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Uma menina e um gato, começos da dissertação

Tudo começou com uma menina e um gato sorridente. Eu entrei na sala para ter minha primeira aula sobre Estética na graduação de Filosofia. Acordei naquele dia muito empolgada, porque sentia que havia lá a promessa de encontrar a minha área. Só não imaginava como seria tão certeiro. O projetor estava ligado e o papel de parede do computador da sala era essa adorável menina segurando um gato sorridente, pintada por Renoir.

Eu não conhecia a obra, senti que havia algo da pincelada de Renoir, e só. Mas me recordo com muita clareza de andar e me deparar com aquela imagem agigantada da menina e da energia doce e receptiva que emanava dela. Demorei anos para entender que era quase um sinal mágico do que viraria minha vida. Voltei para casa encantada pelo quadro e pela aula, falando que eu havia realmente me encontrado.

O papel de parede se tratava de Julie Manet com seu gato. Ela era filha da pintora impressionista Berthe Morisot e Eugène Manet, irmão do pintor Édouard Manet. Ou seja, sua sobrinha. Eu não sabia nada de Manet, creio que nem sabia de sua existência (o que é uma surpresa). Passei a adolescência venerando Claude Monet, mas Manet mesmo eu não conhecia.

Julie Manet com um gato, Pierre-Auguste Renoir

Isso foi no primeiro semestre de 2012, e no fim desse primeiro semestre pedi ao meu professor indicações de leituras para um projeto de iniciação científica com ele. Esperava estudar Baudelaire ou cinema, já que sempre fui próxima da literatura e dos filmes, nunca me passou pela mente que poderia estudar pintura em Filosofia. Mas eu basicamente não fazia ideia do que deveria estudar – e começamos sempre assim. Era apaixonada por pintura desde criança, mas ninguém nunca havia me dito como se fala de uma obra de arte.

Naquelas férias, eu li e me deparei com A pintura da vida moderna, de T.J.Clark. Seu capítulo maravilhoso sobre o quadro Olympia, de Édouard Manet, me envolveu absurdamente. Eu me vi postergando as últimas páginas do capítulo, para não terminá-lo. Parecia que eu estava lendo um mistério de Agatha Christie. No mestrado, me convenci ainda mais de que escrever uma dissertação é assumir para si o papel do detetive.

Saí da leitura transformada. Foi um clarão, eu fiquei em choque, o livro me fez cair em um buraco e me levou diretamente para o século XIX. Tal qual o gato de Cheshire aparecendo na clareira para Alice no País das Maravilhas, que cai nesse mundo maravilhoso e turbulento, feito de portas pequenas, enigmas, lágrimas e confusão sobre a cada dia ter um tamanho diferente.

Olympia virou o quadro, a personagem amiga que me conduziu a uma pesquisa acadêmica inteira sobre as obras do Manet e as personagens femininas, de 2012 até esse ano, 2021, e olha a estranheza das coisas: é a inversão do ano 2012 em 2021. E bem, os últimos anos com certeza deixaram qualquer um doido, como o gato de Cheshire diz. Afinal, nossas terras também tem figuras como a rainha autoritária que manda os guardas passarem o dia pintando rosas, sem fazer sentido algum.

De qualquer maneira, andei pensando em gatos. Falo deles na dissertação, temos o gatinho adorável sorrindo no quadro, e o gato de Cheshire me voltou à mente numa manhã qualquer. Tem uma frase célebre dele, dizendo que não importa o caminho que se toma, importa que se saiba para onde está indo. Mas ele diz isso no meio de uma floresta cheia de placas confusas. Não há um caminho só. E, mesmo que se tenha evidências nas mãos, sonhos e se saiba para onde quer ir, a clareira ainda é incerta, e é bom deixar que o caminho revele também sua estranheza e curvas inesperadas. Virar-se e se permitir olhar o estranho, o desconhecido.

Então gosto de valorizar o insólito do dia a dia, de sonhar que houve uma mensagem cifrada enviada entre os séculos para Julie Manet me encontrar naquele dia da semana e plantar só a sementinha antecipada do que eu viria a estudar, um sussurro no tempo.

O mais curioso é que, em oito anos, eu nunca me perguntei se havia outro tema para estudar. Era esse mesmo. Já bastava como um passo para atravessar a clareira cheia de setas. Na prática, a escrita da dissertação ainda se revelou absurdamente curativa e profunda, como se minha decisão inicial já abrisse o caminho para a magia seguinte. E tudo começou quando Julie Manet, quase como uma fada com seu gato sorridente, devolveu o olhar e anunciava secretamente os mistérios das clareiras pelas quais eu enveredaria dentro dos quadros, mergulhada nesse universo por anos e anos.

Essa crônica é uma homenagem ao aniversário do Manet, dia 23 de janeiro. E mais uma coisa estranha: por conta do adiamento, estou podendo celebrar o aniversário do artista com o depósito da dissertação sobre ele na mesma semana. E ainda depositei no mesmo dia do aniversário de Edgar Allan Poe e Paul Cézanne. O século XIX em peso. Agora, o quadro é do Renoir, mas a homenagem é o prelúdio ao encontro com as obras do Manet.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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