Ir para conteúdo

Spark joy: escolhendo qual livro ler

Estava tomando café com a minha mãe e, na tentativa de explicar como escolho os livros que leio na minha hora de lazer, lembrei do termo que a Marie Kondo usa, spark joy. Especialista em organização e criadora do método KonMari, Marie Kondo se tornou um fenômeno pelos livros com a temática e a sua série para a Netflix, Ordem na casa com Marie Kondo. E um de seus termos, que ganhou fama, foi o spark joy: só mantemos os objetos que nos inspiram uma alegria imediata, por memórias ou por vontade de continuar a usá-los.

Logo pensei nesse termo com livros. Sempre fui muito apegada aos livros que eu tenho e foi a série da Marie Kondo que me levou a doar tranquilamente 60 livros para bibliotecas. Justo eu, sempre tão apegada a eles, passei a comprar menos também.

Gosto de traduzir spark joy, essa felicidade que brilha, como o famoso siricutico que dá na gente quando um livro interessa. Parece o riscar de um fósforo bem pertinho e dentro do corpo, ou bichinho intrometido que nos faz procurar um título, botar um livro na frente de todos os outros. É muito válido deixar esse espaço aberto para ler aquilo que inspira essa alegria. E ela vem de repente, a vontade surge e o livro se encanta.

A Bela e a Fera, Disney

Com essa ideia, passei a não planejar mais o que leria como lazer, fora dos estudos. Deixaria o interesse vir, e foi a melhor coisa que eu fiz. Porque o livro comprado pode ter seu próprio tempo para suscitar esse sentimento. Tem livro que simplesmente não vai naquele dia, naquele ano. Esperar que um dia ele venha, te cutuque como um grilo encantado, é bem mais sábio do que forçar demais leituras ou ler apenas tendo em vista o que os outros estão lendo.

Esse sentido de spark joy se relaciona diretamente com o prazer. E pensar em prazer é algo complexo. Mesmo que socialmente sejamos incentivados a nos jogar no consumismo e confundir isso com prazer, é um grande ato revolucionário entender o que faz bem a si mesmo.

“E sempre deixe sua consciência ser sua guia”, Pinóquio, Disney.

Não necessariamente um livro deva ser feito para apenas conceder prazer ao leitor, sendo feito em torno apenas dos desejos desse leitor. Tampouco signifique que o prazer da leitura só venha de tramas felizes, e por isso a relação com a leitura se torna mais complexa (e mais fascinante).

Descobrir fatos estranhos da História. Acompanhar e se afeiçoar a um personagem em toda a sua jornada. Ver o amor vencer, um amor mais real e pé no chão. Encontrar uma obra filosófica que provoque modos diferentes de pensar. Achar uma autora ou autor que diga exatamente aquilo que você comenta com os amigos pelo whatsapp, e finalmente tudo ganha sentido, a ideia ganha profundidade. Tudo isso traz prazer à leitura.

Quando ocorrem tragédias com os personagens, quando você está lendo livros não-ficcionais com histórias reais e muito pesadas, o prazer pode vir de uma área mais difusa. Poder testemunhar uma história e o crescimento de um personagem; ler algo que esclareça um pouquinho esse mundo confuso. O sentido de responsabilidade de conhecer uma situação até então pouco contada. Ou simplesmente ser um fato tão fora da curva de sua rotina, trazendo curiosidade e um ar novo aos seus dias, é também prazer.

Na era contemporânea povoada por uma soma infindável de influências do que devemos gostar ou não, ou mesmo o que você lê sendo usado para reduzir ou glorificar pessoas, é muito importante saber o que o agrada como leitor. Ou o que ainda desconhece e pode ser desafiador e interessante, não tendo medo do livro. A quantidade de livros que um booktuber lê ou as listas de colegas próximos não podem virar motivo de comparação e opressão.

A pesquisa de mestrado me trouxe uma perspectiva nova sobre a leitura: achar prazer em livros que, ainda assim, são inevitáveis, com algo de obrigatório. Preciso lê-los, sim, mas é função minha (e para minha sanidade) não só me questionar o porquê daquilo me interessar e o que posso encontrar de interessante, buscando reacender essa relação simples do leitor com o livro, sem defini-lo apenas pela finalidade. Principalmente, aproveitar a experiência, me dar o direito de atravessar o livro no meu próprio tempo. Porque o livro tem esse poder oculto: ele nos força a suspender o tempo e a vivenciá-lo no corpo e tempo de outro.

Por um período, tentei enfrentar esses livros da pesquisa contabilizando páginas, tentando a todo custo colocá-los no prazo de meses, e isso só causou ansiedade. O planejamento de uma leitura pode existir, mas até em todo planejamento precisa haver uma abertura.

O que será mais importante de tudo não será o tempo programado, mas a presença e a atenção no ato da leitura. E, para escrever, criar algo a partir do que se lê, não adianta achar que a atenção, o foco, é o suficiente para vir a ser criativo: no fim, você pode apenas ter um bom apanhado de informações. O filósofo Maurice Merleau-Ponty (meu queridinho), em Fenomenologia da percepção, ressalta isso e diz:

Prestar atenção não é apenas iluminar mais dados preexistentes, é realizar neles uma articulação nova considerando-os como figuras (MERLEAU-PONTY, 2014, p.58).

O que será mais importante do que a atenção, portanto, é a relação entre a percepção e a atenção, como determinada coisa vai incitar, provocar a nossa atenção. Quase como o sentido de spark, uma fagulha.

Qualquer coisa hoje, nas redes sociais, implora por nossos olhos, por nossa atenção e, ironicamente, só a atrapalha e a confunde. O método simples de Marie Kondo é uma forma muito sábia de retornar aos nossos afetos. Lembrar o que foi provocado no nosso corpo, pela nossa percepção, para que aquele objeto ganhasse características e, por fim, estabelecesse uma relação nova, uma figura. Ter os objetos que nos são preciosos, estar presente no livro que lemos, é o grande sentido de ressignificar como nos colocamos no mundo.

Os tempos são difíceis e preservar essas centelhas de prazer ainda é, ao meu ver, um esforço precioso de não se desfazer em um mundo perturbador e cheio de eventos fundados no absurdo.

Imagem de capa: Marina Franconeti

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

3 comentários em “Spark joy: escolhendo qual livro ler Deixe um comentário

  1. Me senti representado por esse texto, obrigado por ele. Confesso que tenho meus momentos de encantamento por livros que não estariam necessariamente no topo da famigerada fila de leitura e, sempre tento ouvir esses sentimentos com carinho. É importante a gente tentar não transformar a leitura por prazer em dever, ou achar que vale menos porque leu menos em determinada época. A jornada de redescobrimento da nossa espontaneidade é muito válida e a gente só tem a crescer com ela. ❤

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Momentum Saga

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Aline Valek

Blog da escritora

na cabeceira

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Querido Clássico

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Fright Like a Girl

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Cine Varda

duas amigas apaixonadas por cinema, escrevendo sobre mulheres

Cinema na Varanda

Podcast semanal com Chico Fireman, Michel Simões e Tiago Faria

Artrianon

Arte e cultura

Rainhas Trágicas

Mulheres notáveis que fizeram História

Sopa de Letras

Literatura e outros

Antimidia Blog

Textos sem sentido, para leituras sem atenção, direcionados às pessoas sem nada para fazer.

sigoescrevendo

Um manifesto de palavras sob a regência de cada momento.

Portal de Crônicas

Cá entre nós

1001 Scribbles

Random and Abstract Lines

WordPress.com

WordPress.com is the best place for your personal blog or business site.

%d blogueiros gostam disto: