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Da jovem princesa à rainha: a era Claire Foy em The Crown

A ameaça da Coroa fulgura acima da cabeça de Elizabeth II por toda a sua vida. No entanto, a escolha de seu tio em abdicar ao trono, com o irmão dele, e pai de Elizabeth assumindo, aquilo que era apenas uma fumaça de possibilidade em sua vida se torna densa como ouro. De princesa, Elizabeth ascende à posição de rainha, e assim acompanhamos esse desnudar da figura humana para que vire tão abstrata que perdure o sonho da Coroa. 

Criada por Peter Morgan, a série da NetflixThe Crown, conta com a atriz Claire Foy como a rainha nas duas primeiras temporadas, e o elenco se renova na troca de rainha. Essa variação de elenco que a série propõe é quase shakesperiana, como se víssemos uma peça com um olhar novo, sendo recontada de uma nova maneira por meio de outras atuações. No momento, estamos com Olivia Colman como protagonista na terceira temporada, nos despedindo de sua fase agora na quarta temporada, que estreia dia 15 de novembro de 2020. As próximas serão com a atriz Imelda Staunton e novo elenco. 

A série aborda centralmente a história da rainha Elizabeth II (Claire Foy) em seu casamento com o príncipe Philip (Matt Smith). Após a morte do pai, o rei George VI (Jared Harris), ela se torna rainha aos 25 anos. Elizabeth não é mais apenas uma mulher, uma esposa, uma mãe. Tudo dá lugar à Coroa. E o casal logo se vê na anormalidade da posição. O príncipe tem o orgulho masculino ferido pela superioridade da esposa, a recusa em chamá-la de rainha, de ajoelhar-se diante de uma mulher para todos verem. Nesse desafio, vemos Elizabeth precisando crescer em face dos olhos dos outros.

A batalha é forte internamente. Significa abdicar das próprias opiniões e posições políticas, da liberdade de falar e agir. Ou, quando age, a rainha precisa saber o que está representando. O choque dela é perceber que um lado seu precisa morrer para o outro dar continuidade.

Claire Foy como a rainha Elizabeth II em The Crown

A fotografia e figurino da série demonstram as alterações do mundo da rainha. Suas vestes se tornam cada vez mais pomposas e altivas. Repentinamente, ela tem mais de cem vestidos para levar numa viagem. O tratamento da luz é um caso à parte sensacional: enquanto todos aparecem com uma face do rosto na penumbra, vemos o rosto da rainha iluminado por completo, os olhos grandes, azuis e límpidos, sem nada a esconder. Quase os olhos de uma criança abertos a um novo mundo, assustada. O abstrato que ela encena significa não poder ter a ousadia de ocultar algo, de surpreender com um segredo fora da curva. Enquanto isso, as pessoas à sua volta podem surpreendê-la, enganá-la, mostrar outra face, ser imperfeitos.

A primeira temporadatem ares mais poéticos sobre as primeiras impressões em torno da Coroa. Conta com cenas memoráveis de qualidade imensa do roteiro: o destaque é para o episódio “Ilusões”, em que testemunhamos a coroação da rainha. “Ato Divino”, com uma densa neblina que mergulha Londres em doenças e escuridão, desafiando a imagem do primeiro-ministro Winston Churchill (John Lithgow). O belo e sensível episódio “Saber é Poder”, em passamos a conhecer as dificuldades da rainha no ensino que recebeu, é certeiro ao mostrar a agonia das mulheres ao desejarem uma educação completa, que possibilite um diálogo igualitário com os homens e os espaços aos quais pertencem. Em outro tom, “Assassinos” é um episódio com ótimos paralelos sobre pintura, com Churchillposando para seu retrato de oitenta anos.

Se a primeira temporada se concentra na descoberta de um novo mundo para a rainha, e os primeiros indícios de conflito com família e política, os episódios da segunda temporada voltam-se mais ao emocional da protagonista e daqueles que convivem com ela. 

Matt Smith e Claire Foy como Príncipe Philip e rainha Elizabeth II em The Crown

Claire Foy, antes de ser Elizabeth, curiosamente interpretou Ana Bolena em Wolf HallJá se iniciava sua participação em enredos da realeza. E com a rainha Elizabeth eu aponto uma semelhança curiosa: Claire não era um rosto tão conhecido entre o público, não no nível que The Crown a colocou. Como a jovem princesa sendo exposta a outro mundo, Claire teve seu reconhecimento ao assumir o papel. Ganhou Emmy, Globo de Ouro, BAFTA. 

Em matéria para o Insider, uma das pessoas que fez parte das audições para escolher o elenco comenta sobre a seleção de Claire Foy:

“O processo de audição teve um culminar hilário com ela finalmente chegando ao teste. Depois de algumas outras audições, [Foy] estava com o figurino completo com tiara, luvas longas e vestido. E vale a pena notar que ela estava grávida de seis meses com uma barriga enorme e adorável.” 

Claire brinca que era uma situação surreal, que se sentia brincando de rainha enquanto estava grávida. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, a atriz comenta sobre essa espécie de transformação dupla que enfrentou, sendo mãe e assumindo o papel de rainha ao mesmo tempo. Foi um processo de ter pouco apego a quem ela costumava ser, porque não acreditava que poderia assumir uma personagem dessa magnitude, mas a equipe dizia que podia. Claire afirma que sentia não ser nada, no sentido de estar aberta ao que viesse a acontecer, porque a maternidade tinha lhe revelado isso:

“Foi uma experiência bem estranha em que eu não me permitia colocar qualquer limite ou dizer se eu podia ou não alcançar algo. […] Eu apenas fui direto e continuei, não quero jogar apenas pelo o que é seguro.”

foto por Julian Broad

Na entrevista, Claire diz que é meio estranho e inesperado sentir que se pode fazer algo assim, grandioso. E creio que a visão dela com o que vivenciou a aproxima da própria personagem. Há nuances belíssimas em sua atuação. Ela inclui temores, silêncio, inocência, olhares arregalados, outros que nunca piscam e não hesitam, tudo se compõe como um quadro de uma jovem que aprende a se impor nas reuniões com os primeiros-ministros, a compreender mais sobre o que se fala, a arriscar algumas ideias e a questionar o marido, a irmã, a própria mãe. 

Não é a coroação que a faz rainha, mas as inúmeras vezes em que a personagem se vê em dilemas, precisando também se auto-coroar. Aos poucos o caminhar se torna mais firme pelo Palácio de Buckingham. A rainha que Claire Foy oferece tão bem ao espectador é uma jovem que cresce diante dos nossos olhos.

CONTRASTES ENTRE A FIGURA HUMANA E O ÍCONE

Às vésperas da coroação, Elizabeth testa a coroa que foi de seu pai e, naquele instante, diante do espelho, sabe que os seus outros papéis sociais estão se desvanecendo para que outro papel, único, assuma.

Começamos a série com o rei George VI cuspindo sangue no vaso sanitário. Nada comum. The Crown busca colocar, de maneira sutil, esses seres exaltados em situações humanizadas. Vemos o adoecer do rei, sendo relembrados a todo instante de que o simbolismo em torno da família real é uma aura vulnerável.

Sem dúvidas, o momento em que a série nos apresenta a coroação é um dos mais emocionantes de The Crown. A ficção nos possibilita ver aquilo que foi só imaginado e recontado pelos historiadores: o instante em que a cadeira é virada e a rainha fica diante de Deus para receber o óleo ungido. O olhar de Claire Foy já entrega a verdade nessa cena: ela tem a calmaria da figura real que assume e supera, em certa medida, a forma humana. Agora ela entende e incorpora o seu papel. 

Quando Elizabeth é ungida, aceitando sua responsabilidade divina, Edward, duque de Windsor (Alex Jennings), está dando uma festa com a esposa, aquela por quem ele abdicou o trono. Ele explica a ritualística da cerimônia enquanto ela é transmitida na televisão: 

“Uma teia insondável de mistério misterioso e liturgia, borrando tantas linhas que nenhum clérigo, historiador ou advogado jamais conseguiria desvendar qualquer coisa.”

Quando um convidado chama o ritual de “insano”, Edward rebate: “Pelo contrário. Quem quer transparência quando você pode ter magia?”.

A JORNADA DA RAINHA COM A MENTORIA DE WINSTON CHURCHILL

A figura do primeiro-ministro Winston Churchill é cheia de discussões. The Crown tenta ir por caminhos mais inocentes, indicando apenas aqui e ali alguns elementos de seu “temperamento difícil”, mas hoje, no Reino Unido, procura-se rever a imagem política de Churchill. Conhecido por discursos heroicos e uma tomada histórica na sua liderança do país na Segunda Guerra Mundial, outras características vêm à tona. 

Hoje fala-se que Churchill acreditava na supremacia branca, chegando a se referir aos brancos como “raça forte”. O autor Richard Toye, do livro Churchill’s Empire: The World that Made Him and the World He Made, afirma que: “[…] isso não quer dizer que ele necessariamente achava ok tratar pessoas não-brancas de maneira desumana como Hitler”. Ainda assim, a linha é tênue e muito fácil de passar. O que sabemos é que suas opiniões não deixavam de torná-lo autoritário com os povos relacionados ao Reino Unido.

