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Ser Millennial, nostalgia e sopros da adolescência

Ontem descobri algo terrível: não sou mais jovem. No twitter viralizou a pergunta, do que a geração Z tem vergonha alheia (o famoso “cringe”) a partir do comportamento da geração de millennials. O video do perfil Aff The Hype, logo abaixo, ironizou as manias da geração millennial e basicamente um monte de gente na internet descobriu que está mais perto dos 30 do que dos 18 anos, estamos todos nos recuperando.

Para quem está perdido nas terminologias, a geração Z nasceu entre 1996 e 2012, enquanto os millennials, entre 1980 a 1995.

Segundo o conteúdo que viralizou, millennials são fãs da Disney, do Harry Potter, de Friends, usam calça skinny com sapatilha, unha francesinha, hashtag nas fotos, riem com “rs”, usam emoji, gostam de café e de café da manhã (algo…normal?), falam em boleto (a dura realidade do adulto traumatizado que paga contas), e não entende muito bem o tik tok.

Depois da verdade: o que significa tudo isso?

Esta “rivalidade” entre as duas gerações é antiga: toda geração gosta de se opor ao que veio antes dela. Você já ironizou seu pai, sua mãe, seus avós, pelos gostos musicais, pelas roupas, e pelas ideologias políticas. Mas chega um dia em que você vira o nostálgico, e creio que nem a geração Z vai fugir disso.

A oposição geracional também tem inúmeras questões políticas, muito mais complexas. Mas, de uma forma bem reduzida, ser millennial é fazer parte de uma geração que encontrou a transição entre os dois mundos cindidos pela tecnologia, e que também viu crises econômicas, ambientais e sociais ascendendo. Se hoje a geração Z consegue dialogar sobre inúmeras pautas sociais já muito jovens, foi uma questão conquistada por muitos anos de tentativas e, principalmente, de desencanto de millennials com a geração de seus pais, os baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964) e a geração X (nascidos entre 1960 e 1980). O desencanto, na verdade, é mais profundo com o estilo de vida e o neoliberalismo: a ideia de estabilidade com emprego, casamento e dinheiro começam a não fazer sentido.

Então é bom lembrar que esses termos não são meros nomes trocados em empresas para distinguir qualidades e defeitos de gerações de funcionários, mas algo com um fundo muito político.

Aí vem a nostalgia

Eu nasci em 1993, sou millennial, mas toda a minha adolescência foi entre os anos 2004 e 2010, então fui mais cria do pop do que do rock, e vi a transformação tecnológica dos computadores, celulares, ipod para iphone, e ainda tive anos indo à locadora, do vhs ao dvd e ao torrent, para passar às plataformas streamings. Até poster de filme a locadora guardava pra mim.

Toda essa conversa sobre gerações já começou há alguns meses, talvez um efeito da quarentena que nos obriga a rememorar. Foi quando a Taylor Swift relançou Love Story, clássico que eu ouvia aos 15 anos e lançado em 2008. Nas últimas semanas, o clipe da música My Happy Ending da Avril Lavigne completou 17 anos, e Perfect, de Simple Plan, 20 anos. Toda a minha adolescência com a mistura de pop e música emo veio à tona.

Depois da Taylor Swift, quando percebi, passei um domingo inteiro com uma amiga montando uma playlist gigantesca, relembrando todas as músicas que ouvíamos na infância e na adolescência: de Rouge e Sandy & Junior até High School Musical, Christina Aguilera, Britney Spears, Miley Cyrus, Evanescence, Hillary Duff, e um monte de músicas que sequer lembrava da existência.

Com as músicas, anos inteiros voltaram: o tênis all star, moletom, as roupas coloridas, os erros bregas e bem-vindos, o fichário rosa da hello kitty, o armário da escola – que não era como os que eu via nos filmes americanos -, o uniforme, o intervalo.

Ser adolescente hoje tem uma realidade diferente de onze, doze anos atrás. Impossível não falar das transições da tecnologia e como já foi diferente: conseguir baixar uma música depois de dias, montar uma playlist no CD, copiar para os amigos, e para outros significava usar o last fm. Ver clipes na MTV porque o YouTube ainda travava muito e estava só começando.

Lembro até hoje que o primeiro vídeo que eu vi no YouTube foi a cena da novela Alma Gêmea em que a Débora (Ana Lúcia Torre) falava a famosa frase “ah! finalmente os refrescos” e morria envenenada por engano. Travou tanto que deve ter durado três vezes o tempo da cena na TV.

Na mesma semana, aqui no blog, recebi um comentário sobre a matéria que eu escrevi em 2014, de um adolescente (olha só, da geração Z) dizendo que havia lido meu texto sobre a adolescência nas primeiras músicas da Lorde, e que eu havia transmitido exatamente o que significava essa fase. Isso me fez pensar em duas coisas: no quanto a adolescência tem sua constante. E que o tempo passou tanto que agora a Lorde saiu do melodrama e voltou com música solar. Já fui do tempo em que a Lorde era triste.

Os significados da adolescência

Mesmo que cada geração tenha suas marcas temporais e políticas, para muitos a adolescência foi e ainda é um período de ferida aberta, a mistura de ganhos e perdas, exposições, conquistas, sonhos doces, e desamparo, uma combinação paradoxal e dolorida. Não é uma fase para a qual eu e muitos desejariam voltar. Mas se tem uma coisa que encapsulou alguma inocência nessa fase conturbada foi experimentar pela música, pela moda e pelo mundo trazido pela tecnologia. E por acaso eu vou julgar o jovem fazendo coreografia de tik tok, se eu fazia o mesmo na escola com High School Musical? Não mesmo.

Então não tem jeito, não sou jovem porque escuto Blackpink e Olivia Rodrigo. Quando Olivia Rodrigo lançou seu álbum Sour há poucas semanas, falaram que ela era da geração pós-Lorde. Aí veio o primeiro baque.

Mas também, quem eu quero enganar? Precisei investir numa cadeira ergonômica porque vivo com dor na coluna, a coluna da própria millennial cansada do trabalho e das expectativas do mundo.

Então fiquei pensando. Tudo isso é um sério problema com a velhice (que não é ruim). E se ao fim estamos descobrindo que a vida adulta e o mundo são absurdos? Anos de terapia, descobrindo as estruturas que nos limitam e nos adoecem, obrigatoriedades criadas em torno do que é infância, do que é adolescência. Para onde vai todo o universo que antes era extremamente comum para nós, quando viramos adolescentes e depois adultos?

Brincar de dança da cadeira, ouvir Rouge, treinar a coreografia no recreio, levar lanchinho para dividir com os amigos, compartilhar o fone de ouvido entre as aulas, enviar bilhetinho, pintar com lápis de cor, passar sombra azul, tentar imitar o estilo da Avril Lavigne, assistir desenho animado, carregar fichário e livro da escola no metrô…para onde foi tudo isso?

Talvez o grande problema comum a todas as gerações seja a exata pressão de parecer que o tempo não passa, ou que não sabemos lidar com ele nem com a memória. A vida adulta é uma tentativa atrapalhada de fingir que não se é mais criança nem adolescente, fingindo que estamos todos bem enfrentando as rupturas e os “ritos de passagem”, para descobrir num belo dia que se precisa acolher as duas fases como passado, que não há vergonha alguma em carregá-las como história.

Então termino com um autor que é o clássico para pessoas de todas as idades: C.S.Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia. A Claudia Fusco, com quem tive aulas sobre Guillermo Del Toro no MIS, em sua conta no instagram, menciona uma passagem maravilhosa de Lewis, e com a qual eu tenho um pontinho em comum: há pouco tempo, com todo esse mundo em colapso, voltei a ler contos de fadas. A escrever contos de fadas. A deixar que a essência mágica da narrativa antiga voltasse ao meu mundo. A rever séries com crianças sonhadoras, como Anne with an E e Stranger Things. E Lewis diz o seguinte:

“Preocupar-se em ser adulto ou não, admirar o adulto por ser adulto, corar de vergonha diante da insinuação de que se é infantil: esses são sinais característicos da infância e da adolescência. […] Quando eu tinha dez anos, eu lia contos de fadas escondido e ficava envergonhado quando me pilhavam. Hoje em dia, com cinqüenta anos, leio-os abertamente. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino, inclusive o medo de ser infantil e o desejo de ser muito adulto

“Hoje gosto de vinho branco alemão, coisa de que eu tenho certeza de que não gostaria quando criança; mas não deixei de gostar de limonada. Chamo esse processo de crescimento ou desenvolvimento, porque ele me enriqueceu: se antes eu tinha um único prazer, agora tenho dois.”

Como cantava a Hannah Montana na abertura que eu assistia sempre às 18h no Disney Channel, na mesma época em que eu lia para as aulas de filosofia Entre o passado e o futuro, da Hannah Arendt, você tem o melhor dos dois mundos. Nada como abraçar o brega, o vergonhoso, o cringe de toda geração.

montagem de capa: Marina Franconeti

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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