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The Crown, 4a temporada: desilusões da rainha e da princesa na torre

A quarta temporada de The Crown, lançada em novembro de 2020, explodiu intensamente. Com três figuras intensas, a Rainha Elizabeth II, a Princesa Diana e a primeira-ministra Margaret Thatcher, temos estabelecido um palco famoso para algumas gerações que começam a ter vislumbres de memórias de infância relacionadas a essas figuras políticas, bem como o reconhecimento delas a partir de outras referências já criadas em diversas obras para o cinema e para a TV.

Olivia Colman, Tobias Menzies e Helena Bonham Carter retornam para o último trabalho do trio como a Rainha Elizabeth II, o Príncipe Philip e Princesa Margaret, respectivamente. Os conflitos ganham mais camadas, com a rainha enfrentando uma crise em torno de seu papel materno; o passado da realeza bate à porta de Margaret como um enigma a ser desvendado; e o príncipe assume uma perda importante, sempre em conflito com o filho. 

As cenas de maior destaque, entre excelentes atuações, estão nas mãos das atrizes. Olivia Colman, sempre magistral, conduz a temporada pela sutileza das dores da rainha, com especial destaque para alguns episódios. “Favoritos”, em que se dá conta, aos poucos, de que o tempo passou e as relações com os filhos ficaram abaladas; “Quarenta e oito contra um”, entre o embate com as decisões da primeira-ministra; e “Fagan”, um conflito que envolve a rainha diante de um invasor do Palácio que deseja reclamar sobre o desemprego, reflexos da política de Thatcher. 

Helena Bonham Carter, por sua vez, revela uma Margaret que deseja fazer parte, que sofre pelo passado da família. No episódio “O princípio da hereditariedade”, Margaret mostra o horror da naturalização em torno dos transtornos mentais, sempre escondidos pelas famílias para não abalar a reputação. Ela se depara com a frieza da família e do próprio isolamento nela. 

O destaque fica para as duas atrizes que ingressam na temporada, Gillian Anderson como Margaret Thatcher, e Emma Corrin, a Princesa Diana. Ambas fazem um trabalho completo de dicção e gestos ao encarná-las. Com muita exatidão, Gillian Anderson nos aterroriza com a voz e a imposição da fala de Thatcher, cria a antipatia ao conservadorismo dela, e uma leve (bem leve) empatia pela Thatcher que não acerta no vestido da ocasião, na paixão pelo cargo. Emma Corrin é a perfeição da escolha de quem assume a delicadeza e o encanto que Diana exerceu no mundo inteiro. As expressões, as vestes, a doçura e a ousadia, tudo é bem calculado por Corrin, que expõe como ninguém a personalidade mais aguardada da série.

A temporada possui duas dinâmicas de oposição: entre a rainha Elizabeth II e a primeira-ministra Margaret Thatcher, o Príncipe Charles e a Princesa Diana. Na primeira, constitui-se uma jogada sutil de poderes, na qual a realeza não pode dar o passo que anuncia o perigo da inconstitucionalidade em relação às decisões da primeira-ministra. No caso da segunda, o matrimônio não pode ser inundado pelas verdades, em que Diana é aprisionada por revelar o terrível incômodo que é o peso da Coroa e da vida pública. 

Sem dúvidas é uma temporada madura e conturbada, terminamos de assistir com um nó no estômago e não foi só uma vez que fui dormir angustiada por Diana. Se, de início, o roteiro trabalhou muito bem para que simpatizássemos com as figuras da realeza, entendendo suas falhas e dores, agora somos confrontados com um lado grotesco da Coroa, e como o conflito entre os próprios familiares criou uma prisão avassaladora. 

INVERSÕES ENTRE CAÇA E CAÇADOR

A temporada se inicia com o episódio “Guarda-costas”,um grande início fundado em tensão. O episódio todo é permeado por esse sentimento de que algo vai acontecer, que algo está à espreita, elemento que se repete na temporada. Nele, uma tragédia na família real acontece: um atentado político contra o Lorde Mountbatten (Charles Dance) e sua família, o que resulta na morte do oficial militar e nesse rasgo para Charles e Príncipe Philip. 

Toda a cena é construída pelo tiro da caça da família real diante de um cervo, e essa caça transformada no inverso, um integrante da família posto numa armadilha e assassinado. O mesmo ocorre na sequência, pelo episódio “O teste de Balmoral”. A família interrompe tudo para caçar um cervo que está ferido em suas terras, para exibir a cabeça do animal majestoso na sala de jantar. A primeira-ministra Margaret Thatcher é convidada e, sob os olhos vigilantes da realeza, se torna tão alvo de julgamento pelas vestes que usa e o desconhecimento dos protocolos que vira também caça. Ao fim, as duas cabeças dos cervos estão expostos na sala de jantar, antagônicos como a rainha e a primeira-ministra.

A família não consegue apenas conquistar o cervo perfeito como vê em Diana Spencer a jovem promissora ao casamento com o possível futuro rei. Convidada para passar o final de semana com Charles e sua família, Diana os conquista por sua personalidade. Mas sabemos que, no todo, Diana logo passa a sentir as consequências do que é ser parte dessa família. Tão exposta quanto o cervo único, majestoso, transformado em mero objeto de decoração. Uma comparação bem sutil por parte da série e, ainda assim, bem mordaz. 

A ICÔNICA PRINCESA DIANA

Terceira filha do oitavo conde Spencer, Diana surge em The Crown quase como uma fada, se esgueirando pela sala enquanto o príncipe Charles aguardava a irmã dela. Trajando um figurino de uma encenação de Sonho de uma noite de verão, de William Shakespeare, a personagem mostra a conexão com o teatro e a vida de Charles. Quase saída da ficção e do mundo das fadas, ela vê sua vida de professora de jardim de infância, morando com as amigas, transformada pela possibilidade do título de princesa, uma mudança que no início tem ares efervescentes de um sonho.

Porém, na prática, a vida se revelou bem distante da magia dos contos. Diana exerce, primeiro, um encantamento na família real quando passa o final de semana em Balmoral. Até os acertos para o casamento, tudo parece ir bem. Mas com um fato estranho: a ausência constante de Charles. Aos poucos, o casamento começa a soar como arranjado, e ela pouco sabe sobre o marido e sua família, enfrentando a verdade do caso extraconjugal de Charles com Camilla Shand (Emerald Fennell). 

Ao se mudar para o Palácio de Buckingham, Diana logo vira a princesa isolada na torre, parte essa que os contos de fadas não mostram: o isolamento, a exclusão da família, a ausência de carinho. Em trechos dolorosos, a série mostra como Diana sofreu de bulimia, transtorno alimentar contra o qual lutou por anos.

As perseguições que Diana sofreu e que culminaram em sua morte se iniciam na forma invasiva com que os jornalistas a interrogam para saber se ela iria anunciar o noivado. Sempre muito gentil, Diana enfrentou toda essa transição absolutamente sozinha.

O fortalecimento da sua imagem veio justamente da doçura com que Diana olhava aqueles que a admiravam. A série mostra por cima algumas das ações humanitárias de Diana e o seu poder de comover multidões pela sincera preocupação com o outro, comoção essa que entrou em embate com o isolamento da família real e seus limites com o contato ao público. A grande dor que se sente como espectador é que somos parte dessa multidão que deu certa alegria para a princesa, enquanto ela atravessava a relação caótica com a família real. Ainda assim, mesmo sendo de uma geração que não viu Diana viva, a vontade era de estar lá e lhe estender a mão e evitar seu sofrimento. 

A multidão diante de Diana também é um elemento conflitante, porque ela foi alçada ao símbolo, tornou-se tão ícone quanto a rainha. Mesmo que numa configuração diferente, mais próxima da realidade, toda a exaltação da sua figura também resultou em um apelo bizarro para os paparazzi, por esse gosto de desvendar a princesa e vender sua imagem. 

Por isso, mesmo que essa temporada seja só a primeira de Diana, terminamos desejando não ser os olhos que viram o seu desfecho. Diferente da rainha na segunda temporada, que olha diretamente para a câmera, se esquecendo dos seus problemas pessoais, tudo a favor desse símbolo da Coroa, Diana não consegue fazer o mesmo: ela é transparente e vê o que a Coroa causa muito além de todo o seu encanto. 

A POLÊMICA DA TEMPORADA ENTRE A FAMÍLIA REAL

Bastou a quarta temporada ser lançada para começarem a surgir inúmeras matérias na internet atacando as decisões do roteiro. Houve, pela primeira vez de forma incisiva, comentários da realeza de que The Crown estaria “lucrando em cima da família”, que estavam contando mentiras. 

O governo britânico exigiu que a Netflix indicasse que The Crown é uma ficção, e a plataforma de streaming negou que incluiria isso numa já anunciada ficção histórica. Em entrevista, o mordomo Paul Burrell afirmou que algumas coisas da série são verdadeiras e outras não. Ele diz que o desafeto da rainha com Diana era real, assim como os conflitos entre Diana e Charles, que não houve suporte algum de dentro da família. Já em relação à interação entre a rainha e Margaret Thatcher pouco se sabe porque suas reuniões eram privadas, mas o mordomo diz que não havia nenhuma rixa evidente entre elas.

Até então, a família real nada dizia se eles assistiam à série. Mas foi tocar na ferida dolorosa e pública da princesa Diana que pudemos ver respostas na mídia, curiosamente figura essa que comentou sobre seus problemas no interior da família, tendo o registro tanto no documentário Diana, em suas próprias palavrasThe Story of Diana e a biografia Diana: sua verdadeira história como fontes. Nessa temporada, The Crown não perdoa nem a imagem da rainha, agora um pouco mais criticável em seu comportamento com Diana e os familiares.

Em torno disso, é fácil ficar um tanto dividido. Pois são pessoas vivas vendo suas histórias sendo contadas por uma série assistida no mundo inteiro, não podendo revelar abertamente tudo o que já pensaram e viveram, por serem figuras políticas com diversos protocolos. Mas a série não deixa de ter seu compromisso com as fontes usadas e, sobretudo, com a liberdade de uma ficção em contar décadas de história.

The Crown surge, com essa temporada, apresentando o fato de que se trata, obviamente, de uma ficção histórica. De uma interpretação a partir de relatos, de biografias, tomando algumas liberdades e podendo ser discutida. Ainda assim, ela tem o mérito de ter aproximado essas pessoas, tão isoladas na riqueza da Coroa dourada, de um grande público. O paradoxo enfrentado pela família real é esse, os limites estranhos de ser uma figura privada e pública, da qual sempre irão falar, imagem que reforçam também pela continuidade de seus rituais e símbolos. 

RECOMENDAÇÃO DE LIVROS

Já que agora estamos sem uma temporada nova, com esse encerramento da fase de Olivia Colman e elenco, pode ser tempo para leituras. Para aqueles, então, que gostariam de aprender mais sobre os fatos históricos e comparar com o que aconteceu ou não na série, ficam algumas indicações:

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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