“Eu odeio indianos”, teria dito Churchill para o Ministro para Índia Leopold Amery“São pessoas horríveis com uma religião horrível”, complementou. No livro Churchill’s Secret War: The British Empire and the Ravaging of India during World War II, o autor Madhusree Mukerjee conta que o primeiro-ministro se recusou a atender aos pedidos da Índia por trigo e continuou a insistir para que a colônia fornecesse arroz e combustível, culpando os próprios indianos pela fome que assolava o país.

Por esse motivo, a representação de Churchill em The Crown aqui pode ser elogiada enquanto personagem. Na série, pouco sabemos de suas facetas, em alguns instantes vemos suas falhas, mas acima de tudo o que vemos é um velhinho teimoso, essa é a verdade. Desperta empatia, principalmente pela interpretação feita com maestria por John Lithgow, Seu Churchill é interessante por não ser posto em um pedestal, vemos seu processo de envelhecimento e insegurança. 

John Lithgow como Winston Churchill

No entanto, não será uma figura vastamente criticada. Nesse ponto, The Crown prefere ser mais conservadora e contida, ou seja, é fiel aos fatos históricos, mas não exatamente a um processo de revisão da história, tanto da realeza quanto do Parlamento. É preciso ter isso em mente quando se assiste a série.

Há uma dupla jornada, a da rainha e a de Churchill, em direções opostas em certa medida, pois testemunhamos o crescimento de uma jovem rainha, o apogeu de um primeiro-ministro e a obrigação desse em aceitar sua mortalidade. É interessante perceber esses paralelos, porque enquanto a rainha precisa aceitar a imortalidade atrelada ao seu nome em vida, à Coroa e à Deus, o primeiro-ministro precisa confrontar o fato de que sua imortalidade é dada com a morte e a história. Nesse caminho, ambos aprendem a respeitar aquilo que seguem como compromisso.

O MATRIMÔNIO E A CONFIANÇA

O tema do matrimônio permeia todas as temporadas. Na primeira, a rainha tenta a todo custo equilibrar as normas da Coroa e da Igreja Anglicana com os sonhos da irmã. A princesa Margaret (Vanessa Kirby) tem um caso com Peter Townsend (Ben Miles) , um funcionário. O fator do divórcio e da ausência de linhagem dificulta os planos de um casamento. Vemos pouco a pouco Margaret sendo mergulhada na confusão e no doloroso suspense manipulador em que a família a coloca. A Coroa comprime todos à sua volta com regras estranhas à vivência de um simples mortal.

O outro instante de conflito encontra-se na segunda temporada com o suspense em torno dos supostos casos extraconjugais do príncipe Philip. Começamos num confronto entre ambos num navio e somos lançados à digressão para encontrá-los nesse instante por volta da metade da temporada. A rainha enfrenta o distanciamento do marido, as inúmeras reclamações dele por não poder seguir com sua carreira, até a longa viagem que Philip faz pelo mundo para abrir as Olimpíadas. Ambos precisam encarar as verdades e as ilusões em torno da figura um do outro, com o esforço de reconstruir um casamento que não pode se dissolver por causa da Coroa.

Em todas essas relações, a confiança é abalada e esmagada pelas determinações reais. Os casamentos e as relações amorosas e, principalmente, inúmeras vezes a relação entre as irmãs se quebra, esmorece, num vínculo de dualidade construído muito bem na dinâmica entre Claire Foy e Vanessa Kirby. A princesa Margaret chega a dizer que o pai as apelidou de “Orgulho e Alegria”: Elizabeth era o orgulho, mas Margaret era a Alegria, a compensação, a favorita. Esse “mas” é o que Margaret afirma, e é nele que por dias ela se apoia para sobreviver. 

A FAMÍLIA REAL COMO UM VERDADEIRO TEATRO

Numa cena da segunda temporada, o príncipe Philip demonstra detestar, em frente ao espelho, o uniforme que está vestindo. Não era um uniforme de verdade, como aqueles que usava na Marinha. Eram cenográficos sob seu ponto de vista. Obviamente histórico e cheio de regras, com medalhas, mas ainda assim um uniforme criado para aquela ocasião. 

A vida dos dois é exposta e essa exposição é potencializada. Mesmo sendo duas forças contrárias, Elizabeth e Philip sentem essa perda de si mesmos em função da vida pública. O jogo é protocolar, entre fumaças e espelhos, encantamentos e rituais. Uma espécie de magia frágil contrastante ao peso da Coroa, mas que teme sucumbir aos tempos modernos, esforçando-se a todo o tempo para prevalecer acima dos mortais.

REFERÊNCIAS 

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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