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Um ano de isolamento

Completamos um ano de quarentena. Uma estranheza desequilibrada, pendular, oscilante: entre estar aliviada de estar viva e sentir o desamparo num país abandonado; as tristezas e vazios, numa simples mudança de cômodo, buscando alguma ocupação e sentido dentro de casa. O peso diário da efemeridade da vida.

Escrever, estudar, ler nesse cenário me remeteu constantemente ao detalhe abaixo do quadro São Jerônimo, de Caravaggio. Aquela caveira repousando em cima dos livros, uma lembrança de que todos morremos. Em um quadro e em um cenário comum, pode ser poético, de fato todos nós morremos. Numa pandemia em que quase 3 mil estão morrendo por dia e em completo abandono do governo federal, um peso brutal, que atrapalha, produzindo sombra nas páginas, nos dias.

Detalhe de São Jerônimo, de Caravaggio

Entre esses dias de repetição, fui consultar um livro. Estava procurando uma carta de Manet, pintor que estudo, carta que li há anos, porque eu tinha a vaga lembrança de se tratar de uma situação de isolamento. Relê-la agora, em quarentena, tem seu efeito de saber exatamente como ele se sentia. Parece ter sido escrita hoje.

Foi enviada por Manet à esposa em 1870, quando ele estava em Paris ao alistar-se como tenente na guarda nacional, a cidade cercada pelos prussianos, e a família dele refugiou-se nos Pireneus. Os parisienses ficaram isolados na epidemia e na fome:

“Começamos a não aguentar mais, estamos fechados e privados de toda comunicação; pois faz mais de um mês que não temos notícias de vocês…Temos a varíola, que faz estragos, e estamos reduzidos, no momento, a 75 gramas de carne por pessoa. Tudo isto não é nada, quando se pensa no que ainda acontecerá. Demorei bastante, minha cara Suzanne, procurando sua fotografia. Encontrei enfim o álbum na mesa da sala e posso olhar às vezes seu rosto bom. Esta noite, acordei acreditando ouvir sua voz que me chamava. Gostaria que chegasse o momento de revê-la e o tempo passa para mim, muito lentamente”.

O isolamento, o preço da carne, o desamparo, refúgios, distanciamentos e a saudade, imersos em um tempo esticado dolorosamente, uma foto estranha na mesa da sala de algum mundo que se esvaiu.

Referências bibliográficas:

COURTHION, Pierre. Manet raconté par lui-même et ses amis.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

Um comentário em “Um ano de isolamento Deixe um comentário

  1. Marina, fiquei encantada com o seu texto, como sempre. A analogia que vc fez foi perfeita, adorei!
    Mais uma vez, senti muito orgulho em saber que você foi aluna do HWR e se dedicou às artes da escrita e da pintura.
    Parabéns! Texto muito rico em detalhes.

    Curtido por 1 pessoa

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