Ir para conteúdo

Beleza e terror: A história secreta, de Donna Tartt

A história secreta, de Donna Tartt

Companhia das letras, 1995, 517 páginas. Publicado em 1992.

Ler A história secreta é um grande mergulho obsessivo em uma tragédia grega situada em universidade norte-americana nos anos 80. A obra escrita por Donna Tartt nos entrega um vibrante e filosófico thriller acadêmico sobre o belo e o sublime na experiência de um grupo de alunos na faixa dos vinte anos. Em vez do clássico drogas e rock’n’roll, a autora faz descortinar o descontrole nos muros incólumes da universidade.

Richard é quem nos conduz, personagem forasteiro que adentra no Olimpo: ele é aceito para integrar um grupo de estudos de grego na universidade em que entra como bolsista. Formado por Henry, Charles, Francis, Camilla, Bunny e liderados pela figura socrática do professor Julian, Richard é engolido pelo encantamento hierárquico desse grupo de figuras idealizadas, belas, misteriosas e ricas. O que Richard aceita nesse quase pacto fáustico é abrir mão dos créditos e de cursar outras disciplinas, para se dedicar apenas ao grego e ao grupo. Infelizmente, ele aceita.

A trama narrada por Richard já se inicia com a informação de que Bunny está morto. Quem é esse garoto? Logo saberemos que Bunny faz parte desse grupo e sua morte define o destino de seus amigos. Engraçado, debochado, sem grana, um clássico bon vivant, Bunny insere Richard aos poucos no grupo, e suas interações criam situações estranhas e inesperadas.

A estética dark academia do livro. Créditos: Marina Franconeti

Richard é um jovem influenciável, gentil, observador, e pobre. Essa última informação é quase um tabu no grupo em que se insere. Uma desculpa para deboche por Bunny, motivo de silêncio para os outros. Não serem lembrados da realidade. Para os demais de seu grupo, a universidade é só um passatempo, um capricho arrogante para seus encantos pelos antigos, pelos livros. Mas para Richard é uma chance, como ele diz. De ir além da própria família que não o auxilia de forma alguma, de constituir relação além da vida morna e difícil de suas memórias.

É compreensível, então, que ele caia no canto da sereia daquele grupo. Pertencimento, a neblina doce de um idioma longínquo, de estar numa sala isolada do restante, embebecida pela promessa de alcançar o Olimpo. Aquele grupo se comporta como o grupo seleto de semideuses que convivem com os mortais, apenas tolerando-os. A sala do professor, onde ocorrem as aulas, incorpora o controle das flores, do cheiro, do chá, caminhos para o mundo das ideias. Como Julian brinca, entrar naquela sala é deixar o mundo fenomenológico do lado de fora e tocar o sublime.

O que Julian propõe não é nada inocente. Para aqueles jovens, significa ter o poder nas mãos. De pender entre o controle e o descontrole. E isso irá ocorrer como uma descida ao Inferno.

Apolo e Dionísio

O grupo tem uma obsessão pela figura de Dionísio, e a construção da autora será o de mostrar a tensão entre Apolo e Dionísio, a racionalidade e o instinto, presente em Nascimento da tragédia, de Nietzsche.

As duas divindades seriam o contraste entre o deus da beleza, da harmonia e das artes em Apolo. E o descontrole na desarmonia do deus do vinho, Dionísio. Beleza e horror entrelaçados. O livro de Donna Tartt é um exercício de reunir ambas as forças, demonstrar que o belo tem sua face de horror e morte. A exclusão, por exemplo, de Dionísio, é excluir uma face humana demais. Anular totalmente Apolo apresenta um completo desamparo da toxicidade sedutora de viver apenas regido pelos vícios.

Baco (Dionísio), de Caravaggio, 1595

O encontro tensionado entre essas duas divindades é, enfim, a própria vida. Há alguns episódios que, para o grupo, se evidenciam como uma catarse: na procura por encenar os bacanais gregos, um ritual para encontrar Dionísio, há o desejo de total entrega nessa sedução que todos temos de perder o controle das coisas, ceder ao primitivo e aos impulsos. No entanto, significa a grande descida deles para o Inferno, pois é a quebra da inocência desses jovens. Se eles desejaram tocar os céus, há uma consequência. Da mesma forma que aquele que aceita o pacto com Fausto. Ou as passagens de Dante com Virgílio pelos círculos do Inferno.

