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O centenário de Clarice Lispector

créditos: Marina Franconeti

Hoje é o centenário de Clarice Lispector, esse nome gigante da literatura brasileira, gigante na escrita, na fala, no comportamento e nas ideias. Mas que combatia exatamente o gigantismo em torno da literatura. Clarice entendia a dignidade das coisas simples e não se importava tanto assim se não entendiam o seu texto.

Esse é um texto breve, mais escrito no calor do momento. Eu me vi digitando no celular algumas impressões sobre a autora e aí veio a famosa vontade de escrever que me acomete e me obriga a largar tudo. Ultimamente ando respeitando e ouvindo esses chamados, e acho que Clarice tem sua culpa nisso.

Até hoje tento processar o que foi ler Clarice Lispector na adolescência, ela irradiou o sentido da literatura, foi ela quem fortificou o desejo pela escrita na minha vida. Eu era jovem e já dizia, só pra parecer cool e profunda, que eu me sentia morta quando não escrevia, que nem na famosa frase da autora em entrevista para a TV Cultura.

Clarice Lispector segundo as cartas de um coração selvagem | by Elaine  Moraes | Minas Não Há Mais | Medium

O que ocorre é que depois disso eu passei por fases na graduação com a escrita entrecortada. No mestrado também, sempre havia algo indizível pairando – e convenhamos, sempre terá, o escritor só circunda esse indizível. Mas meu corpo pedia por algumas realizações na escrita, e quando eu me impedia de fazê-lo por tempo indeterminado, aí sim a frase de Clarice fazia sentido. Hoje eu sei que me sinto morta quando não escrevo por tempos e deixo as ideias se acumularem até o risco da combustão mental. Não recomendo.

Um poema pra ti, Clarice - Eu Me Escuto - Medium

Escrever é pura expiação. A gente quer é se livrar do que pensa, olhar nos olhos, dar matéria àquilo e ver para compreender. E Clarice foi quem instalou isso na minha vida, assustou quem eu era aos 17 anos, mas hoje agradeço pelo susto.

Espero que em breve eu retome as leituras de Clarice Lispector. Porém, até o momento tenho a minha teoria, de que a profundidade em Clarice está justamente em não se lançar além, em não ficar buscando o fundo da existência. Ela quer agitar a atmosfera em torno de nós, provocar a percepção, para que leitor e personagem vivam na tensão permanente desse plano na (in)suficiência do mundo.

Aos cuidados de Clarice Lispector
Clarice e Ulisses. Créditos: Arquivo Manchete

É estranho dizer que meu interesse pelo fantástico veio de Clarice, porque de algum modo encontrei na epifania desencantada da autora um tipo de encantamento às avessas. Encanta porque nos torce inteiro até criar outra coisa estranha como baratas sendo devoradas e o mundo renascendo pelas moléculas, e é bom que livros façam isso.

*O desenho da imagem de capa eu fiz há tempos, e eu nem sabia que ele estava aqui aguardando o momento oportuno para brilhar.

Recomendação de leituras sobre Clarice

Deixarei aqui alguns textos interessantes que li nos últimos dias sobre Clarice Lispector:

Clarice Lispector: una biblioteca de secretos – El País

O último amigo – Piauí (sobre o cãozinho de Clarice, Ulisses)

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

2 comentários em “O centenário de Clarice Lispector Deixe um comentário

  1. Obrigado pelas recomendações de leitura sobre a autora.
    Brinco que o meu momento com ela ainda não aconteceu, como ela pede no prefácio de G.H rs; mas tenho gostado bastante dos contos e penso que talvez consiga me aprofundar por esse caminho, inclusive à própria escrita. Vez ou outra eu abandono meu próprio meu diário rs.
    Abraços.

    Curtir

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