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Studio Ghibli | O serviço de entregas da Kiki: o descanso para voar

No dia em que assisti à animação do Studio Ghibli, de 1989, O serviço de entregas da Kiki, foi com um apelo ao descanso. Estava exausta da ansiedade, das inseguranças por produtividade, me sentindo no limite do esgotamento mental, com mestrado em quarentena. Então resolvi voltar ao hábito de ver animações, pela saudade da infância. E não imaginava que o filme me diria exatamente para descansar e tudo o que eu precisava ouvir.

O serviço de entregas da Kiki conta a história de Kiki, uma bruxinha aprendiz de treze anos, que precisa deixar a família para se instalar em alguma cidade e trabalhar a fim de descobrir como seu poder pode servir às pessoas. Quando Kiki inicia sua viagem voando em sua vassoura com o gato Jiji, passa por ela, no céu, uma garota extremamente segura, muito certa de seu valor, com um grande talento e experiência, mas se sentindo superior aos outros por isso. Logo Kiki se sente menor, com medo de descobrir que seu poder não servirá a ninguém.

Ela se instala na cidade e logo descobre que seu talento, como uma bruxinha que voa em uma vassoura, pode ajudar pessoas em atividades comuns do dia a dia. Ela abre seu negócio, o serviço de entregas da Kiki, numa padaria, e em troca recebe moradia e um gesto generoso dos moradores.

O mundo do trabalho

O filme apresenta de forma sutil alguns ensinamentos. Primeiro, Kiki está em fase de crescimento e quebra da inocência. Ela ainda não sabe seu valor, também sofre dessa demanda que conhecemos muito bem, de encontrar alguma utilidade para o que fazemos. De ver nosso talento, no caso o da bruxaria, reconhecido e validado pelo mundo.

Kiki tem seus primeiros abalos quando constata que não é tão fácil assim. Nem justo. Em sua família, seu valor é incomensurável. No mundo, ela se confunde com tamanha demanda, com tanta gente e nenhuma orientação, sem saber com criar vínculos.

Mistura-se, então, ao talento da bruxaria, o sentido ambíguo do trabalho no mundo capitalista. Encontrar uma utilidade nem sempre é um bom caminho. À primeira vista, pode parecer que o roteiro nos diz apenas “trabalhe duro”, naquela lógica workholic de trabalhe enquanto os outros dormem. Mas não é isso: o roteiro tem uma sagaz virada de sentido. O trabalho tem valor em si se possibilitar que as pessoas se conectem umas às outras, ou seja, só há sentido se produzir algo de bom para si mesmo e para o coletivo. Ele pode ser um trabalho simples, mas tudo pode ser diferente se houver generosidade na forma com que ele se situa no mundo.

O valor de Kiki se expande mais pela convivência e pela ajuda que fornece aos outros do que pelo dinheiro que acumula (mesmo que necessário) a partir de seu serviço. O senso comum do trabalho, de que nunca devemos parar, sofre uma virada no filme muito significativa.

Arte acontece com a vida

Em determinado momento, Kiki tem uma crise com seus poderes. O cansaço se instala, e ela acha que seu valor está sustentado apenas no dom de voar. Ela ainda não sabe que seu espírito vale mais do que a vassoura quebrada. É aí que Kiki conhece a artista Ursula.

Isolada na floresta e vivendo com os corvos, Ursula também tem um lado bruxa. Como artista, ela parece evocar a magia pelas tintas da mesma forma que Kiki consegue voar. Não é, porém, um dom que ocorre naturalmente: para ambas envolve trabalho, praticar o voo, sentir, pensar e observar as coisas. E, por ser um trabalho de ordem tão delicada, ambas precisam descansar. Na verdade, todos precisam.

Ursula é o contato de Kiki com o mundo e com ela mesma, com uma garota que sente o mesmo que ela em relação àquilo que lhe é mais íntimo, seu amor pela bruxaria. Mas como voltar a voar?

A artista, então, dá muitos conselhos.

“Pintura e poderes mágicos são parecidos. Às vezes não consigo pintar nada”.

É mesmo? E o que acontece? Eu costumava voar sem fazer nenhum esforço. Agora nem lembro mais o que devo fazer.

“Em horas assim, eu pinto mais. Para esquecer minhas frustrações”

“Mas se não posso voar…”

“Então eu paro. Vou dar uma volta, aproveito a natureza, relaxo. Então de repente consigo pintar novamente”.

Curiosamente, esse filme foi me encontrar em situação semelhante. Passei quatro meses sem pintar no ano passado, não havia vontade, ideias. Não encarei de modo negativo, eu sabia que voltaria e só soltei. Às vezes eu me acho muito mais sábia em relação à pintura do que à escrita, mas em ambas as atividades, elas sempre voltam, são fluidas, não exigem de nós produtividade todo dia. A pintura voltou depois disso, mais lenta, mais presente, menos desenhos, mas significativos.

Apesar de muitos autores argumentarem que não podemos ficar esperando pela inspiração e que envolve trabalho, não acho que digam com frequência que esse trabalho é feito por fases de criação mais ativa, de descanso, de pensamento, conversas, anotações, rascunhos. Não há padrão. Há fissuras, fragmentos temporais minúsculos e delicados entre começar, fazer e terminar um projeto. Esse é o verdadeiro mistério da criação artística, as explicações não dão conta totalmente do seu modo de acontecer na vida. Simplesmente por esse detalhe: a criação acontece situada na vida e se alimenta por ela.

Kiki passa exatamente por isso, abrir espaço para o descanso, para a vida e para si mesma existir além de seu talento, de sua atividade, de seu gatinho companheiro. Isso vale para pessoas que não são artistas nem bruxas: somos muito mais do que o mercado de trabalho nos diz que somos. Nosso corpo tem um valor além do trabalho diário e seu sentido produtivo.

O simbolismo da pintura

Só aproveitando que falei da pintura de Ursula, vale selecionar essa que é a melhor cena do filme, quando vemos a obra de Ursula pelos olhos de Kiki. O quadro está na cabana de Ursula, sozinho, como se tivesse vida própria. Tem algo do traço do pintor Marc Chagall no desenho de Ursula. Um traço lúdico, uma garota leonina voando em um cavalo alado e um búfalo ao seu lado, os corvos e a floresta abaixo. Remete à pureza e à liberdade do voo de Kiki, a própria inspiração de Ursula.

A pintura de Ursula em O serviço de entregas da Kiki
A noiva e a torre Eiffel, de Marc Chagall, 1913

A pintura brilha com vida própria para o espectador e para Kiki, que se aproximam juntos da obra, resultado de inúmeros rascunhos, falhas, novas tentativas, tardes no telhado desenhando corvos, observando o mundo, uma obra inacabada porque Ursula continua a querer alterar a expressão da garota em seu desenho. Mas a obra que nós conhecemos é essa.

O maior ensinamento de Kiki está nessa pintura, a de que poderia voltar a voar, e que há valor suficiente nos momentos que classificamos como “intermediários”, parados. Não estão parados de verdade, os instantes de descanso têm tanta vida quanto os dias em que criamos intensamente. Vemos, ao fim, uma obra inacabada que passou por inúmeros instantes de vida, da criação intensa aos dias de dúvida e de pausa, e ela é majestosa precisamente por incorporar a beleza da marca do tempo vivo e mágico de um corpo que respira e cria.

O serviço de entregas da Kiki está disponível na Netflix.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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