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A assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson

JACKSON, Shirley. A assombração da Casa da Colina. Tradução de Débora Landsberg. São Paulo: Suma, 2018.

O poder oculto e sedutor de um convite inesperado para uma casa isolada e peculiar. Se recebesse a proposta de se hospedar numa residência para descobrir se é mesmo uma casa mal-assombrada, você iria? O livro A assombração da Casa da Colina, publicado em 1959 pela autora norte-americana Shirley Jackson, coloca três personagens aventureiros nessa empreitada de um professor de doutorado, com a finalidade de comprovar cientificamente os fenômenos sobrenaturais de uma casa.

Eleanor, Theodora, Luke e o doutor Montague se juntam, nessa mistura entre pesquisa acadêmica e um instante de férias, para explorar a casa da família de Luke. Pitoresca, a casa perturba os sentidos, no limiar entre sua própria construção física e os sugestivos episódios. Com uma trama simples, Shirley Jackson explora os sentimentos humanos de medo e vulnerabilidade na situação extrema de um isolamento, permitindo ver o sobrenatural também pela óptica psicológica, sem deixar de colocá-lo no centro de uma trama de terror.

Foi uma leitura de encantamento com a simplicidade, elegância e equilíbrio de linguagem explorados por Jackson, essa já se tornando uma das minhas autoras favoritas. Até então eu havia apenas lido – e me afetado profundamente – o seu conto A loteria, do qual já tratei aqui em matéria, e espero agora ler Sempre vivemos no castelo (Suma) e o próximo lançamento de 2021, O homem da forca, pelo selo Alfaguara.

Novamente, a autora parece ir a fundo nas questões que permeiam o medo e a psique humana, entregando uma história envolvente. Herdeira do gótico norte-americano pelos contos de terror de Edgar Allan Poe, Shirley Jackson virou a grande referência no gênero para autores como Stephen King e Neil Gaiman.  

Na trama da Casa da Colina, como leitores nos vemos felizes, incrivelmente envolvidos com os personagens, como se fosse possível quase tocá-los, criar amizade. O espírito juvenil e a ousadia do trio em tomar como blasé a aventura de se hospedar numa casa mal-assombrada contagia o leitor, sem deixar de temer por possíveis reviravoltas.

A narrativa se concentra mais nos sentimentos de Eleanor. A Casa da Colina serve como o Éden tão prometido, a estrada final para os amantes das histórias românticas, a expectativa desesperada por ser salva da própria vida ou da angústia de ter que fazer escolhas. Os demais personagens não vivenciam a experiência do mesmo modo que Eleanor: para eles, há um fundo de piada e infantilidade nesse deboche – ou pelo menos preferem ocultar o medo e reduzir a Casa à diversão das férias. Mas, para Eleanor, aquilo tudo é mais, e seus sentimentos reprimidos tocam a superfície. Como leitores, nós entendemos Eleanor, porque compartilhamos do mesmo temor: o que está diante de nós e que não podemos ver? Qual é a minha participação nesse lugar?

A casa e a psique humana

Os terrores da Casa da Colina simbolizam perfeitamente a manifestação do inconsciente contido por tanto tempo. Dentro de uma casa, de uma situação constante, repetitiva, numa construção morta e pesada, numa vida sem interações com outras pessoas além desse grupo novo, sem uma família que dê suporte e amor, sem um sonho realizado, o espaço se torna confinamento e reflexo de suas memórias e neuroses. A manifestação sobrenatural é, portanto, até uma saída mental de desejo de rompimento com essa situação tortuosa. Que nem se ousa pronunciar.

Os sentimentos de Eleanor, no livro, são muito humanos. Podemos senti-los em certa medida, de formas distintas, e talvez seja o elemento que mais assusta do que a própria Casa da Colina: o primitivo existente no medo, nos tabus e o temor pelo olhar do outro. Por que às vezes temos birra, sem motivo algum, por pessoas? Por que queremos tanto pertencer e, quando podemos, tememos perder o que chamamos de individualidade? O que fazer quando perdemos as pessoas, situações confortáveis? O desenvolvimento desse medo, do luto, na história do livro, é um elemento tão bem desenvolvido por Shirley Jackson que terminamos a leitura pensando em nós mesmos.

Não é uma caminhada solitária a de Eleanor. Como personagem, ela não sabe que estivemos ali com ela, mas é uma caminhada dupla, dolorosa, de personagem-leitor. A solidão e o isolamento, a ilusão de que nossa vida deve servir às expectativas dos outros, tudo isso é tema recorrente na obra da autora. O conflito do eu com o coletivo, a dissolução perigosa no totalitarismo, também é parte de seu conto A loteria. Entre o eu e o outro não há uma linha branca bem demarcada, mas sim uma tensão. Certa discordância sempre vai haver, pois o maior perigo que enfrenta Eleanor é o de não conhecer a si mesma e se perder nos outros.

O contraste nesse desejo de controlar e saber como será a vida, implorar para que o outro tenha a resposta, com a Casa da Colina é interessante. Pois não importa o quanto você esconde de si mesmo ou busque controlar a vida, a zona indeterminada do estranho será imprevisível. Nenhum deles aceitou o confronto com o estranho da Casa da Colina, com o medo e o terror. E isso causou muito mais caos do que poderiam prever.

Em sua obra, Shirley Jackson nos coloca como mais um integrante na Casa da Colina, como se mentalmente pudéssemos sentir o ar frio tocar nosso inconsciente e bater na porta, anunciando que ele precisa escapar, falar, para encontrar alguma paz estranha na angústia da liberdade.

A construção da personagem Eleanor (CONTÉM SPOILERS – revelações do enredo e do final)

A experiência de Eleanor claramente é uma situação que mistura luto, culpa, abandono, sentimento de desamparo e solidão. Faz três meses que ela perdeu a mãe, morte que ela diz ser sua culpa por não ter ouvido a mãe chamá-la para lhe dar o remédio (afirma ter esquecido, o horror da falha em um único momento). Além da mãe, ela perdeu onde morava, dividia o quarto com a sobrinha bebê, na casa de uma irmã que odiava. Ela odiava também essa situação de viver totalmente à serviço dos cuidados da mãe. Eleanor sofre diversas perdas, então: a da mãe, a casa, e principalmente de sua zona de conforto. O anúncio da Casa da Colina significa mudar de vida. Mas essa promessa vem como um despertar de consciência, ela percebe, pronuncia finalmente que sente não ter vivido nada.

Repentinamente ela se vê entre novos amigos, entre o carinho e a recepção dessas pessoas, e o acolhimento em uma casa que não significa ser a de sua família, um claro contato no qual ela se apega porque não tem mais ninguém. Nem a ameaça sobrenatural parece lhe causar um medo comum diante dessa situação. É motivo de felicidade, novidade, e até um sentimento de que é especial. De que pode descobrir algo e mudar sua vida.

A Casa da Colina afeta apenas Eleanor e parece lhe chamar. Não sabemos ao fim se o riscar do giz na parede ou do sangue no quarto de Theodora foram feitos por Eleanor ou pela Casa. Elas parecem fundidas, e sua origem é o passado, a perda da mãe, esse fantasma gélido.

O desejo pela transcendência de si mesma e da própria vida é muito comum e é o que rege Eleanor na história. É dito por Theodora (não sabemos se de fato foi dito por ela) que Eleanor só vive na expectativa. Ela repete à exaustão a frase “a jornada termina no encontro dos amantes” e, de algum modo, ela parece viver à espera não apenas do amor de sua vida, mas de qualquer pessoa que lhe diga como viver. O que sonhar, o que desejar fazer, o que não deve fazer.

Aos poucos, essa neurose se torna sinônimo de autodestruição. Primeiro, começa com a raiva nutrida por Theodora. Quer sua aprovação, quer ser aceita. Comprou roupas para impressionar os outros, construir uma personalidade, mesmo que frágil, porque é uma personalidade que deseja aparentar ter somente pelas roupas. Enquanto isso, ela se incomoda com o jeito livre, espontâneo de Theodora, mesmo que ambas sejam imperfeitas. Eleanor acha que precisa rivalizar com a colega, e tem seu ego ferido quando se vê tendo que dividir as roupas com Theodora.

Quando sua visão muda diante dela, Eleanor distorce as qualidades e defeitos da amiga, tem pensamentos de ódio que até assustam o leitor. Há uma idealização de sua parte, de que a amizade que faz em duas semanas é a única coisa que terá. Eleanor coloca todas as suas expectativas naquele grupo e naquela casa, de que aquilo precisa bastar como a tão sonhada felicidade, substituindo a perda da mãe pelo ganho desses amigos. E, por se sentir perdida em relação a si mesma, não sabe dosar o próprio lugar e o outro, porque nunca teve espaço para sequer pensar em si mesma.

O fim da personagem parece ser o paradoxo criado pelo medo: ela quer pertencer a todo instante, mas não deixa de jeito nenhum se envolver com os outros, com as dores dos outros. Quando Luke está falando algo de sua vida, Eleanor nem presta atenção, pensa apenas no efeito que causa nele. Teme perder as roupas, o nome, as únicas coisas que realmente têm, já que não tem casa, família, amigos. Quer pertencer, mas teme perder a si mesma. Morre de medo de que os outros vejam seu medo e vulnerabilidade, e chega ao ponto de quase atentar contra a própria vida, fazendo com que os outros notem como se sente por dentro.

Há irresponsabilidade por parte dos outros também. Estar na Casa da Colina vira uma piada, uma diversão de verão, uma ilusão leviana alimentada pelo doutor Montague. Enquanto isso, em vez de nomearem o medo que sentem, desejam residir nas aparências. Se a Casa é realmente assombrada ou não, ela tem efeito nos outros. O livro mostra que uma experiência tem efeitos diversos em cada um.

Por isso, é impossível não sentir empatia por Eleanor nesse ponto. A Casa e o grupo são a única coisa que tem. E, por isso, o seu fim é tão conectado com a Casa. Ela deseja de todas as formas criar raízes no que for, qualquer coisa que lhe dê um chão (mesmo que seja uma casa mal-assombrada). Por ela, Eleanor, na sua frase, se deixaria ser emparedada viva pela Casa, só para poder dizer que tem algo que os outros têm. Por temer tanto se entregar à vida, ela acaba manifestando essa pulsão de morte.

O mais pesado e triste do fim do livro é que a morte de Eleanor parece se tornar insignificante no tempo e na vida daquelas pessoas do grupo. Eles seguem normalmente como se nada tivesse acontecido, enquanto Eleanor dirige para o desespero. E a Casa da Colina continua firme, a própria coluna inabalável do medo primitivo, que destroça pessoas desde sua origem. E isso faz pensar e muito: de que adiantou essas pessoas tão levianas se jogarem na aventura de viver na Casa, de experimentar o medo, e não buscar entender a si mesmos dentro dela?

Não houve o mínimo de entrega, foram para a Casa com o ar de superioridade que, muitas vezes, teve seu abalo lançado para debaixo do tapete. Para um professor de doutorado que deseja investigar os fatos, o doutor Montague se mantém na frieza distante, sem se contaminar pelo próprio objeto de estudo. Theodora e Luke também escondem suas vidas, criam uma persona, jogam com a amizade que eles têm com Eleanor. Ironicamente, a esposa arrogante do doutor, sendo a sátira à superstição, estudou mais a Casa e enfrentou mais a questão sobrenatural do que o próprio grupo, que continuou reduzindo o valor dos danos.

E mesmo Eleanor, com o seu fim trágico e que poderia ter sido evitado com mais seriedade e cuidado pelos outros, era a que mais estava tentando elaborar sua humanidade, esse eu cheio de pulsões, dúvidas, dores e sonhos. A grande questão que o livro deixa é: vale a pena continuarmos na estrada da autodestruição, apenas por um desejo de pertencimento pelo olhar do outro, uma mera projeção?

Eleanor glorificou tanto aquelas pessoas a ponto de, no desejo de conquistar a vida, abrir mão da própria existência. Entregando-se não apenas aos supostos fantasmas da Casa da Colina, mas à intensidade com que forjou o valor daqueles que a acompanhavam, não conseguiu ver que o elemento mais importante em sua vida era a própria presença.

O terror, intensificado pela Casa da Colina, revelou uma dor muito mais implícita: a de que Eleanor continuava sozinha, mesmo cercada pelo fantasma da mãe e pelos colegas. Para exercermos nossa liberdade, sempre estaremos sozinhos, em certa medida. Nessa dor, Shirley Jackson revela também outra faceta, a de que estamos sozinhos, mas que nos construímos no coletivo. Porém, o grande desafio é não pender ao isolamento, sequer à dissolução do eu no outro, pois não dá para esperar que os outros nos deem toda a direção de nossa vida.

créditos das imagens: Marina Franconeti

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

3 comentários em “A assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson Deixe um comentário

  1. Uma análise profunda e gostosa de ler, que acabou despertando a vontade de revisitar a obra da Shirley Jackson. Essa questão do olhar do outro pegou forte também quando eu lia o livro, e o fato da Eleanor ainda estar buscando sua identidade, tentando entender em qual lugar e com quais pessoas ela sentiria um pertencimento. E, no meio de tudo isso, tem a construção sutil e muito boa da atmosfera de assombração. Aquele frio na espinha que dá de vez em quando ao ler algumas páginas, mas que acontece muito por meio da imaginação.
    Não sei se vc viu a série inspirada no livro, mas eu gostei bastante por ser justamente uma inspiração, e não uma tentativa de colocar o livro integralmente na mídia audiovisual. Acho que as duas obras acabaram sendo companheiras, na minha visão. ^^

    Curtido por 1 pessoa

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