O que ocorre, porém, é que essa catarse não irá reduzir os sofrimentos, só irá aumentá-los, explodir em dores para os outros também. Esses jovens personagens, envolvidos no encantamento dos entorpecentes – uma fuga também da rigidez da geração de seus pais e a universidade – acabam encontrando a terrível verdade: as duas faces vão levá-los a encontrar a dor. E da dor e da perda ninguém escapa, porque viver já compreende uma perda.

Na ilusão de que ver Dionísio significaria perder controle da vida e, ainda assim, possuí-la, é uma reviravolta e tanto para esses jovens que negam também a vida e o mundo. No grupinho rico e escapista, nem entre eles há completa confiança. Só há segredos. Nem entre eles há entrega. E mesmo quando as máscaras começam a cair, ainda há partes cheias de mistério. Richard é o que mais sofre nisso tudo, de alguma forma. Pois ele se entrega cegamente a esse grupo. Custa e muito a enxergar.

Donna Tartt evoca Dionísio em toda a sua obra. As descrições da Natureza se relacionam diretamente com o deus do vinho, misturando-se à fantasia das festas. Mergulhamos de forma verborrágica no peso e no vício dos personagens, eu simplesmente não sei que magia é essa a que Donna Tartt conseguiu, mas ela me fez viver aquilo, e isso é sensacional. Há até mesmo o sentimento de esgotamento no fim, de se questionar com os personagens “para que tudo isso? Para que mexer com Dionísio?”.

Assistimos a derrocada desse grupo com tons de tragédia grega. O desejo de tocar “o fogo do puro ser”, como diz Julian, os leva não apenas a um mero descontrole (que imaginamos pelos banquetes regados a vinho), mas à corrupção total. Pois do bacanal não fica apenas a memória de uma lembrança boa. É o cruzar de limites pela arrogância de conquistar o absoluto.

O livro é provocante, revela uma face de estudantes elitistas, e mesmo de um esvaziamento do sentido que os antigos podem ter. Mas fica no ar também a possibilidade de um espaço de liberdade, de encontrar beleza no ato de revirar esses signos e criar um novo significado para o meio acadêmico.

Se às vezes identificamos os traços destrutivos que vemos no mundo (afinal, a academia é parte do mundo), há como encontrar beleza na simplicidade de debruçar-se em um livro e ouvir o canto de outra língua, ato esse que vai muito, muito além do que as simulações de um estilo de vida que por vezes a academia oferece. Além desse ilusionismo da inteligência e do absoluto, há o simples desejo belo e humano de abrir um livro e conversar com os mortos da nossa História.

A história secreta nos deixa intrigados até o fim, pensando se valeu a pena tudo isso. Tanta exaltação divina de colegas, professores e filósofos, enquanto isso a vida corria tão pungente quanto o peso do mundo e da natureza. O preço que todos pagam é o de viverem totalmente soltos à espera de uma salvação, de um toque divino. A morte, tão cortante, deixa suas marcas e consequências. Pois, no fim, o mundo dos fenômenos, tão negado por eles, sempre os puxa para baixo, e relembra que eles são apenas humanos com uma vida só.

Apollo e Daphne, Gian Lorenzo Bernini, 1622-1625

Os personagens e o seu desfecho (CONTÉM SPOILERS, revelações do enredo e do final)

Os personagens do livro passam mesmo dos limites. Inúmeras vezes a vontade que dá, como leitora, é a de sacudir o Richard e falar “meu filho, sai dessa”. Pois ele se insere em um grupo que não o vê, de fato, assim como ele vai tirando pouco a pouco a máscara de seus amigos. Ele chegou a suspeitar que eles haviam feito algo de errado. Mas continuou do lado deles, porque sentiu que Henry viu nele algo de especial ao lhe contar a verdade.

Richard chega a ponto de assumir problemas e riscos que não são dele, num automatismo também confortável, no desespero por aprovação e medo por exclusão. Até no final, com sua paixão idealizada por Camilla, ele sugere o absurdo de largar tudo e se casar com ela, sendo que ninguém daquele grupo faria o mesmo por ele e colocaram sob ameaça sua única chance de trabalho e carreira.

Ele também vai se desiludindo com Julian, com os amigos, a figura do mestre e os discípulos. Pois seguindo cegamente essas pessoas, ele anulou por completo sua própria vida. O encanto pelo grego e o amor pelos estudos viram outra coisa, um sinônimo para pertencer a um grupo hierárquico, uma atividade secundária que, curiosamente, perde o sentido de devoção que se tem na solidão entre obra e leitor.

Por sua vez, o sentido de dever e sacrifício dos gregos vira a própria ruína de Henry, no final do livro. Descobre-se que havia um relacionamento incestuoso entre os irmãos Charles e Camilla, para completar o envolvimento secreto de Henry com ela, as agressões de Charles à irmã. Os assassinatos do fazendeiro e de Bunny ficam sem solução. E com Francis e Richard no meio disso tudo. Quando Charles, então, invade o quarto do hotel para matar Henry, a escolha desse em se suicidar é tanto o seu gesto desencantado com o mundo, quanto o desejo de crer que seguia a civilidade grega, o dever de resolver aquilo em que ele colocou os amigos. Se o próprio Henry diz que foi matando uma pessoa que ele se descobriu vivo, foi pela morte que ele escolheu se entregar. Fica no ar se ele o faz mais por ele do que pelos amigos, porém há uma dor mascarada nisso tudo, a de que Henry se abalou demais com a frieza de Julian, que os abandona no fim do livro. Seu carinho e veneração morre nesse abandono. Henry se sente terrivelmente comum, e para alguém como ele, que gosta do controle racional até de um assassinato descontrolado, aquilo o destrói: não ser nada para Julian.

Julian é a grande decepção que Richard e os demais sentem pela figura do mestre. Ele é a gentileza e a educação usadas para manter as aparências. Pois no fundo, ele é só uma ideia: Richard só sabe de suas amizades, sucesso e reputação. É, enfim, um nome. Mas e a parte humana de Julian? Só se mostra justamente na frieza do abandono, na ausência de sentimentos. Julian é Apolo na sua frieza solar, de um deus intocável, e também desumano se escolhido como único lado da vida. Uma escultura bela e vazia.

É claro que ele também está numa situação em que seus alunos cometeram crimes sem ele saber. Não deseja entregá-los, mas com sua atitude, Julian acaba afetando totalmente a harmonia do grupo, até mais do que a morte.

No fim, Richard é obrigado a abraçar o lado racional de Apolo para não sucumbir totalmente à Dionísio. Os amigos, que tinham tanto desprezo pela universidade e viviam só pelo presente garantido pelo dinheiro que tinham, perdem a única coisa que realmente podiam dar sentido, desistem de terminar o curso e se lançam ao nada. Viram sombras do que eles eram, como se o extremo dionisíaco queimasse justamente a flama que os alimentava. Camilla e Charles se separam, ela cuida da avó e o outro entregou tudo de sua vida numa fuga. Henry e Charles escolhem Dionísio. Francis tenta se matar, mas se casa para garantir o dinheiro do avô. Camilla resta como uma incógnita, pois sofre pelo seu desfecho e sua perda, parecendo viver em suspenso. É doloroso constatar que, ao fim, na busca pelo belo estético, esses jovens perderam justamente o exercício de autonomia na própria vida.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Caderno Jota

O cinema, a vida e tudo o mais

um velho mundo

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Limonada

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Momentum Saga

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Aline Valek

Blog da escritora

na cabeceira

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Querido Clássico

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Fright Like a Girl

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Cine Varda

duas amigas apaixonadas por cinema, escrevendo sobre mulheres

Cinema na Varanda

Podcast semanal com Chico Fireman, Michel Simões e Tiago Faria

Artrianon

Arte e cultura

Rainhas Trágicas

Mulheres notáveis que fizeram História

Sopa de Letras

Literatura e outros

"Entre Aspas"

"Sempre conservei uma aspa à direita e outra à esquerda de mim". {Clarice Lispector}

Antimidia Blog

Textos sem sentido, para leituras sem atenção, direcionados às pessoas sem nada para fazer.

sigoescrevendo

Um manifesto de palavras sob a regência de cada momento.

%d blogueiros gostam disto: