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O resto das vagas

Carl Vilhelm Holsøe, Sleeping Woman

A exaustão tem sido companheira dos últimos dias. O primeiro impacto é o de afastar esse manto, tentar agarrar o movimento da produtividade, do utilitarismo. Mas então ela vira e revira, se torna macia, obriga a soltar, a exaustão áspera diz que já fiz e muito nesse instante, já escreveu uma obra, pode soltar. Para outra se espalhar viva, o tempo obriga a adormecer.

O resto das águas, que fica na areia depois de uma onda se lançar e cumprir seu movimento, é um resto fundado em descanso. A água se afunda na areia, se instala na matéria. Talvez volte na sequência da onda que arrasta consigo algumas moléculas. Mas, por um instante, a água descansa. A maciez do corpo repousante, sem mais as durezas da ansiedade, se aloja em um verso tão macio quanto areia molhada, Gal Costa, Adriana Calcanhotto, a delicadeza da música abraçando como leito, enquanto o tempo vira simples águas-vivas nadando no ar vazio.

É difícil, mais difícil do que pensei, aceitar o descanso em um mundo de ação e intenção. Até no torpor cansativo produzo palavras, olho para elas agora como quem conta conchinhas deixadas na areia. Lembro de uma frase de Virginia Woolf, de que até a escuridão é luz para as palavras. Hilda Hilst também me disse, “ah como cansa querer ser marginal todos os dias” e manda com a sua força de autora vivente na Casa do Sol, “descansem, anjos meus. Tudo vem a tempo no seu tempo. Também é bom ser simples”.

Adriana, Gal, Virginia e Hilda, amigas encontradas no silêncio do repouso, que se não fosse silêncio instaurado não teriam falado comigo, proferindo sabedoria para fazer dormir minhas palavras deitadas na cama, vidas renascidas na escuridão de olhos fechados e um quarto com um cachorro. Tudo solto, sonolento e livre.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

Um comentário em “O resto das vagas Deixe um comentário

  1. Que texto poético lindo que saiu do cansaço pós obra concluída. E a exaustão está certa ao pedir que você solte (ao menos por enquanto). Curta esse período de descanso, o quanto puder, porque é importante mesmo. ___o___

    Curtido por 1 pessoa

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