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Os meus livros favoritos de 2020

Não querendo deixar para trás algumas das histórias que mais me interessaram em 2020, resolvi montar essa listinha que com certeza não tem nada de definitiva, mas que tem um pouco do que foi o meu lazer desafiador na quarentena. Se não fossem as ficções, eu não sei o que teria sido de mim. Entre contemporâneos e clássicos, fiz boas leituras em 2020. Sem meta alguma, me deixei ler simplesmente pela vontade, e houve excelentes descobertas e novos olhares em releituras.

Orgulho e Preconceito. de Jane Austen: revendo o filme pela milésima vez nessa quarentena, acabei sendo seduzida novamente ao mundo de Jane Austen e resolvi reler Orgulho e Preconceito, e até escrevi sobre o livro e uma homenagem a ela aqui no blog. E, mais uma vez, me encantei por tudo, proeza da autora. Eu me vi suspirando novamente por Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, me divertindo com os comentários da Sra. Bennet e os conflitos de matrimônio. Foi um refúgio delicioso demais reencontrar essa vida campestre, bem mais agitada do que a vida de quarentena. Os personagens de Austen cresceram mais ainda nessa releitura, e só ficou mais claro o brilhantismo da autora ao mostrar os desdobramentos complexos do matrimônio no início do século XIX. (Tradução por Carol Chiovatto)

Mulherzinhas, de Louisa May Alcott: como um delicioso encontro familiar em torno da ceia de Natal, o livro de Alcott é uma leitura que você logo se vê envolvida, degustando cada acontecimento na vida das meninas da família March. Eu me senti parte dela, sonhando e crescendo com Beth, Jo, Amy e Meg, construindo seus castelos da imaginação e vendo cada rito de passagem de suas vidas. (Tradução por Julia Romeu)

Os sete maridos de Evelyn Hugo, de Taylor Jenkins Reid: peguei a indicação entre canais de booktubers e amigos que sigo no twitter, e ele me conquistou de um jeito absurdo. Eu me vi lendo o livro até tarde da madrugada, na hora do jantar, devorando o livro em três dias. Ele conta a história de Evelyn Hugo, grande nome fictício do cinema hollywoodiano, desde sua ascensão às polêmicas envolvendo seus casamentos, e o amor que encontra em Celia. Grande retrato de uma era de ouro do cinema, não só americano mas europeu, Evelyn Hugo foi se formando na minha imaginação como uma mistura de Rita Moreno, Catherine Deneuve, Jane Fonda, Marilyn Monroe e Rita Hayworth. Tudo isso se tornando um relato com razões misteriosas para uma jovem jornalista. O livro tem uma protagonista poderosa, porque ele é tão convincente que você se vê querendo procurar toda a filmografia dessa personagem fictícia, ou procurar obras equivalentes, tornando-se um grande fã dela no final, rendido à complexidade de Evelyn Hugo. (Tradução por Alexandre Boide)

Assassinato no campo de golfe, de Agatha Christie: com Hercule Poirot, investigamos um misterioso assassinato de monsieur Renauld, atingido nas costas por facadas, encontrado estranhamente ao lado de uma cova no campo de golfe de sua mansão. Bem detalhado, o caso envolve Poirot em competição com outro investigador, assim como em evidências entre pessoas que habitam na região. Como um livro clássico de Agatha Christie, eu me vi viciada em tentar desvendar o caso e, mais uma vez, fui enganada pela autora, é a vida. (Tradução por Marcelo Barbão)

Orlando, de Virginia Woolf: ler essa grande obra de Virginia Woolf foi um dos pontos altos do ano, porque foi o tipo de leitura que levou alguns meses, crescendo gradativamente, enquanto me dava mil recados em torno do que é ser escritora. A sua estrutura é ousada e diferente: uma personagem que muda de gênero no meio da história, passando por várias circunstâncias históricas, incluindo um painel de costumes de cada século. No formato de uma biografia de uma personagem desconhecida, somos cativados por Orlando, e nos vemos pensando sobre fama, escrita, crítica, amor, matrimônio, liberdade. (Tradução por Laura Alves)

Porém bruxa, de Carol Chiovatto: Ísis Rossetti é bruxa e rastreia eventos com marcas de bruxaria em São Paulo, enquanto ajuda a amiga que trabalha na Delegacia da Mulher a solucionar casos. A narrativa é muito fluida e envolvente, e em poucos dias eu devorei o livro, totalmente envolvida com a trama construída, os personagens. Excelente chance de ver uma representação de uma bruxa na vida urbana, de forma muito convincente. Comecei 2020 com esse livro e terminei lendo Senciente nível 5, também da autora, uma space opera com um mundo inteiramente construído em poucas páginas. Já fica como mais uma recomendação, da minha primeira leitura terminada em 2021.

