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O documentário Marcel Proust, uma vida de escritor

Em dia de aniversário de Proust, acordo nostálgica e com carinho por esse autor. Já comentei no blog as memórias criadas pelo autor quando pude ler um de seus livros na Sorbonne e a magia que aconteceu depois que terminei o segundo volume. Celebrar o aniversário de Proust é destacar esse empreendimento heroico que foi redigir sua grandiosa obra publicada em sete partes, Em Busca do Tempo Perdido, entre 1913 e 1927.

Coletar a quintessência da vida e da palavra fundadas no tempo e na memória, esse foi o trabalho magistral de Marcel Proust na literatura. Uma das obras mais importantes do século XX, talvez aquela que manifestou uma singularidade absurda, é o tema do documentário Marcel Proust, uma vida de escritor, disponível abaixo com legendas em português.

Longe de dizer que a escrita deve ser apenas um trabalho árduo e carregado de sofrimento, gosto de enfatizar o que levou Proust a escrever essa imensa obra: foi a morte. Proust perdeu os pais e, com a pequena fortuna da herança materna, se isolou no apartamento, criando um espaço para os seus hábitos de escrita: montou um isolamento acústico em seu quarto por conta de uma sensibilidade aos ruídos e se isolou do mundo exterior.

Com a saúde debilitada pela asma, Proust cria esse monumento literário deitado em sua cama, escrevendo a noite inteira. No cenário da Primeira Guerra Mundial, Proust permanece em Paris e, isolado, contrata uma governanta com um papel muito importante para a obra, Céleste Albaret, entrevistada pelo documentário. Amiga fiel, Céleste é quem mantém o manuscrito do autor em dia, agregando os pedaços de anotação revisados por Proust, organizando todos os acréscimos. Praticamente uma costura por quatro mãos de um texto todo intrincado, de um papel que se desdobra em outro.

Foi nesse contexto que a obra nasceu, de um homem enfermo, isolado, que pelo luto buscou recuperar a memória de uma vida inteira. A infância de seu narrador Marcel em Combray, constituída pela inocência e pela fé, atravessa a imensa obra Em Busca do Tempo Perdido, que nada mais é um conjunto em que escritor e narrador se fundem, procurando a si mesmos na própria vida. Em Busca do Tempo Perdido é, sem dúvidas, uma obra formadora para escritores e leitores.

Intriga demais o fato de que hoje Proust é visto como autor inacessível, prolixo, do qual se foge sem conhecê-lo. Para ler Proust, só se precisa respirar, degustar a palavra no seu próprio tempo de leitor. E não importa se durante a vida houver momentos em que a leitura não funciona, isso só revela que o livro é parte da experiência.

A maior ironia, que o documentário mostra, é que em sua época Proust foi visto como mundano, nada dessa aura que se criou em torno dele como autor prolixo. O maior mérito do documentário é mostrar que Proust era como nós, e nos deu os vestígios da vida em forma de presente em uma coleção de livros.

Proust está mais próximo de nós e de nossa consciência do que se imagina. Foi um jovem que perseguiu o mistério da vida mundana dos salões e dos encontros aristocráticos, das vivências em casa com os parentes, as paixões de um jovem e suas referências. E era nessa trivialidade que ele conseguia pinçar exatamente o que sentimos vivendo: o chamado da vocação, os amores, as decepções, a memória das fases da vida.

Um souvenir, uma lembrança de uma sensação antiga, oriunda da infância, que vem com uma força misteriosa não se sabe de onde, que nos acomete e faz o tempo ficar em suspenso. Proust faz dessa sensação tão delicada e comum o motivo de sua obra. Pois escrever Em Busca do Tempo Perdido significou a ele recuperar o que tinha da própria vida, escondido por debaixo do luto.

Não, eu ainda não atravessei todos os sete volumes. Espero fazer isso, escrever sobre a leitura, na própria lentidão da experiência. Por enquanto vivenciei algo extremamente profundo com o segundo livro. Mas se posso sempre fazer um convite, no dia em que Marcel nasceu, para alguém por aí…que mergulhe em Proust. Deitado em sua cama, tomando um chá, comendo um bolinho, relembrando de sua própria vida. É esse o convite doce de Proust, olhar a vida.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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