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O Grinch: o clássico literário e a animação

Esta é uma resenha atualizada e reformulada que publiquei aqui em 2013

Para quem assistiu ao filme de 2000, com Jim Carrey, o Grinch já é uma figura conhecida. Mas o que poucos sabem é que a história que originou a produção é um clássico da literatura infantil chamado Como o Grinch roubou o Natal(How the Grinch stole Christmas, no original), de Dr. Seuss. Publicado em 1957, pela Random House, o livrou virou também animação para a TV em 1966 e outra para o cinema em 2018.

Uma criatura verde, com o coração dividido em 2 partes frias, pequenas e insensíveis à união e ao amor natalino. O Grinch odeia o Natal. Ele observa ao longe, de sua caverna, os Whos se preparando para a grande comemoração: a mesa para a ceia feita com todos da vila, os presentes, as luzes que invadem as pequenas cabanas.  E o plano é impedir, o mais rápido possível, que o Natal aconteça dessa vez, após 53 anos aguentando os Whos cantando na ceia de Natal. Eles são insuportavelmente felizes.

O Grinch tem, então, uma grande ideia, uma terrível ideia: fantasiar-se de Papai Noel e fazer de seu cachorrinho, Max, uma rena, sair de sua caverna em um trenó e roubar o Natal dos Whos, sumir com cada presente, cada prato de comida que fosse para a ceia. 

ILUSTRAÇÃO DE HOW THE GRINCH STOLE CHRISTMAS, DE DR.SEUSS, PELA RANDOM HOUSE

Mas, quando Grinchestá prestes a colocar a árvore de Natal na chaminé, para roubá-la também, ele é surpreendido por Cindy-Lou, uma garotinha Who. O Grinch logo consegue enganá-la e sai da vila Who com todos os presentes dos moradores. Agora é o fim do Natal.

A questão é que, enquanto o Grinch sobe a colina com seu trenó lotado de presentes, da vila Who vem um som. O monstrinho verde e maligno fica em choque, aquele som cresce e cresce cada vez mais: a cidade inteira está reunida, cantando músicas natalinas, sem presentes, sem peru, sem pudim. E ele pensa, numa frase marcante para o pequeno livro: “Talvez o Natal não venha de uma loja. Talvez o Natal…talvez…signifique um pouco mais”.

“O que aconteceu, então? Bem…na vila Who eles disseram que o pequeno coração do Grinch aumentou três tamanhos naquele dia.” Com isso, o Grinch finalmente viu o valor dos Whos, voltou à vila, devolveu os presentes e ele mesmo cortou o peru na ceia, reunido aos moradores que tanto odiava. O Natal havia mostrado ao Grinch que o espírito da data estava mais na comunidade do que nos presentes.

A recepção da obra foi positiva e hoje a temos como um dos maiores clássicos natalinos. No jornal The New York TimesEllen Lewis Buell escreveu:

“Mesmo que você prefira o Dr. Seuss com um humor puramente antiquado, deve admitir que, se há uma moral a ser apontada, ninguém pode fazê-lo com mais alegria. O leitor é levado pelas rimas efervescentes e pelas imagens estranhamente malucas até que fica mole de alívio quando o Grinch se reforma e, como o último, amadurecido com bons sentimentos.”

A narrativa é em forma de rima e feita com uma delicadeza singular. Os sons emitidos pelo Grinch viram rima, com um neologismo muito criativo utilizando o nome do personagem. Além das espirituosas rimas, a edição do livro tem um trabalho de ilustração muito bem feito. Ilustrada pelo próprio autor, a obra possui desenho com tons simbólicos, como o verde, o branco, o vermelho – as cores natalinas – enquanto preenche apenas alguns elementos do desenho feito em preto e branco.  

Curiosamente, a inspiração entre o autor e a figura do Grinch se misturam, e Dr. Seuss chegou a dizer que encontrava certa semelhança: 

“Eu estava escovando os dentes na manhã do dia 26 de dezembro passado quando notei um semblante muito Grinch no espelho. Era Seuss! Então eu escrevi sobre meu amigo azedo, o Grinch, para ver se eu poderia redescobrir algo sobre o Natal que obviamente eu tinha perdido.”

O que mais encanta no Grinché que, por trás de seu semblante mal humorado e seu coraçãozinho apertado de rancor, há muita melancolia e só uma vontade de pertencer. Pois Grinch apenas queria recuperar a magia e o espírito do Natal.

O desenho demonstra isso: o Grinch é verde, uma cor que, no fim, percebemos que pertence à paleta de cores do Natal. Só foi preciso o coração do monstrinho verde multiplicar o seu tamanho, para ele perceber que fazia parte do Natal dos Whos.

A animação Grinch, de 2018

Entre a mais recente adaptação da obra do Dr. Seuss, creio que a animação de 2018 seja a que pegou mais a sutileza dos sentimentos do Grinch, tornando-o um rabugento que conquista demais o público. É impossível não sucumbir à fofura do filme e até o Grinch vira encantador.

A qualidade da animação é um caso à parte, o tipo de filme que vale ver mais de uma vez para prestar atenção na riqueza de detalhes dos cenários criados. A vila Who ganha finalmente vida e encantamento. Parece um mundo em miniatura, feito de alegria, doçura e leveza, do qual facilmente desejamos fazer parte. E isso não é por acaso: desejamos pertencer à vila, como o Grinch lá no fundo também deseja quando vê a beleza da vila. 

O filme acerta em acrescentar notas de melancolia na vida dos personagens, principalmente sobre as dificuldades de ser mãe, o que a pequenina e adorável Cindy-Lou percebe: sua mãe está exausta e ela quer ajudar. Isso dá uma camada mais humana aos personagens que, às vezes, irritavam um pouquinho pela felicidade excessiva na adaptação de 2000. Só esse cuidado de Cindy-Lou com a mãe, os amiguinhos que decidem ajudá-la, já amolece o nosso coração, mostrando que nem tudo é perfeito e que, mesmo assim, os Whos conseguiam achar um jeito de se unir e alimentar o espírito natalino.

Há notas de Scrooge, do clássico Um conto de Natal, de Charles Dickens, no comportamento do Grinch. Tão rabugento quanto, ambos são obrigados a expiar seus demônios tendo que aprender a corrigir a péssima atitude que eles têm com os outros. Os fantasmas revisitam o Grinch, de alguma forma, quando ele lembra da infância. E assim a animação reinventa esse clássico, ampliando todo o brilhantismo que reina no livro.

Referências bibliográficas
  • SEUSS, Dr. How the Grinch stole Christmas. Nova York: Random House, 2013
  • SEUSS, Dr. Como o Grinch roubou o Natal. São Paulo: Companhia das Letras, 2019
  • FENSCH, Thomas. The Man Who Was Dr. Seuss. Woodlands: New Century Books, 2001, p.128-129
  • HART, William. “Between the Lines”, Redbook, 1957
  • Publicado pela autora nos sites Querido Clássico e Artrianon

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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