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OBRA DE ARTE DA SEMANA | O campo de papoulas, de Claude Monet

O campo de papoulas em Argenteuil carrega a tranquilidade que o pintor impressionista francês Claude Monet sentiu ao habitar a região. Ao voltar da Inglaterra em 1871, o artista se estabeleceu em Argenteuil e viveu lá até 1878. Foram anos de muita realização. Apoiado por seu marchand, Paul Durand-Ruel, Monet encontrou na região ao redor de sua casa as paisagens belíssimas que lhe inspirariam na pintura plein air. A obra foi exposta em 1874, na primeira exposição impressionista realizada no estúdio desativado do fotógrafo Nadar.

Tendo a esposa Camille e o filho Jean no primeiro plano, dessa obra jorra amenidade e delicadeza, convidativa aos passeios no verão. Os tons leves de verde e azul são a claridade do dia, com as duas cores se tornando diáfanas pelo branco aquoso que ameniza a força do verde e do azul. O clima é enevoado e brilhante, regido pela brisa, sendo possível quase sentirmos as cores como algodão.

O morro em verde se assemelha às ondas do mar, dando a sensação de que estamos no epicentro de um movimento, entre a onda bravia e a tranquilidade do chão onde mãe e filho conseguem andar. Ao fundo, as árvores se sustentam no horizonte ondulado, o único vislumbre do fundo é a casinha que se aperta entre as copas das árvores. Uma mulher e uma criança se confundem com a natureza das árvores. Os duplas se assemelham muito, parecendo que a cena pintada por Monet é quase cinematográfica, duas cenas reduzidas a uma pelo caminhar do grupo, sendo vistos ao mesmo tempo.

O que oferece grande contraste e vivacidade são as papoulas, reduzidas a notas em vermelho. Em Impressionismo, Meyer Schapiro observa que no fim da década de 1870, as obras do Monet ganham essa impressão de vida e cor vigorosa por meio de tons puros: o amarelo, o vermelho, o azul, dados como cores fortes que entram em contraste com os tons mais leves do quadro:

Uma busca característica de pinceladas contrastadas na cor local, com frequência perdendo ou submergindo a cor local na riqueza de um estranho contraste de matizes ou em algum tom imprevisto que prevalecia sobre o todo, como um efeito de luz do sol ou da atmosfera na qual o espectro inteiro foi incorporado (SCHAPIRO, 2002, p.200)

O trabalho de Monet e do impressionismo é o de diluir os contornos transformando-os pela mancha, e a vivacidade reside nas papoulas. O fato de serem manchas grandes aproxima os olhos. Esse trabalho da distância reduzida no tamanho da mancha vai de encontro à noção clássica da perspectiva e profundidade. Pois agora a distância entre os planos se encontra suprimida.

A linha diagonal também cria a impressão de uma queda que contrasta não só o cenário, mas a região das cores, em que separamos e unificamos o vermelho e o verde acinzentado. E os personagens parecem reunir as cores do quadro: o amarelo da casa, o azul acinzentado do vestido mesclado à grama, o azul do céu na sombrinha, o vermelho das flores nas mãos da criança. A figura humana vira motivo apenas para o artista se concentrar nos valores tonais da natureza.

A simbologia da papoula

A escolha desse quadro para novembro tem dois motivos que se unificam: o aniversário de Claude Monet em 14 de novembro e o dia do Armistício, no dia 11 de novembro. A data celebra o fim da Primeira Guerra Mundial e relembra as 17 milhões de vidas perdidas em batalha ou pelas condições entre frio e doenças.

As homenagens do dia do Armistício tomam a França, a Bélgica, a Inglaterra, o Canadá, os Estados Unidos. Pois entre as trincheiras, as papoulas era a flor resistente entre o horror da guerra, tornando-se símbolo de esperança. Por esse motivo, entre as homenagens, cada papoula simboliza um soldado em campo.

Na Grã-Bretanha, é comum ver artistas, jornalistas usando a florzinha como um bottom preso ao terno, ao vestido. Em 2014, houve uma bela montagem com um campo vasto de papoulas em pontos emblemáticos da cidade: foram 888.246 papoulas de cerâmica ocupando todo o jardim da Torre de Londres, e na época mais de 4 milhões de pessoas visitaram o campo de papoulas em três meses. Um mar de papoulas para lembrar o sangue dessas pessoas que morreram em campo por uma guerra.

créditos: Peter Macdiarmid/Getty Images
créditos: Stefan Wermuth/Reuters/Landov

Referências bibliográficas

SCHAPIRO, Meyer. Impressionismo: reflexões e percepções. Tradução: Ana Luiza Dantas Borges. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

Musée D’Orsay

‘Blood Swept Lands and Seas of Red’

Publicado no site Artrianon

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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