Ir para conteúdo

Cruella encanta com um espetáculo pelo figurino

O filme live-action Cruella estreou no Disney+ e, em pouco tempo, já virou um queridinho entre os projetos da Disney. Divertido e ácido, o filme ganha muitos pontos principalmente pelo figurino criado na tela. Com clara inspiração em Diabo veste Prada, Cruella ascende por brincar com a criatividade entre botas e vestidos.

Na história, Cruella (Emma Stone) é uma aspirante à estilista que perde a mãe em uma festa organizada pela Baronesa von Hellman (Emma Thompson), a estilista mais importante de Londres. Cruella cresce, ganha as ruas como ladra, produzindo disfarces brilhantes com sua mente genial para a moda, mas o sonho de ter uma marca própria continua guardado. E então ela começa a trabalhar com a Baronesa, essa grande figura vilanesca e criativa.

O filme tem um ritmo excelente e divertido, marcado por uma trilha sonora bem conhecida do público, combinando clássicos, e lembrando a energia de Aves de rapina e Oito mulheres e um segredo, mas sem soar como uma mera cópia do gênero. Emma Stone está brilhante como Cruella, no tom certo entre genialidade e loucura, com uma personagem que ganha outras faces além da figura diabólica do desenho animado 101 Dálmatas: ela é uma grande homenagem à beleza e à construção icônica de Cruella por Glenn Close, em seus casacos de pele e o famoso cabelo preto e branco.

Emma Stone, Cruella na animação, e Glenn Close

Emma Thompson, assumindo o papel da Baronesa, está igualmente incrível, o que nunca surpreende, já que a atriz tem uma veia cômica perfeita no cinema. Ela é terrivelmente fresca, cruel, irônica e uma chefe nada igualitária. Com a Baronesa e Cruella temos um ótimo filme com a vilania como protagonista.

Emma Thompson como a Baronesa von Hellman

A grande estrela do filme é a moda

Para afirmar o encantamento de Cruella pela indústria da moda, o filme reforça o figurino. Foram mais de 47 looks que Emma Stone usou, um mais escandaloso que o outro. Torna-se uma grande batalha por meio de vestidos e alta costura, entre a tradicional linha da Baronesa, e a veia punk e transgressora dos anos 70 que Cruella evoca, relembrando os looks andróginos e brilhantes que remetem à David Bowie.

A figurinista Jenny Beavan, com 10 indicações ao Oscar e duas vitórias por  Mad Max: Fury Road  e A Room with a View, de 1986, deu à Cruella o tom de femme fatale junto ao punk. A Baronesa, por sua vez, tem Dior como grande inspiração: apesar de bem vestida, “nos anos 70 ela é um pouco antiquada”, explica Beavan. 

No filme, vemos Cruella buscando peças em brechós, algo que a figurinista também fez para criar os looks da personagem. “Eu pensei que [usar roupas encontradas] seria parte de sua ética”, diz Beavan. Inspirado no vestido “Tree” de Charles James, a torção cuidadosa no corpete “demorou um pouco, acredite”.

Vestido Tree, de Charles James
O vestido de Cruella inspirado em Tree, de Charles James. Créditos: Laurie Sparham/Disney

Quando Cruella é Estella, a simples aspirante à estilista, ela tem uma inspiração levemente punk, com boina, macacão, calça, jaqueta e coturno pretos. Mas é por Cruella que Estella assume o seu estilo, evocando o exagero, as ombreiras, as jaquetas militares, tules e caudas gigantescas.

Inúmeras vezes, o look preto e branco com couro, bengala e botas me lembrou a marca registrada de Karl Lagerfeld. Além dele, o que foi inspiração segundo a designer de produção Fiona Crombie, do excelente filme A favorita, Cruella situa-se no contexto decadente e da pré-gentrificação de Notting Hill e na nascente cena punk de Londres. O diretor do filme Craig Gillespie, de Eu, Tonya, e a figurinista Jenny Beavan citam a icônica designer Vivienne Westwood, o que já é o suficiente para mostrar a fonte direta de Cruella.

A irreverência de Vivienne Westwood
As luvas de couro e o contraste entre preto e branco de Karl Lagerfeld
Cruella reunindo as referências

A paleta que predomina tem vermelho, preto, branco e cinza. A vitrine organizada por Estella no início do filme culmina no show e na assinatura em neon no prédio. Tudo é mancha, tinta lança à tela, graffiti e arte vanguardista. Entre arte urbana e Pollock, numa linha contrária ao clássico sóbrio da Baronesa. O que é uma escolha sagaz, já que Cruella se tornou icônica por gostar até demais das manchas preto e branca dos cãezinhos dálmatas.

Para a batalha entre figurinos armada pelo filme, a figurinista relata alguns curiosos gastos para compor tudo: 5.070 pétalas e 393 metros de organza no vestido que cobre o carro da Baronesa; os 33 looks da personagem de Emma Thompson; coleiras de cachorro feitas sob medida fornecidas por um joalheiro para os membros caninos do elenco do filme; e 200 latas de tinta spray branca usadas nas perucas.

Além disso, quanto ao roteiro, o que eu mais gostei no filme é que, mesmo tendo como tema a moda, não se baseia apenas no aspecto do belo, de que mulheres quando fazem parte do universo da moda devem ser belas e aprovadas apenas tendo isso como critério. Em Cruella, a beleza reside na expressão. Em nenhum momento as duas personagens duelam tendo como princípio diminuir a outra enquanto mulher, ou repetem crenças em torno do feminino. São só duas mulheres geniais expressando todo um universo de conhecimentos sobre moda, exprimindo suas personalidades e ideias.

Em Cruella, é o figurino quem conta a história. Na dualidade da personagem, entre Cruella e Estella, vemos ascender a personalidade vilanesca, com o vestido vermelho diabólico pronto para atacar seu alvo. O vermelho em cascata em cima do carro da Baronesa, junto com a jaqueta militar, é a transição da tradicional linha da Baronesa para o punk, as invasões de motos e caminhões são Cruella invadindo os espaços elitistas com sua narrativa brusca e genial. Quando Estella assume mais uma vez, é para trazer Cruella de vez, lançando seus tons no universo da moda.

créditos: Laurie Sparham/Disney

Referências bibliográficas

Emma Stone Has More than 45 Costumes in Cruella – Instyle

Creating Cruella: Behind the seams of the high-fashion film’s punk rock look

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Caderno Jota

O cinema, a vida e tudo o mais

um velho mundo

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Limonada

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Momentum Saga

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Aline Valek

Blog da escritora

na cabeceira

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Querido Clássico

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Fright Like a Girl

A palavra escrita brilha como uma janela acesa no caos. E, então, ela alça voo e dança no ar.

Cine Varda

duas amigas apaixonadas por cinema, escrevendo sobre mulheres

Cinema na Varanda

Podcast semanal com Chico Fireman, Michel Simões e Tiago Faria

Artrianon

Arte e cultura

Rainhas Trágicas

Mulheres notáveis que fizeram História

Sopa de Letras

Literatura e outros

"Entre Aspas"

"Sempre conservei uma aspa à direita e outra à esquerda de mim". {Clarice Lispector}

Antimidia Blog

Textos sem sentido, para leituras sem atenção, direcionados às pessoas sem nada para fazer.

sigoescrevendo

Um manifesto de palavras sob a regência de cada momento.

%d blogueiros gostam disto: