cinemas com David Bowie

Começamos a série com Elizabeth Harmon (Anya Taylor-Joy) enfrentando seu maior adversário em Paris, Borgov. Somos lançados a uma digressão por sua infância e adolescência, e como ela chegou lá. O instante que a marca é um acidente de carro. Beth sobrevive sem um arranhão, mas perde a mãe. Órfã, ela é enviada para um orfanato de meninas, onde conhece a amiga rebelde Jolene (Moses Ingram), vive o vício por calmantes. E, principalmente, descobre ser um prodígio no xadrez.

Beth aprende a arte do jogo de raciocínio rápido a partir de aulas secretas que toma com o zelador, o sr. Shaibel (Bill Camp), e da influência da matemática na infância. Essa figura servirá como um mestre, quase silencioso, que a guiará para o aperfeiçoamento das regras. A versão mirim de Beth, interpretada por Isla Johnston, traz perfeitamente a curiosidade, a rebeldia e a altivez da sua versão adulta. Ela deseja aprender, e aquilo se torna o seu mundo. 

Anya Taylor-Joy, atriz de filmes como A Bruxa e Emma, dá continuidade com sua versão adolescente e adulta, apresentando uma atuação excelente. Suas expressões faciais são exatas: parece que, como uma jogadora de xadrez, ela apenas demonstra um pouco daquilo que sente, só vislumbres de sua profundidade, dores, raiva. Ainda assim, ela incorpora uma humanidade muito bem trabalhada. Com problemas de vícios por pílulas e bebida, Beth vive o grande dilema de se questionar se é louca, se é sã, ou se os outros a veem dessa forma por ser mulher.

UMA MULHER-PRODÍGIO

A série passeia por diferentes eras históricas. O que se percebe, com as nuances do figurino, em cenas silenciosas, é que o direito das mulheres também têm desejo e força de se comunicar. O casamento perfeito das famílias norte-americanas demonstra o medo e a vulnerabilidade de mulheres jovens sendo mães, de procurarem algum alívio da vida doméstica. A experiência de Beth, viajando o mundo e sendo a única mulher em diversos círculos sociais, confunde os estereótipos.

E com certeza isso esbarra na crença de que mulheres não podem exigir seu espaço no trabalho. Que mulheres não têm capacidade intelectual de conduzir suas próprias ideias ou entender conteúdos complexos. Na série, as demarcações de gênero não são tão determinadas, mas elas estão lá, na própria dúvida e espanto de que uma garota e uma mulher consigam construir uma carreira. 

O ponto mais interessante, porém, é que O Gambito da Rainha não nega à sua personagem ter imperfeições. O roteiro parece propor que o equilíbrio e até paz de espírito, para Beth, viria de conciliar sua intuição criativa, veloz, cortante, com o estudo demorado que combate inclusive a vaidade, os desejos do ego. Na sua trajetória, Beth entra em confronto pelo xadrez com o ego de cada homem que acreditou ser mestre, ser um jogador perfeito. Tanto ela quanto os demais jogadores comprovam que falhas existem. 

Beth é um tanto impulsiva. Seu jogo é intuitivo, inteligente, desarma o outro porque é agressiva, assertiva, deseja vencer. Não é um defeito, mas quando associado ao feminino no contexto dos anos 60, parece uma mistura explosiva.

Ela é muito sozinha, em parte porque não deseja se abrir e se deixar vulnerável – como se protegesse a si mesma tal qual a proteção essencial do xadrez com a rainha. Há peças fundamentais nesse enredo: a amiga de infância Jolene, as mulheres que a ajudam e que admiram sua trajetória, mulheres que desejam ter a mesma liberdade além do matrimônio, colegas do xadrez que se acham desarmados com o talento de uma mulher.

Esse contraste entre masculino e feminino é bem tratado na série, e eu diria que oferece até mesmo alternativas meio raras: o milagre de ver homens ajudando uma mulher a ascender, a conquistar um espaço que gostariam que fossem deles. Numa parte da série, um deles comenta com Beth que os soviéticos, com quem ela deseja jogar, os melhores, formam grupos, se ajudam para vencer. Os americanos, pelo contrário, escolhem ser individualistas, sem ajudar um ao outro.

Essa ajuda, de um homem a uma mulher, a série opera com cuidado. Mesmo que em inúmeros casos seja completamente comum homens tentando ensinar mulheres porque supõem que elas não sabem nada, O Gambito da Rainha consegue demonstrar que Beth tem falhas – como todos, inclusive os que ela enfrenta. Ela tem resistência a estudar os mestres anteriores, a treinar horas e horas, passou a crer que seu talento vem do vício. É exatamente o medo, de muitas mulheres, de perder diante do outro. Porque a escorregada vinda de uma mulher, numa área com maioria masculina, é muito mais lembrada como falha permanente do que a de um homem.

Beth vai derrubando um a um enquanto aprende com os mestres, com seus adversários, com aqueles que acabam se tornando amigos e, principalmente, com os próprios limites. 

O XADREZ E O MUNDO

A parte inicial da série é bem interessante por nos levar a observar as relações que fazem ao próprio tabuleiro de xadrez. Há cenas em que um grupo se enfileira do lado oposto ao de Beth; o teto tem marcações como a do tabuleiro. Ou a oposição das peças brancas e negras do tabuleiro, que estão lado a lado unidas na amizade de Beth e Jolene. Quando entrevistada por uma jornalista, Beth diz:

“É um mundo inteiro de apenas 64 quadrados. Eu me sinto segura nele. Eu posso controlar isso, eu posso dominá-lo. E é previsível. Então, se eu me machucar, só tenho a mim mesma para culpar.”

O que a vida lhe mostra é que não é bem assim que funciona. O mundo não é exatamente quadrados por onde ela pode passar, porque cada cidade e lugar tem seus dilemas, ganhos e perdas. 

Mesmo estudando as jogadas de outros mestres, ainda há lacunas inesperadas no xadrez, surpresas, necessidade de abandonar o jogo. Pois um oponente pode decidir jogar completamente o oposto do modo com que joga normalmente. Ou seja, são duas pessoas conduzindo peças, e na vida não há como conduzir o outro da mesma forma. Sendo pessoas, isso torna um jogo racional em algo também imprevisível.

O RELÓGIO COMEÇA: INÍCIO E FIM DO JOGO

A jornada de Beth sempre a faz voltar para a figura da mãe biológica. Só ao fim descobrimos o que aconteceu e nada é o que parece. Como espectadores descobrimos um segredo, a fonte da dor de Beth. Seus vícios também ecoam essa vontade de se destruir, de parar o jogo, de não seguir regra alguma. 

Sobre a incerteza da vida, a mãe adotiva de Beth, Alma, diz que intuição não se aprende nos livros. Mas que é preciso abandonar um pouco as obsessões dos estudos e das retomadas das jogadas, porque vida não significa chegar em algum ponto, mas “viver e crescer”. 

Beth se recusa muitas vezes a viver e a aceitar a perda; quando tenta, é pelo vício. Permitir-se uma autodescoberta é algo que, aos poucos, Beth se permite na série, um eco da fala de sua mãe. 

O significado mais belo que a série deixa é que não adianta pensar demais sobre as coisas, tampouco em ignorar os traumas que estão diante de si mesmo. Viver será um movimento em torno disso. Aprendemos quando soltamos também os olhos do tabuleiro. Quando silenciamos a obsessão do pensamento. Erguer os olhos para o teto e ver o tabuleiro imaginário é a tática original de Beth porque ela se permite ver com olhos interiores. Imaginar, projetar, ir além do mundo material ou voltar-se a ele, olhá-lo, sem o imenso apego aos juízos do pensar. Pois olhar também compreende fechar as pálpebras, buscar outras direções. 

A CENA FINAL E ALGUMAS OBSERVAÇÕES 

Atenção: o texto abaixo contém spoilers! 

A associação ao xadrez, no filme, não é apenas o tema, mas a estrutura do roteiro. Como uma pessoa que não joga xadrez, foi um tanto difícil entender. Mas o chamado gambito da rainha, conhecido no Brasil também como o gambito da dama, oferece uma jogada vantajosa às peças brancas diante do adversário que controla as peças negras. No enredo, Jolene cede 3 mil dólares para Beth. Essa fica então em vantagem para ir à Moscou. Ao vencer, ela consegue não só pagar a amiga, mas ser permanentemente uma vencedora.

A série toma cuidados para não fazer de Jolene só a amiga negra da protagonista, que ressurge para salvá-la. Ela mesma faz questão de informar a amiga disso: é o único vínculo familiar que Beth tem, e sua presença é tão importante porque é o que permite que todo o jogo mude. A vitória histórica de Beth não aconteceria se não fosse a ajuda de Jolene. Os romances e interesses platônicos não são soluções para suas dores, Beth passa por eles sem assumir o que sente. O que resta são as amizades, que ela não faz esforço algum de preservar, mas é o que a salva no fim. 

Aceitar a perda nas partidas com Borgov é o grande confronto de Beth com as figuras masculinas de sua vida. Nunca conheceu o pai biológico e viu que ele não queria contato algum. O pai adotivo larga Beth e Alma. Separar-se do zelador, sr. Shaibel, foi um corte que ela não procurou elaborar. Quando ele falece, Beth descobre que ele acompanhou sua carreira inteira. Foi a figura paternal que ela desconheceu, uma pessoa que, como sua mãe adotiva, a amou. O choro depois disso é o processo doloroso de aceitar que tinha vícios, que precisava enfrentar os adversários estudando a todo custo. Precisou aceitar a possibilidade das perdas e até o medo diante delas.

Essa quebra da vaidade e do ego é fundamental, porque só assim ela consegue de fato aproveitar e entender o valor da sua carreira, entender o que é ser uma mulher naquele salão, para as mulheres que esperam para pegar seu autógrafo na porta. 

Ao jogar com um senhor, na última cena, ela completa o círculo de aprendizado com um mestre. Seu conhecimento não veio de um grupo oficial, de apoios fáceis de se conseguir. No fim, veio de homens tão invisíveis quanto ela, de um zelador que ficava no porão, de um senhor que joga todo dia no parque de Moscou. A raiz de Beth, a diferença que ela faz, é precisamente a união de racionalidade e intuição, com suas falhas, tentativas de acertar, medos, tudo o que a tornava um sujeito capaz de olhar os dois mundos do xadrez: o do tabuleiro e o de sua imaginação.

Imagem em destaque: Mia Sodré

Publicado no site Querido Clássico

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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