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Staged, uma série online feita em quarentena

No ano de 2020, o mundo foi forçado ao enclausuramento em razão do coronavírus, situação que se estende por 2021. O teatro sentiu o impacto da ausência de público, ao mesmo tempo em que as artes serviram de sustento para sobreviver aos meses de isolamento. Foi nesse cenário que a série Staged surgiu, uma série sobre quarentena, no isolamento doméstico e via zoom.

Apesar dos tempos atuais, trata-se de uma série de comédia. Talvez justamente por estarmos em tempos tão bizarros, precisamos de uma dose de humor, principalmente se com ele aprendemos a verbalizar o que estamos passando. Em Staged, os atores David Tennant e Michael Sheen repetem a parceria que fizeram na tão bem-recepcionada série Good Omens (Amazon Prime), adaptação do livro de Neil Gaiman e Terry Pratchet. Mas Staged não é uma série qualquer, ela surpreende e muito no seu formato.

A série se passa, em grande parte, por uma tela de computador via zoom

A sinopse – mas há enredo em Staged?

Escrita por Simon Evans, na série temos esses dois atores famosos, que são realmente amigos, se reunindo por zoom e conversando. Mas, em vez de ser uma série só de conversas, ela tem uma história ficcional de fundo. David e Michael precisam se reunir via zoom para ensaiar o roteiro de uma peça teatral. Acompanhamos o processo, os dramas pessoais, até mesmo com um arco de crescimento dos personagens. E a grande sacada é que, muitas vezes, precisamos pensar se é real ou ficcional. A primeira temporada é fácil para o cérebro acompanhar: aceitamos que os atores interpretam a si mesmos com exageros, uma dose de realismo, e uma premissa ficcional para mover a série, que é a peça que eles ensaiam.

É na 2a temporada que a coisa fica complexa e o espectador se pega rindo com a inversão magistral do roteiro, que se retorce em si mesmo passando dos limites da metaficção e da quebra da quarta parede, porque não é um mero personagem olhando para o espectador, mas sim atores passando a ilusão de que é realidade ao mesmo tempo que assume o lado ficcional, de uma história falando sobre a própria história por meio desse mesmo formato.

Georgia Tennant e Anna Lundberg, esposas dos atores, também participam do elenco. Georgia é uma das produtoras da série

A loucura bem-vinda da 2a temporada

Atravessamos a primeira temporada acreditando que David e Michael estão ensaiando uma peça fictícia. No entanto, vem a surpresa do roteiro na segunda temporada: os dois assumem ao espectador (por meio de um programa de TV também por zoom) que a primeira temporada foi de fato uma série ficcional, que a peça era só uma premissa, e aí eles são questionados se tudo foi improviso, roteirizado, etc. A partir daí, Staged começa com a gente acompanhando David e Michael fazendo reuniões via zoom com outros atores, porque a série que eles teriam feito (Staged) foi vendida para os EUA e agora eles têm que ver atores fingindo que são eles mesmos, David e Michael. Ou seja, mais uma premissa ficcional para direcionar o roteiro.

Sentiu a confusão? Staged é uma série ousada, elevando ao quadrado todo o espelhamento de uma série ficcional dentro de outra dentro de outra, afinal o produto que recebemos é uma ficção. É uma série roteirizada que ironiza o próprio roteiro. Passamos a 2a temporada na inversão mais insana, porque quando eles começam a fazer audições com atores super conhecidos por nós, esses atores também estão atuando, criando histórias e personalidades para si mesmos, e ainda devem interpretar David e Michael como se eles não fossem reais.

Essa premissa de Staged ser adaptada para o público americano, na história, é a máxima demonstração de que a magia se perde. Porque a magia está no fato verdadeiro de que David e Michael são amigos na série originária, e o que eles fizeram tem muito de suas interações. Qualquer outro autor fingir que é um deles é destruir exatamente o encanto construído por Staged.

Staged é um looping, um multiverso teatral

Ajudou pensar que Staged é uma história dos bastidores dos bastidores dos bastidores dos bastidores (socorro). Uma série que acompanha o bastidor de uma peça, mas nos bastidores de casa, e que vira uma série ficcional sobre os dois bastidores, e que novamente vira uma série sobre os bastidores de todo esse processo de criar uma versão americana. E o que recebemos, a série Staged da qual eu falo, é o grande guarda-chuva ficcional que também tem seus bastidores como produção. É de dar um nó.

O formato traz algo muito essencial do teatro na sua simplicidade originária, com os atores criando personagens internos e vozes para eles mesmos, num tom de comédia que honra décadas de história do teatro britânico, sem grandes figurinos, só texto e atores.

O lirismo da história

Há uma beleza na vida ordinária. As conversas, na série, são espontâneas demais e trazem como temas a língua galesa, os contrastes entre um galês e um escocês, a vida em família, o isolamento, o medo de não saber como retomar a vida depois, a apatia que nos acomete na quarentena, os colapsos mentais.

Com o talento extremo de dois atores que dominam os palcos, a TV, o cinema, Staged é um deleite para quem é viciado por atores britânicos. Mas não apenas britânicos aparecem. A lista de convidados é extensa, tendo a dama Judi Dench, Samuel L. Jackson, Whoopi Goldberg, Christoph Waltz, Ewan McGregor, Phoebe-Waller Bridge, Cate Blanchett, e muitos outros.

Ao fim, Staged deixa um gostinho de quero mais quando termina, o tipo de série que nos faz esquecer o peso do isolamento. Com seu roteiro sagaz e divertido, Staged mostra que é possível contar boas histórias com pouco e expandir a ilusão ficcional como um caleidoscópio cheio de cores, em qualquer canto da casa (até na privada do banheiro, se o wifi for melhor).

Cena de Staged season 2

montagem da capa: Marina Franconeti

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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