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A conjunção Júpiter e Saturno

Nesta segunda, dia 21 de dezembro, acontece a famosa conjunção entre Júpiter e Saturno. Com o pôr do sol, vai acontecer algo histórico: Júpiter e Saturno ficarão tão alinhados que vão parecer um só planeta de quem os observa da Terra; a última vez que isso aconteceu foi há 400 anos.

Historicamente, vale lembrar as descobertas em torno desses planetas. Segundo matéria da NASA, em 1610, como sabemos, o astrônomo italiano Galileu Galilei apontou seu telescópio para o céu noturno, descobrindo as quatro luas de Júpiter – Io, Europa, Ganimedes e Calisto. No mesmo ano, Galileu também descobriu uma estranha forma oval em torno de Saturno, que observações posteriores determinaram ser seus anéis. Essas descobertas mudaram a forma como as pessoas entendiam os confins de nosso sistema solar.

Treze anos depois, em 1623, os dois planetas gigantes do sistema solar, Júpiter e Saturno, viajaram juntos pelo céu. Júpiter alcançou e ultrapassou Saturno, em um evento astronômico conhecido como “Grande Conjunção”. Os últimos registros que se tem deste fenômeno datam, então, de 1623 e 1226 e, por isso, ele é considerado raro pelos astrônomos, já que cada planeta tem um tempo diferente para girar em torno do Sol, sendo 12 anos para Júpiter, e 30 para Saturno.

E cá estamos novamente para testemunhar isso nos céus. A cada 20 anos, eles se alinham. Mas já faz 400 anos que eles passaram tão próximos entre si, e quase 800 anos desde que o alinhamento de Saturno e Júpiter pôde ser visível a olho nu. Como acontecerá em 2020, permitindo que quase todos ao redor do mundo testemunhem esta “grande conjunção”. O evento vai ser transmitido em live aqui.

E este alinhamento entre os dois planetas tem sido chamado também de “estrela de Belém” ou “do Natal”, dada a proximidade com a data festiva do cristianismo.

Curiosidades na astrologia

Entre os astrólogos, a conjunção ganha um aspecto mágico e expansivo. Pois sendo Saturno simbolicamente o deus do Tempo, e Júpiter o planeta associado aos sonhos e à expansão, temos uma combinação curiosa: o deus do Tempo que vigia os limites da ação humana com o nada limitado Júpiter. Com ares revolucionários, diz-se que isso marcará tempos de grandes mudanças borbulhando entre rebeldia, tecnologia e ciência.

Fala-se ainda do fato de Júpiter e Saturno estarem situados em Aquário, esse signo que não é só o revolucionário, mas aquele que carrega no jarro o saber decantado do mundo, prestes a jorrá-lo como corrente quase no fim dos 12 signos do zodíaco. Essa energia aquariana e sendo um signo de ar, os astrólogos veem como um trabalho voltado ao coletivo que influenciará os próximos 800 anos.

Não sabemos bem o que vai ser, obviamente. Mas o seu caráter histórico e científico já é o suficiente para passar o tempo saturnino imaginando o que vai ser. O grande palpite já foi dado por toda essa experiência conflituosa em pandemia, desafios de uma política que não vê a situação social e as minorias, e o colapso do meio ambiente e recursos mal distribuídos. Razão não falta para rever como funcionamos enquanto pessoas pertencendo a um campo social. E com todas essas questões, os saberes da ciência (humanas, biológicas e exatas), sem qualquer hierarquia entre elas, são os caminhos inventivos para pensar em soluções ou viabilizar algum sentido mais próximo do coletivo.