A volta do parafuso, de Henry James: um texto intrincado e misterioso do começo ao fim, a novela de Henry James virou a adaptação em série A maldição da mansão Bly. Acompanhamos a chegada da babá que cuidará de dois anjinhos, Flora e Miles, e os fantasmas que ela começa a ver na estranha mansão. Nada é o que parece, e o livro vira um neurótico relato que quase nos leva à loucura. Continuo até agora pensando nas entrelinhas do livro. (Tradução por Guilherme da Silva Braga)

Um conto de Natal, de Charles Dickens: adorável narrativa natalina, a obra clássica de Dickens dá muito a ser comentado. Scrooge, em seu egoísmo e comportamento avarento, tem um embate moral com os três espíritos do Natal, seu passado, presente e futuro vindo cobrar a conta pelas suas atitudes. Em um dos momentos mais geniais do livro, temos Scrooge percebendo que, mesmo após de mortos, carregamos as correntes da vida. Cada elo, construído por nós mesmos, arrastado em vida e em morte. Só por isso, o livro já ganha profundidade e atinge como uma bela história sobre generosidade, perdão e tomada de consciência da própria vida quando ainda há tempo. (Tradução por Carmen Seganfredo e Ademilson Franckini)

O urso e o rouxinol, de Katherine Arden: é uma completa viagem à Rússia medieval com ares de conto de fadas. É o primeiro livro da trilogia Winternight, escrita pela autora norte-americana Katherine Arden, sobre uma heroína rebelde para os padrões, Vasya, que nasce já com um mistério mágico em torno de si. Entre as florestas povoadas por seres místicos, respeitados pela comunidade, atravessamos o crescimento de Vasya e as ameaças do cristianismo face à cultura e ao folclore local. É imersivo, delicioso de ler, e você se vê sentindo o sabor do bolo, do mel, o crepitar do forno à lenha, e as mudanças de estações. (Tradução por Elisa Nazarian)

A vagabunda, de Colette: uma autora tão pouco traduzida aqui no Brasil, Colette conta, nas ficções, muito de sua vida. A protagonista de A vagabunda é uma artista itinerante que trabalha numa variedade de estilos, entre mímica e dança. Após uma de suas apresentações, a personagem conhece um homem que se apaixona por ela e propõe casamento. A condição, porém, será a de abandonar a carreira. Um livro que fala sobre a dificuldade de uma mulher em conquistar a liberdade, o direito ao trabalho, a um amor igualitário, sendo extremamente atual. (Tradução por Julio Silveira)

A vagabunda (Sidonie Gabrielle Colette; Julio Silveira. Imã Editorial)  [FIC041000] | Kalinka
Colette

O ano do macaco e Só garotos, de Patti Smith:

A escritora, poeta e cantora, chamada a “poetisa do punk”, é uma das minhas pessoas favoritas no mundo, amo, amo demais a Patti. Quase uma deusa com os pés fincados na terra, com seu coturno e espírito livre, Patti ilumina o leitor com a sua capacidade de contar o passado com tamanha vivacidade que é possível dizer que se tornam histórias nossas. O ano do macaco tem a particularidade de ter sido escrito no ano das eleições norte-americanas, junto à doença de um amigo muito querido. Patti escreve com um ritmo verborrágico que, muitas vezes, faz a gente se confundir, porque tudo parece ter um tom de sonho absurdo (e o mundo não é assim?). Cheio de enigmas, sinais, tragédias e louvores. Chegar ao final do livro é uma experiência muito louca, porque eu não sabia se estava entendendo. Retomei as partes que grifei, as flags que usei pra marcar as passagens, fui juntando peça a peça e…Patti consegue transmitir as sensações que é pensar sobre o início e o fim da civilização. Eu sei que ainda vou reler para escrever melhor a respeito, é um livro que merece. Uma Alice punk, poética e de tranças grisalhas, em um mundo que, mesmo maravilhoso, tem lá seus entraves. Acho que nunca acordamos desse sonho. (Tradução por Camila von Holdefer)

Só garotos foi uma releitura gostosa de fazer. Li em 2018, sem nem conhecer a Patti, e agora conhecendo e amando foi outra experiência. Viajamos pela beleza da juventude dela com Robert Mappletorpe, um rapaz, quase um menino com a voracidade de um homem artista querendo nascer, que depois se tornou um fotógrafo consagrado. O livro é sobre Patti, sobre Robert e a comunhão do artista com o mundo, com as pessoas que lhe ajudam a fazer essa travessia. Robert tem um quê da versatilidade dos italianos renascentistas – e até os cachinhos de um anjo de Botticelli -, enquanto Patti é o ultrarromantismo do século XIX encarnado, mas com doçura e sem o peso da autodestruição dos poetas. Os olhos dela para o mundo são límpidos e gentis, abertos e sem controle. Ler Só garotos nos introduz ao imaginário dos anos 60 e 70, os sonhos de uma geração, a simplicidade e efervescência criativa. Sabe, era só ir num mercado de pulgas, juntar um casaco, um colar comprado na loja da esquina, um altar abandonado, e fazer a decoração de sua própria casa, colagens impossíveis. Sonhar com vinis, terras persas, poemas de Rimbaud e ruas de Paris. Só garotos traz tudo isso e provoca na gente o desejo de olhar para quem está a nossa volta, a simplificar o processo artístico colocando no centro apenas a fome por arte, o amor e o movimento que atravessa as coisas. (Tradução por Alexandre Barbosa de Souza)

Patti Smith. Créditos: The Washington Post/ Rebecca Miller

montagem de capa: Marina Franconeti

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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