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Os filmes que vi do My French Film Festival

Esta é uma lista de indicações dos longas e curtas-metragens que consegui assistir no My French Film Festival. O festival online de filme francês oferece, do dia 15 de janeiro a 15 de fevereiro de 2021, acesso gratuito ao acervo de dez longas-metragens e dez curtas-metragens na 11a edição do primeiro festival de cinema francófono on-line.

O festival é interativo, podendo-se assistir, dar nota e comentar as obras vistas. De acordo com a descrição do site, os filmes podem ser acessados na plataforma myFrenchFilmFestival.com no mundo inteiro, aqui. E vai estar disponível em cerca de outras sessenta plataformas parceiras, dependendo dos países, entre elas o app Apple TV, Google Play, Amazon Prime Vídeo ou ainda MUBI.

Felicidade, França, 2020: um filme on the road com leveza e algumas sutilezas, pois nada é completamente feliz como se aparenta. A garota imaginativa Tommy (Rita Merle), de 11 anos, segue os pais rebeldes entre restaurantes, estradas, um barco, o carro e a casa provisória onde a mãe trabalha como empregada, sem ter um lugar fixo, só esperando pelo dia em que finalmente vai estar na porta da escola no horário correto, um desafio para os pais. O filme tem essas variações entre os deslocamentos que a menina faz, sem ter amigos e uma casa, e a desatenção dela em relação ao que acontece a sua volta, com as visões de um astronauta que lhe aparece. Tommy sempre está entre mundos, e sua escolha é colocar o fone para vedar o barulho todo de um mundo que ela nem bem entende onde se encaixa, efeito esse que o filme brinca ao chamar atenção para o silêncio e o barulho.

Felicidade

O título também tem seu mistério, pois Tommy tem instantes de felicidade, mas o desamparo dela e de sua família é um conflito. Até que ponto eles vão continuar nessa aventura? A ironia nessa família nada convencional, quando eles brincam de refazer as cenas que vivem como se estivessem em um filme, é que nessa fabricação que em muitas famílias é falsa, entre eles há algo de verdadeiro. É um filme que se tem vontade de ver mais dessa família, do astronauta, e dessa mistura entre realidade e imaginação.

Heróis nunca morrem, 2017, França/Bélgica/Bósnia: o enredo desse filme vem de uma premissa insólita e fantástica. Joachim está andando na rua quando é abordado por um homem que reage violentamente a ele, acusando-o de ser um soldado bósnio dos anos 80. O detalhe bizarro fica a cargo de uma informação: esse soldado morreu no mesmo dia em que Joachim nasceu. Ele e a namorada partem, então, em uma jornada em que eles pretendem filmar essa redescoberta de Joachim no território da Bósnia, pelas pegadas de um morto.

Heróis nunca morrem

O filme carrega bem a melancolia e humor no seu tema, de um filme on the road sobre o medo da morte. Acompanhamos essa viagem dos dois personagens mais uma equipe pequena de filmagem à Bósnia, nas oscilações que a viagem causa. Alice, namorada de Joachim, também tem uma história e um passado com a região, pois já gravou documentário entrevistando nativos para descobrir os reflexos do genocídio na Bósnia. “Você deve parar com esse interesse pelos mortos”, chega a dizer uma das senhoras que Alice entra em contato novamente. Alice passa por esse conflito que é ver o namorado relembrando uma vida passada que, curiosamente, foi vivida no lugar em que anos atrás ela também viveu para criar um trabalho cinematográfico. Joachim acha que vai ganhar uma história: perdido, ele se encontra nesse outro que é ele, também temendo seu próprio futuro. O amor é testado e há uma cena muito bem conduzida por Adèle Haenel, em que Alice mistura a angústia no cinema e no amor, a leitura de uma cena com a leitura que ela faz da própria vida.

A questão da reencarnação é um dilema atravessando o filme, sem o objetivo de doutrinar ou remeter a uma religião, mas nos fazer acompanhar o mistério enfrentado por Joachim. O filme tem instantes de uma poesia silenciosa, uma homenagem ao cinema que se constrói nessa busca por contar uma história, busca que todos nós carregamos entre a vida e a morte.

Crianças, 2019, França: a dor da perda dos dois pais, um por doença, o outro por suicídio, é o grande corte doloroso enfrentado por Jack e Mathis. Com apenas 19 anos, Jack passa a ser tutor do irmão mais novo, e vemos os efeitos do luto na vida de uma criança e de um jovem que tenta a todo custo dar conta de uma responsabilidade, enquanto ele mesmo precisa ter espaço para crescer.

Crianças

O filme é muito sincero nos contrastes entre felicidade e tristeza, esforços de se apegar às pessoas para pertencer, os desafios de crescer e o de não mostrar vulnerabilidade. O roteiro acerta demais no ritmo de um filme que engloba as dores da vida ao mostrar esse breve recorte da vida de duas crianças crescendo, Mathis descobrindo o mundo pela fotografia, e Jack sendo forçado a crescer dolorosamente diante do futuro. O sentimento é de abandono e, curiosamente, Jack é quem sofre mais ainda o peso de precisar ser irmão, adulto, tutor, papéis confusos demais para alguém que não esperava a responsabilidade que lhe seria dada.

Lugares vazios, 2020: como seria um mundo sem seres humanos? Com ares de apocalipse, o curta explora o movimento do micro ao macro, dos espaços vazios entre os objetos até o planeta todo esvaziado, com apenas os objetos prosseguindo com suas funções. Quer dizer, nesse mundo abandonado, eles continuariam em movimento repetitivo, sem um sentido, por não terem a interação com os humanos, mas também aliando objeto à natureza: um mundo que continua a existir sem os humanos. Qual é a nossa relevância, então? Perturbador, tenso e estranho em todo o seu colorido, parece alegre e simples, mas não é.

Saturnism, 2019: o curta é um convite bizarro para o espectador adentrar na obra Saturno devorando um filho, de Goya. A construção da trilha sonora crescendo gradativamente é de deixar o espectador ansioso. Somos levados à caverna onde a divindade está mastigando uma de suas crias, e a tensão do curta nos coloca entre observadores e entre mais um filho do tempo a ser devorado. Sobre o quadro, já escrevi uma matéria aqui.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

2 comentários em “Os filmes que vi do My French Film Festival Deixe um comentário

  1. Eu tô muito triste porque só descobri o My French Film Festival ontem pelo twitter. Não consegui assistir nenhum filme :/
    Dos que você citou, o que mais me interessou foi o Heróis nunca morrem porque eu gosto dessa temática de procura e de reencarnação e tals… Mas confesso que o Felicidade me intrigou mais. Pode até ser que o tema “família caótica” seja abordado com frequência, mas pela forma como você narrou ele parece ser diferente… Como se os elementos fossem encaixados de um jeito mais profundo. Fiquei bem curiosa.

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    • oi Natália! eu chequei no site filmelier e o filme Heróis nunca morrem está no MUBI e na Amazon prime. O Felicidade (Felicità) acho que só procurando torrent, mas acho que vai ser difícil achar e ter legenda em português, quem sabe não aparece em alguma plataforma streaming

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