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Nesta noite, um bezerro nasceu

Nesta noite em que nasci, um bezerro veio à vida. Como meu amigo contou, ele entrou na vida “como um versinho de poeta”. O bezerro já era em si um ensaio de prosa poética. Ele chorava como se soubesse que o mundo era afeito aos dramas e ao peso da carne e do sofrimento. Mas ainda assim ele quis nascer.

Branquinho como um floco de neve, bezerrinho titubeou para fora da mãe, escarrado para o pasto. Precisava dar os primeiros passos sozinho. A mãe empurrou a cria com o focinho, o resto era com ele. As patas longas foram se ajeitando nos relevos da terra, pouco a pouco buscava já saber como fazer o gesto certo, independente da mãe, mas sob seus olhares.

As formigas na terra assistiam entretidas ao acontecimento, parecia corriqueiro para o mundo dos animais, mas a verdade é que o mistério logo ali, na praticidade da terra, sem criações divinas, era a própria beleza encarnada. Era, afinal, um animal nascendo.

Pequenino e forte. Apesar do mundo, um bezerro nasceu. Ele esticou as patas para se sustentar entre o céu e a terra, o sustento que seus antepassados traziam nas patas. E lá no firmamento, as estrelas o seguraram no ar, como rede brilhante para as crianças resistentes. Aquele sabia nascer.

Uma homenagem ao bezerrinho do Francisco, nascido no dia do meu aniversário, 17 de fevereiro, a magia que precisava para o dia. Tanto que virou prosa.

Fotos: Francisco França

Montagem de capa: Marina Franconeti

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e mestranda na USP em Filosofia, na área de Estética, pesquisando Manet e o feminino. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia oculta nas tintas e na prosa do mundo.

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