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Entre a pluma e o coração

Antes de adentrar no recolhimento forçado da longa quarentena em que estamos, eu me vi entre os egípcios. Na exposição de arte do CCBB, flanei pelas suas esculturas em honra da morte e da passagem, maravilhada pelo codex estendido tal qual um lençol de manchas de um passado longínquo, o Livro dos Mortos.

A deusa Maat, a deusa da verdade, da justiça, foi a que mais me interessou. Incumbida de pesar o coração da pessoa, no instante da passagem, em uma balança, a deusa verifica se esse estava mais leve do que a pluma, do outro lado da balança. Acho lindíssima a imagem dessa comparação e do poder evocativo que ela tem.

Detalhe de Papyrus of Hunefer‎, British Museum

Mal sabia que ver esse recorte da exposição por uma cultura tão vasta, a qual colocava o processo de luto e da morte em seu centro – muito distinto da visão atual que enfrentamos, que evita falar dela a todo custo, com um presidente debochando dos mortos -, seria um prelúdio para os meses seguintes. Em tempos de pandemia, assisti narrativas como A maldição da mansão Bly, que mostra que nem os mortos estavam em paz, um coração pesado, nada leve como a pluma. E esses fantasmas góticos sobre os quais andei lendo, eles não encontram paz na passagem.

A verdade é que a pandemia só revelou que não sabemos absolutamente nada, e que a insistência em terraplanismos, em discursos anti-vacinas, e na fala de algumas pessoas colocando a situação como um ato divino de seleção por aqueles que ficam começaram a me irritar. Pois é injusto dizer algo assim quando quase 200 mil pessoas morreram. O que leva pessoas a crer que podem dizer às outras que Deus decidiu instaurar uma pandemia?

Acho que precisamos é aprender com os egípcios. Honrar os mortos, respeitar esse corpo, trabalhar o peso do coração em vida. E em plena passagem de ano, eu me obrigo a pensar na morte porque ela foi a que mais esteve presente esse ano, e não sabemos como será em 2021.

Não sabemos como ficarão os vivos diante dos mortos dessa pandemia. Os números aumentam a cada dia, soam como contagens repetitivas. Sem os nomes das pessoas povoando os jornais, sem um processo coletivo de luto. E, como se não bastasse, estamos sob ameaça da situação piorar por um governo que torna a vacina um motivo ideológico para não assumir responsabilidade perante a doença.

Muitas pessoas nesse fim de ano terão um Natal sem aqueles que amam porque as perderam. E é necessário lembrar disso, porque o que se passa com o outro pode acontecer com a gente, ainda mais se decidirmos por festejar com um monte de gente ou viajar em grupo, quando deveríamos aceitar o isolamento exatamente em um período com números tão altos de casos e mortes. Não só por si mesmo, mas pelos próprios familiares, e desconhecidos.

Certa dose de sacrifício, nesse fim de ano, é necessário para que continuemos vivos. Não é um instante em que cabe tentar a todo custo viver a normalidade do fim de ano, entre festas, praias e reuniões familiares, porque nesse instante suspenso simplesmente não dá. A comemoração precisa ser revista, menor, na própria casa, para o bem de todos.

Por isso fico com essa frase simples de Sylvia Plath, de um de seus diários: “se eu superar este ano, não importa o quão ruim, será a maior vitória que já tive”. Infelizmente, a pandemia não vai acabar magicamente quando chegarmos em 2021. E os reflexos da pandemia vão se estender por muito tempo. Isto é, a pandemia em si não é algo que se consegue superar. Mas o simples fato da sobrevivência em 2020, dentro de casa e dentro da própria mente, é uma sobrevivência que precisa ser vista enquanto vitória. Não estamos lentos, não temos que render mais. O tempo que tem é esse aqui, um carpe diem às avessas porque corporifica de verdade a finitude da vida.

Por isso ter simplesmente sobrevivido, em todos os sentidos, ao ano de 2020, é uma vitória estranha. Não há nela nada de vitorioso por não ter enfrentado a perda e o vírus. Mas há a vitória para aqueles que ficaram em casa, enfrentando esse isolamento trabalhando; os que não puderam parar de jeito nenhum, trabalhadores entregando comida e se arriscando; professores comprovando mais uma vez como sempre acham um jeito de prosseguirem transmitindo saberes; mães se desdobrando em mil entre filhos e trabalho; jornalistas e especialistas passando para frente a informação que realmente salva vidas. Estamos esgotados. É, portanto, uma vitória no mundo particular da intimidade, do que enfrentamos no interior de nós mesmos. Quantas vezes nos refizemos nessa quarentena? Eu perdi a conta.

Aquela história de um coração ser pluma…em vida, é impossível. Ele é feito de carne, é denso, compartilha espaço com a mente confusa que todos temos. Ele é músculo que matura os sentimentos, faz o milagre de expandir sangue para todos os lados do corpo, é o vermelho da vida pulsando. Na balança dos vivos, já é o suficiente que o coração esteja batendo, os pulmões se expandindo, o gosto e o cheiro das coisas se mostrem, pois não precisamos ser completamente leves como pluma. O corpo já basta e ele é uma vitória.

Arte de Joanna Maciel

imagem de capa: Joanna Maciel

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

2 comentários em “Entre a pluma e o coração Deixe um comentário

  1. Marina, querida, eu não tinha tido o prazer de conhecer o seu Blog. Fiquei encantada com a sua forma de escrever.
    Desde que você frequentava o HWR, quando pequena até à pré-adolescência, percebemos o seu gosto pela literatura ( a Cinthia que o diga). Tínhamos certeza de que o seu futuro estava traçado. Ao ver o seu texto sobre a Pandemia, fiquei encantada com suas analogias e, principalmente, com os puxões de orelha aos que desrespeitam este período tão triste e complexo. Vários países já vacinando sua população e nós, aqui, nesta espera angustiante, para sermos vacinados, em algum momento “mágico”! Do jeito que o nosso país está, juntamente com seus governantes ( a maioria, inclusive o principal ), só a vacina, a fé e esperança nos salvarão desse vírus tão horripilante.
    Parabéns! Sentimos muito orgulho de você e do seu trabalho, como escritora. Muito sucesso!
    Lourdes Alvarenga – diretora do Colégio Henri Wallon | Recrearte – HWR

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