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Memórias incendiárias, burnout: A escrita vem do fogo

Tenho uma história real e antiga, que venho elaborando desde 2019, para contar. Redigi mil vezes os eventos nos diários, esperando por esse instante para organizar tudo e contar finalmente a um leitor. Daquelas que carregam o insólito encantador e estranho das histórias fantásticas de um conto de Jorge Luis Borges, ou dos contos de fadas milenares, com dragões rasgando os céus. Mas acontecendo aqui.

Há uma estranha circularidade envolvendo os dias 15 e 16 de abril, 29 e 30 de maio na minha vida. Só notei isso escrevendo nos diários. Não pretendo fazer nenhuma prova metafísica da existência de Deus, dos dragões ou de qualquer mistério e apego a uma só religião ou divindade. A magia já reside nos símbolos.

Tudo começou com uma estátua da Notre Dame. Na minha primeira visita à catedral – o primeiro passeio que realmente fiz quando estudei em Paris – eu a circulei a pé, olhando para cima. Encantada por finalmente ver aquela catedral que eu só imaginava pelo desenho O corcunda de Notre Dame na infância, envolta pela magia da cigana Esmeralda e da bondade do Quasímodo, eu me instalei por debaixo da catedral investigando suas estátuas. Foi então que tive um instante do qual eu realmente não esqueço: por uma ilusão óptica, ou como prefiro achar, pela magia antiga vinda das pedras, uma das estátuas se mexeu. A gárgula conseguiu ganhar vida e essa vida teve uma impressão tão forte em mim que ela se estendeu no tempo. Eu vivera a experiência estética da qual sempre lia a respeito, mas quando acontece, aquilo marca os olhos e o corpo. Tal qual o gesto que esculpiu aquela pedra.

A visão que eu tive das gárgulas. créditos: Marina Franconeti

Anos depois, no dia 15 de abril de 2019, eu estava instalada em um café, escrevendo minha dissertação – situada em Paris – e falando sobre esculturas, ruínas e a cor vermelha, esse tom de sangue que dá vida ao corpo pintado na tela, e dos olhos que dão vida ao corpo inerte. Eu estava literalmente escrevendo sobre como os olhos dão vida à pedra, quando recebi a notícia de que a Notre Dame estava em chamas. Foram tantas, mas tantas mensagens recebidas na hora que eu tive uma das minhas primeiras crises de ansiedade. Eu assistia o vídeo da catedral pegando fogo, chorava no café e era como se estivesse vendo um ser morrendo e agonizando durante horas. Ela foi a última visão que tive de Paris, a exata cidade dos meus sonhos desde a infância, de quem fui me despedir antes de entrar no avião, a primeira imagem que tive daquele sonho absurdo, em um mundo em que ainda era possível ser bolsista e estudar em outro país. Para uma estudante de Estética, ver uma obra de arte possivelmente virando ruínas foi realmente traumatizante.

Demorei para entender que a Notre Dame em chamas foi o estopim para o que viria a seguir. Não tem jeito, sempre fui muito ligada às obras de arte, desde os 8 anos, quando esperava minha mãe me buscar no saguão da escola e tinha uma singela gravura de A Noite Estrelada, do Van Gogh, diante de mim. Ou as aulas de arte, que eu amava mais do que tudo, já nessa idade. Ver a Notre Dame em chamas foi o
sentimento de ver o mundo em colapso, de ser jovem e, diferente dos enredos que
nos contam, não poder salvar o mundo.

Felizmente, a Notre Dame é mais forte do que imaginávamos, e mais uma vez em sua história, ela sobreviveu. Aos bombardeios, aos conflitos históricos, aos incêndios, e ainda está aí, à espera de sua reabertura.

Minha primeira e a última visão da Notre Dame. créditos: Marina Franconeti

Depois desse 15 de abril, eu fiquei um tanto estranha. Estava tentando dar conta de mestrado e licenciatura ao mesmo tempo, fazendo estágio com crianças na mesma escola em que estudei – e vendo a magia dos pequenos aprendendo a ler. Eu segui normalmente, como se não tivesse passado por uma situação de estresse. Mas demorei para notar que, a partir daquele dia, eu parei de escrever. Simplesmente não conseguia abrir mais o documento com a parte sobre o vermelho, as ruínas.

Um mês e meio depois, eu escrevia sobre a morte de Joana D’Arc, a padroeira da França, com uma estátua no interior da Notre Dame. O dia de sua morte, quando condenada à fogueira, foi no dia 30 de maio de 1431. No dia 29, às 23h30 para ser exata, eu estava escrevendo sobre um quadro com Joana D’Arc, essa matéria aqui. Eu não estava bem. Escrevia esgotada, cumprindo as tarefas automaticamente, ficava preocupada com as horas que precisava cumprir do estágio, as leituras para a dissertação.

Pois eu estava escrevendo sobre Joana D’Arc, e ao fundo do quadro a catedral figurada tem um nome curioso: Catedral de Notre Dame de Reims. Pronto. Eu não percebi tanto naquela hora, mas foi como se tivesse agitado o fogo: eu me coloquei a duvidar sobre tudo, a lembrar da catedral, se Deus existia (só questão leve), quando eu tive realmente o sintoma do esgotamento mental: como um tentáculo gelado descendo pelos dois braços, eu senti toda a minha energia se esvair.

O corpo inteiro ficou frio, eu não conseguia erguer os braços direito, precisei desligar tudo e deitar. Veja, é muito irônico estar escrevendo um texto sobre uma santa que foi queimada na fogueira e ter uma queima total, burnout, e o efeito ser um corpo gelado, inerte que nem pedra.

Minha mãe, e aí entra a sabedoria, me mandou descansar por cinco dias e parar tudo. Acontece que ninguém sabe quando vai ocorrer um esgotamento mental e quando ele cessa. É uma força invisível, apesar de seus sinais serem claros. Escolho até falar sobre isso, dado que muitos estão esgotados em quarentena ou trabalhando loucamente. Os cinco dias de descanso viraram meses. Eu nem lembro a quantidade do tempo, mas ele se tornou arrastado.

Uma amiga minha também teve estafa e relatou o mesmo, meses de recuperação. Iniciei terapia, e veio uma avalanche depois da estafa. Comecei a ter hipersensibilidade à luz, aos sons, ouvia demais sons baixinhos, irritabilidade, tive insônia e ansiedade noturna. Foram meses conturbados, uma pesquisa pausada no meio disso tudo, e fui forçada a parar.

Não apenas o meio acadêmico, mas sobretudo o sistema capitalista em que nos inserimos, cobra produtividade. Não podemos parar. Até nosso lazer é cronometrado para render, para nos situar entre o que os outros estão lendo e assistindo. Parar e se entregar ao vazio foi a coisa mais desafiadora da minha vida, para alguém que sempre escreveu e estudou, era angustiante quebrar as crenças mentais de que eu só existia se eu fizesse algo com finalidade. Eu me vi forçada a meditar todo dia e a registrar tudo em um diário, a me apegar aos desenhos e às aquarelas, a rever não só meus hábitos, mas todos os anos de estudos e trabalho desde o vestibular. Realmente não vivemos em um sistema saudável para um corpo humano.

E o que me sustentou foi, como sempre, a arte. Tudo que era da ordem do manual, da contemplação, da lentidão, era um chão resistente onde pisar, por onde ir. O descanso também era uma forma de me permitir pensar e não pensar, sendo esse último o elemento mais importante para promover movimento. Pois as ideias, a escrita continuavam a acontecer dentro de mim, mesmo que em silêncio.

Bom, eu falei de uma conexão entre os dias 15 de abril, 29 e 30 de maio. Curiosamente, em meio a isso tudo, eu brinco que tenho uma protetora em forma de escritora e poeta: Patti Smith, a santa padroeira dos artistas e estudantes desesperados. Um ano antes da estafa mental, em 2018, eu li o primeiro livro dela, Só garotos. E terminei dia 29 de maio, reli em 2020 e terminei na mesma data.

E aí vem o fato mais estranho: tem uma passagem no livro em que Patti conta sobre a experiência de Robert Mapplethorpe com ácido. Nesse instante, ele começou a desenhar e registrou uma data, dia 30 de maio, que em outro livro, O ano do macaco, Patti menciona como especial por ser o dia da morte de Joana D’Arc:

“Anotou as palavras que havia visto e sentiu a gravidade do que havia escrito: Destruição do universo, 30 de maio de 1967. Está bom, pensou, algo pesaroso. Pois ninguém veria o que ele havia visto, ninguém entenderia (…) Ele não tinha certeza se era uma pessoa boa ou não. Se era altruísta. Se era demoníaco. Mas de uma coisa tinha certeza. Era um artista. E jamais pediria desculpas por isso (…) Sentiu-se no controle da situação. Não seria mais um escravo” (SMITH, 2010, p.29)

Essa passagem se tornou muito significativa para mim. Aceitar-se como artista e viver muito além da servidão, essa sim é a verdadeira rebeldia. Só garotos me ajudou, mas no dia seguinte à estafa mental, em 30 de maio de 2019, bem no dia de Joana D’Arc, chegou em casa o livro Linha M, da Patti Smith. Encomendei dias antes, e nem sabia dessas datas, das conexões. Foi Patti, quase atuando como a própria Joana D’Arc, que sustentou meus dias de esgotamento.

Linha M, de Patti Smith

No livro, ela diz que arte é condução. Isto é, fogo e corrente elétrica nos dão o choque, lançam a fagulha. Do mesmo modo que pode destruir, pode ser o início da realização de um fogo vital. E escrevo esse texto aqui no escuro, pois a luz acabou nos primeiros parágrafos, e como relembrou minha amiga, foi do raio e do escuro que se levantou a criatura de Victor Frankenstein. Os textos não são assim, nascidos no escuro, fagulhas de eletricidade?

Agora, o mais incrível dessas coincidências, é que em 2019 Patti Smith veio ao Brasil. E eu pude ir vê-la, só a alguns metros de mim, em novembro. Uma figura xamânica, os cabelos brancos em tranças, sorridente, envolta em luz brilhante. Foi justamente entre novembro e dezembro de 2019, após ver Patti Smith e atravessar os meses difíceis da estafa, eu comecei a melhorar de verdade, podia retomar o outro ritmo das coisas.

Foi assim que o incêndio da Notre Dame e a presença de Joana D’Arc foram parte do fogo que consumiu e depois impulsionou minha elaboração. É a grande simbologia em torno do meu instante de escrita no mestrado, e que eu sentia necessidade de contar, jogar no mundo, não sei para quem. Talvez seja para dizer que, se você estiver esgotado, por favor, cuide de seu corpo, preste atenção a ele, o corpo sempre fala.

O mais estranho é que houve contratempos com a defesa do mestrado, e só na véspera da data marcada percebi que lá estava Notre Dame novamente no horizonte: na véspera da minha apresentação, era o dia em que ela pegou fogo. Dois anos depois, no dia 16 de abril desse ano caótico de 2021, eu realmente dava um passo consciente de que a circularidade silenciosa do fogo me envolvia para que eu aprendesse a agir por ele. Em um mundo onde museus, florestas, bruxas, santas e catedrais são incendiadas, temos que aprender a ser fogo do tipo combatente.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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