Saturno, o deus do Tempo

Por coincidência ou não, lembrei de meu texto escrito em ocasião à visita que fiz no Natal de 2015 à Strasbourg, sobre o relógio astronômico da catedral da cidade. Quase um reencontro com o meu próprio tempo. Esse relógio simplesmente incorpora o tempo saturnino e toda essa união entre astrologia e astronomia, pois ainda seguia a teoria de Ptolomeu, com a Terra no centro, e os planetas com ares de divindades.

relogio
O relógio astronômico. Créditos: Pixel_K

Toda a imensidão do conhecimento que unifica ciência e arte na construção de um relógio feito de autômatos que se movem, a cada hora, mais próximo da Morte com sua foice, é de tirar o fôlego. No relógio astronômico, a cada badalada com o canto do galo, temos Saturno em sua carruagem se movendo a cada hora para se aproximar do velho com sua foice. Como escrevi na matéria sobre o relógio astronômico, sua constituição é toda detalhada para reproduzir as crenças em torno da Terra, dos planetas e da Morte:

“Temos também as quatro idades da vida que marcam os quartos de horas. A cada hora a Morte se aproxima do sino. E o galo de 1354 canta três vezes. É curioso, diante deste relógio, constatar que ainda se trata da antiga cosmologia de Ptolomeu que situa a Terra no centro do Universo. Toda a estrutura tem 18 metros, e a escada à direita e a torre central datam de aproximadamente 1547, e são a primeira criação arquitetônica do Renascimento em Strasbourg. Por isso, o trabalho de restauração no século XIX precisou conservar e muito essa história presente no relógio”.

Também já falei de Saturno como o deus Cronos pela pintura de Goya, aquele que gera e devora os filhos. Ultimamente ando pensando demais nessa simbologia de Saturno, pois passamos o ano na desaceleração do tempo em quarentena, com esse contato próximo e aterrorizante com a Morte.

E o que mais senti, nesse isolamento, foi um desejo enorme de me reaproximar das histórias antigas do mundo, desse tempo saturnino que também cria cultura, conexões entre as pessoas por meio da arte. Eu me vi traduzindo contos do século XIII, confundindo meu tempo com a vida no século XIX a partir da minha pesquisa, levada pela escrita a povoar a minha casa com todos os tempos do mundo. Talvez tenha sido o medo de morrer e de perder os que amo, quando a quarentena se instaurou, quando essa semana pessoas muito próximas contraíram covid-19 e nos vimos em casa atentos ao corpo. Continuamos sem entender o que está acontecendo, e sem sequer saber como o vírus responde a cada um, e não sabemos como lidar com essa perda imensa de quase 200 mil pessoas só no Brasil.

Por esse medo pela morte, fui lançada a pensar nela, apareceu até mesmo na minha dissertação de mestrado. A permanente tensão que temos, ao temer e também não se deixar esquecer que ela existe. Fomos lembrados não apenas da relatividade do nosso tamanho, afinal, é o confronto com um vírus, como fomos lembrados de que a ciência precisa receber os créditos de inventar formas para sobrevivermos na Terra.

Pensar que muitos estão vivos por causa do trabalho de médicos e enfermeiros. De que podemos estar de volta à esfera pública por causa de uma dose minúscula e milagrosa promovida por um gesto e uma seringa, resultado de meses de pesquisadores se debruçando em mesas, em contas, em microscópios olhando tanto para baixo – para os seres minúsculos e invisíveis – quanto para cima, as estrelas e os astros, é o que se constitui a maior magia da vida criada na história da humanidade, a própria ciência. Olhemos para todos os lados do mundo, e não aceitemos instaurar a cegueira.

Transmissão ao vivo

O alinhamento dos planetas Júpiter e Saturno, que ocorre nesta segunda-feira (21) e poderá ser visto da Terra, será transmitido ao vivo pelo canal Astronomia da Seara da Ciência. A live é uma realização do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, por meio do Planetário Rubens de Azevedo e da Seara da Ciência da Universidade Federal do Ceará. O fenômeno também poderá ser visto a olho nu. A transmissão começa às 18h e terá comentários do professor Ednardo Rodrigues, da equipe do Grupo de Astronomia da Seara (GAS Interestelar). Via Diário do Nordeste

Referências bibliográficas

NASA, The great conjunction of Jupiter and Saturn

Obra de arte da semana | O Natal e o relógio astronômico de Strasbourg

Obra de arte da semana | Saturno devorando um filho, de Goya

Alinhamento de Saturno e Júpiter será transmitido ao vivo

A Grande Conjunção – Encontros astrológicos

imagem de capa: Allegorical Portrait of Urania Muse of Astronomy, Louis Tocqué

montagem de capa: Marina Franconeti

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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