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O canto das sereias: a travessia pelo mestrado

Ainda no momento de processar o acontecimento, mas esses dias eu me tornei mestre em Filosofia. Defendi minha dissertação sobre as mulheres figuradas nas obras do pintor Édouard Manet, após nove anos convivendo com as obras desde a iniciação científica.

Ponderei muito sobre como contar algo assim, pensei em simplesmente deixar no silêncio, porque mesmo tendo escrito sobre o processo todo nos meus cadernos, eu não queria ter que retomá-los, contar novamente a história para mim mesma desse esforço descomunal que foi redigir uma dissertação, ainda mais o processo de revisão em quarentena, e todos os afetos envolvidos.

Foi uma verdadeira avalanche. De sentimentos e descobertas boas, insights em casa, nas bibliotecas, nos cafés, habitar o século XIX e ter coragem de confrontar questões pesadas no texto, como misoginia, racismo e exploração de mulheres. Atravessando a dissertação, teve eleições, quarentena, pandemia, desmonte da pesquisa acadêmica, sem bolsa, muita ansiedade, síndrome da impostora, estafa mental, terapia. Só aquele combo intenso da contemporaneidade.

Acontece que não sei ainda o quanto contarei sobre os últimos anos. Foi muito, muito pesado. E, ao mesmo tempo, cheio de tantas descobertas lindíssimas que, no fim, eu me permito a dar um ar de simbolismo para a titulação, de quem atravessou um oceano inteiro, de muita elaboração de mim mesma pela escrita, de estudar a questão do olhar e da percepção e também me voltar ao próprio modo com que eu via o mundo, de me fazer nascer artista, de falar em filosofia e por meio da filosofia. Veja, vai muito além de um título.

Quando fui convocada pelo quadro Olympia, em 2012, a repensar o espaço da mulher no século XIX, eu não esperava que a viagem faria outras coisas atravessarem a questão central sobre gênero, o esforço de criar minha própria voz numa área com tão poucas mulheres, de enfrentar a síndrome da impostora que nos acomete e massacra, principalmente mulheres, em qualquer área. E que eu precisaria olhar para os meus medos em relação à academia, a não entender ou não saber tudo. No fim, eu tive que deixar os temas que estudei e abordei, sobre a obra de Manet, ingressarem na minha própria vida.

As pessoas falam aos montes como é escrever uma obra de ficção, dão mil conselhos, mas quando se trata de uma dissertação ou tese, poucos falam sobre o quanto uma pesquisa pode nos deixar vulneráveis, desdobrar questões, exigir que você se transforme com aquilo que escreve, fazer valer o discurso que realmente ressoa para você. Só quando entreguei a dissertação e estava me preparando para a defesa é que vi o quanto vamos nos tornando tão misturadas com a própria obra que, talvez, uma dissertação e uma tese não sejam tão diferentes assim de uma obra artística. O mais irônico foi falar tanto de personagens confrontando a academia, o espectador, que eu também precisei me tornar um pouco Olympia ou a grisette em O almoço na relva, assumir o confronto.

Toda a minha experiência se mobilizou como expressão, o que eu percebia, pensava e experimentara no mestrado eram fatores tão importantes quanto as referências bibliográficas. Acho importante dizer isso. Aceitar o desafio de uma pesquisa acadêmica não é algo fácil e é tão transformadora quanto a ficção para uma autora de romances, de viagens, de guerra, de poesia. Tratar a pesquisa como um ser vivo autônomo, que impõe a própria linguagem, e que é uma sobrevivente em tempos como esse, de pandemia e desmonte da educação.

E tudo sempre me leva, mais uma vez, para as obras do Manet. Estudei mulheres que confrontaram, pela frontalidade da tela e da obra, os espectadores, na maioria homens entre o público e os críticos. E, com elas, um artista que foi inúmeras vezes criticado em seu tempo por propor uma obra que se distanciava do ilusionismo, das narrativas mitológicas, da noção de uma obra acabada. Também tive que aprender a identificar ilusionismos, idealizações, aceitar a beleza da vida ordinária, e de que nem uma dissertação será uma obra acabada.

Aprendi muitas coisas com Manet e as personagens femininas. Primeiro, o trabalho de adentrar no escritório para escrever era como o ato de adentrar no ateliê, como Manet adentrava: perseverar na angústia e na dúvida, na coragem de toda manhã, como disse Mallarmé sobre Manet, olhar a tela em branco como se nunca tivesse pintado antes. Uma grandiosa educação do olhar. Mas, para promover isso, pesquisadora e pesquisador acabam por ter que, primeiro, passar por esse aprendizado inúmeras vezes. E é solitário. A solidão da escrita pode ser difícil, dolorosa, no limite de um enlouquecimento, “só eu vejo isso?”, porém ela é necessária para inaugurar iluminações.

Segundo, especificamente com Manet e o problema que ele também vivenciava com a academia, foi aprender com as desilusões, reduzir a intensificação da eloquência e grandiosidade da academia. Retirar os tons rebuscados, para deixar emergir a presença, a delicadeza do silêncio.

De minha parte, Mallarmé ressoou demais nos versos de Paul McCartney que incluí como a epígrafe da dissertação, “Pegue esses olhos fundos e aprenda a ver”, de Blackbird. Um renascimento pelo olhar da obra e das personagens femininas que confrontam o espectador.

O maior presente que minha dissertação me deu foi todo o ensinamento honesto sobre o valor do não-saber, da presença e do silêncio, só aí a escrita é fecunda: quando nos desarmamos face a obra e com ela. Pois sempre, no fim do dia, eram aquelas mulheres, do quadro e da dissertação, que me olhavam. Eu deveria ser tão desafiada quanto o espectador, pois só assim se vive realmente o poder de vulnerabilidade em que uma obra nos coloca: saber ver o outro.

E tudo isso me leva ao início. O primeiro texto de filosofia que eu li, aos 16 anos no grupo de estudos do colégio, era um capítulo de Jeanne Marie Gagnebin, do livro Lembrar, escrever, esquecer. Tratava-se sobre o sentido da passagem de Odisseia, em que, para não morrer atacado pelas sereias, que não tinham caudas de peixe, mas sim eram animais alados, Ulisses se prendeu ao mastro do navio. Permanecia vivo e poderia apreciar o canto.

Se por um lado é necessário que saibamos delimitar quando se inicia o perigo e conceder poder à razão, quando essa estiver à serviço de um cuidado saudável consigo mesmo, por outro é…extremamente difícil, inumanamente impossível controlar e conhecer esse limite a todo instante. Eu entendo Ulisses, ele precisava sobreviver aos desafios para voltar ao seu lar, mas na vida, muito além de um sentido de epopeia, viver não consiste apenas em ultrapassar obstáculos, conquistar louros e títulos.

Isso leva a outro ponto também: a ameaça da loucura estar no canto de personagens femininas. O descontrole ser associado a elas. De nada me serviu a ilusão de racionalidade: aparentar perfeição, rendimento, frieza e sobriedade masculinas, marcas do patriarcado e do capitalismo, foram exatamente as fontes de ansiedade e insegurança. Que, no fim, são completamente isso, ilusórias. Razão é atravessada pelas emoções, quase dois cântaros com a água se alimentando uma da outra.

Por isso, gosto de interpretar essa passagem como a beleza entre o sonho desvairado e a materialidade do mastro que nos dá gravidade, humanidade por sermos matéria. E quanto a ilusão da racionalidade e do rigor, creio que ao fim o que mais funcionou na travessia dessa dissertação e do mestrado não foi me prender ao mastro do navio e apenas ouvir o que outros autores tinham a dizer. Tampouco o de ignorar o que o medo trazia à tona pelo oceano ou pelos ares: foi ter coragem de olhar nos olhos do não-saber e da dúvida. Olhar nos olhos das personagens, das sereias, da esfinge, da medusa. Deixar que cantassem.

Pois escrever significa atravessar limites, esbarrar em medos e no ego, vai muito além de se instalar em um mastro. Talvez o melhor que eu tenha feito foi, em alguns instantes, me desprender dele, assumir meu nome marítimo e navegar (ou voar) com as sereias, pois sentir e pensar é a parte turbulenta de toda travessia, para casa e para o mundo.

Imagem de capa: Philosophia, Albrecht Dürer, 1502. Montagem: Marina Franconeti

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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