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Digerindo a vida

Pensar é digerir, dialogar com o cosmos, andar pelo mundo tendo o ego conhecido e sob controle, como Ganesha. Esses dias eu ando conversando muito com a minha amiga, que também escreve num blog, a Mia. E ela fez um post comentando sobre a figura do rato, que tem sido uma constante na última semana para nós duas, então esse é um texto-resposta.

Ela sonhou com rato e serpente, eu tive esse indesejável visitante na minha casa justo essa semana, fato que botou nossa casa de cabeça para baixo. E me fez pensar bastante.

Descobri muita coisa em torno do medo. Vi que o meu medo estava mais fundado na imaginação fértil (e a ansiedade se alimenta disso de forma voraz) em torno da possibilidade de ver o rato em qualquer canto. Quando parei de imaginar e mesmo engrandecer esse fato que estava acontecendo, fiquei mais calma. Por isso fui procurar ler sobre rato e sua simbologia.

Eu já sabia que esse era o ano do rato no calendário chinês. A Mia comenta sobre isso, “o rato é o animal que inicia o calendário chinês, podendo indicar, assim, que este foi/está sendo um ano de começos em alguma esfera, também trata-se de ajustar o pensamento e a ação, saber adaptar-se”. O ano de 2020 me soou inúmeras vezes como um fim na esfera coletiva, o terror de um vírus, de sua invisibilidade e poder de encerrar vidas. Ainda assim, na minha casa, no meu meio particular, precisei enfrentar cirurgia, reescrever e retomar ideias na minha dissertação, aguentar meses em casa, enfrentar a ansiedade em torno disso tudo. Houve recomeços porque tive que aprender a olhar de outra forma, tema esse da minha própria dissertação, da minha área da Estética. Retomar o olhar, olhar de novo, ver de olhos abertos e fechados.

Permanece, claro, a dúvida se haverá um recomeço na esfera coletiva, porque fomos obrigados a desacelerar em um sistema que transforma o tempo em mercadoria. Nessa experiência de quarentena, precisei desativar instagram duas vezes. Precisamente por conta do uso do tempo, do acúmulo de imagens e informações irrelevantes, que somados se tornam um peso enorme, uma sobrecarga mental. O rato cultiva qualquer coisa em seu ninho, se alimenta de qualquer material, sem filtro algum. Ontem me ocorreu essa metáfora e foi aí que desativei mais uma vez a conta.

Não estamos podendo colocar a saúde mental em risco numa quarentena. É obrigatório repensar o que realmente vale a pena. Dessa forma descobri que coisas simples já são o suficiente, e em meio a um vírus que mata tanto, poder respirar e sentir sabores já tem sido algo ao qual agradeço. Não é conversa de post supérfluo de gratidão, é realmente entender os próprios privilégios, entender que corpo não é uma mera máquina de informação, mas um organismo vivo e suficiente para estar aqui. Estamos no mundo por um corpo que vê, que sente, não somos mero espírito andando por aí almejando apenas obter a superioridade dos céus. Tudo o que temos está aqui.

Esse pensamento me levou, então, à redescoberta da figura de Ganesha. Conheci a figura da divindade lá nos meus 12 anos, quando estava lendo A viagem de Théo, e fiquei fascinada com as várias expressões das religiões e das culturas. Ganesha voltou à minha mente para perceber que a sua fábula tem um ensinamento precioso: digerir a vida.

Ganesha é uma divindade com cabeça de elefante e quatro braços, que ensina a ouvir mais, a se adaptar aos obstáculos. Às vezes queremos usar um conhecimento logo que ele vem ao nosso encontro, buscando sua finalidade imediata. Queremos entender tudo a qualquer custo, incluindo uma pandemia. Adquirir conhecimento não é o mero acúmulo de informação, mas a forma transformadora que temos de criar associações entre os saberes, de deixar que amadureçam, e para isso é necessário ouvir o que o texto, o outro ou os fatos da vida dizem primeiro.

A barriga de Ganesha, digerindo o cosmos, é a força do Todo que se volta tanto aos detalhes quanto à unidade, já não mais reduzido à dualidade. Aprendemos nessa paciência, espera e ação moderada.

Ganesha tem quatro braços com instrumentos correspondentes, e um deles segura um docinho, modaka, que ensina a ter satisfação com o conhecimento que possui, construída com disciplina, paciência, aceitando o que cada jornada lhe dá.

Um de seus pés toca o chão e o outro, o ar, pois a sabedoria está em saber que é parte do mundo sem perder a visão do Todo. O rato aos pés de Ganesha é o controle do ego e dos desejos para obter sabedoria, sem ter medo deles. Por isso, o rato tem esse ensinamento de que não precisamos abraçar o mundo com a voracidade da posse diante de tudo que nos apresenta: é preciso fazer escolhas e, principalmente, se conhecer nesse caminho.

Além disso, tudo me lembrou uma música que eu adoro, que voltou também nessa quarentena pela voz de outra artista. A cantora norueguesa Aurora liberou um cover da música Thank You, da Alanis Morissette. E foi um apoio muito bem-vindo. Tenho lembranças desse clipe da Alanis, ela nua, coberta por seu cabelo longo, cantando em vários pontos da cidade e recebendo apoio das pessoas. Eu era só uma criança e, anos depois vendo o clipe em algum momento perdido na MTV, acho que foi a primeira vez que vi um corpo feminino sendo representado sem ser sexualizado. Só um corpo existindo no mundo. Como estudo isso, achei interessante que nos últimos meses da dissertação esse clipe tenha voltado até mim.

Na música ela agradece a sabedoria da Índia. As coisas que normalmente nos esquecemos. Agradece até mesmo o terror e as consequências. A desilusão, porque desiludir seria tirar os artifícios que tornam as coisas idealizadas, até mesmo falsas. Não culpar o outro, aproveitar o momento, deixar ir as angústias que já estão há muito tempo enraizadas, não ser mais masoquista.

No momento em que soltei foi

O momento em que obtive mais do que poderia suportar

No momento em que pulei fora foi

O momento em que toquei o chão

Agradecer pelo silêncio, a fragilidade, a clareza, o nada, onde as coisas podem florescer a partir do seu movimento natural. E, assim, digerir o cosmos no nosso centro, nos posicionando finalmente no acontecimento do mundo.

Referências bibliográficas

SODRÉ, Mia. Permitindo o nada. Na cabeceira

Simbolismo de Ganesha

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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