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Razão e Sensibilidade, de Jane Austen

créditos: Marina Franconeti

Editora Penguin Classics (Companhia das Letras), Traduzido por Alexandre Barbosa de Souza, 504 pgs.

Em Razão e Sensibilidade, Jane Austen compõe um cenário sobre os amores e as desilusões de suas heroínas. Elinor e Marianne se encaixam, à primeira vista, nessa dualidade do título, enquanto a obra passa a destrinchar as particularidades entre razão e sensibilidade.

O livro conta a história de duas irmãs que se mudam para um chalé mais humilde, após a morte do pai. Seus principais bens ficam para o irmão mais velho. A vida recomeça de forma melancólica com o luto e o novo status social, da mesma forma que passam a conhecer outras pessoas: a sra. Jennings, o sr. e a sra. Palmer, o coronel Brandon, Edward e Willoughby. Romances se iniciam e desilusões passam a tomar lugar, revelando-se uma obra muito mais intensa e dramática do que se supõe.

A obra de Jane Austen foi escrita com as marcas de 1790 e publicada em 1811. Os conceitos que dão título à sua obra abarcam uma discussão profunda e vasta sobre o valor entre razão e sensibilidade abordada pela Filosofia. De modo muito geral, a sensibilidade significa um contato rápido com as sensações por meio da percepção, enquanto a razão já seria a faculdade ou capacidade pela qual os objetos na natureza são percebidos. Haveria, então, uma distinção entre a sensação a partir do que é percebido e os juízos feitos a partir das sensações e da percepção.

Na trama, essa questão ainda se soma à questão em torno das mulheres. Constantemente definidas como seres que tendem à sensibilidade, aos afetos, ao devaneio do romantismo e até mesmo a uma tendência a serem suscetíveis aos próprios nervos, a mulher por definição, no passado, seria desprovida de racionalidade.

Penso que existe um juízo e uma crítica a partir de Jane Austen na escolha do tema. Ela assume, à princípio, um discurso à favor da razão. Ao mesmo tempo em que ela transforma Elinor, essa mulher racional que emite juízos sobre as situações a sua volta e se controla diante da sensibilidade enorme de sua irmã, ela parece inverter a lógica um pouquinho ao final da obra e a trabalhar bem com as particularidades dos conceitos de seu título.

As heroínas da história

Marianne é uma leitora voraz, tem na eloquência romântica de poetas e escritores um eco de seus sentimentos, ou principalmente, uma influência de como mulheres deveriam agir emocionalmente. Ela se vê como uma heroína sedenta por grandes emoções. A sua relação com a obra de arte é passional e política, emite opiniões e máximas das quais está muito certa, mas que serão desconstruídas ao longo do romance.

Elinor, por sua vez, é a simplicidade de uma razão que seleciona também tendo em vista a utilidade. Para ela não faz muita diferença se Edward lê poesia com a paixão certa para os versos. Ela é doce, complacente, sua força se baseia no critério que tem de não ceder às emoções e ponderar tudo que chega até ela.

Marianne (Kate Winslet) e Elinor (Emma Thompson), em adaptação para o cinema ‘Razão e Sensibilidade’ (1995)

É compreensível a atitude das duas irmãs quando pensamos no século XVIII e XIX. Parece um conflito entre o Iluminismo e o Romantismo. Mas como mulheres, Marianne encena o ideário da beleza, de seu apelo impressionante à aparência, àquilo da ordem do sensível. Elinor já é a possibilidade da esposa perfeita por ser mediadora, cuidar da casa e de todos, imprimindo funcionalidade nas coisas.

Quando Marianne se vê numa situação realmente trágica, à primeira vista parece estar reagindo como uma mocinha de seu tempo (pelos clichês construídos por autores homens, né?). Porém, o que é mais admirável em Jane Austen é que ela toma partido por sua personagem. Nós sabemos quem está errado na história, e de algum modo Austen nos instala em um local de respeito pela dor de Marianne, muito distinto do que os autores homens de sua época faziam ao tratar das desilusões amorosas de suas personagens femininas, as quais muitas vezes sucumbiam à paixão como uma forma de punição pelo desejo.

Grande parte do livro é o sofrimento da desilusão de Marianne e de um homem que enganou essa jovem. Vale lembrar também que a história do passado do coronel Brandon revela isso, mulheres se equilibram numa linha muito fina quando se trata de amor nesse período, pois precisam se casar, mas podem ser iludidas com falsas promessas, terem a reputação destruída, empobrecer, engravidar, sem ter apoio algum da família. O grande dilema é sobretudo o tema do amor: casar-se pelo afeto ou por questão de sobrevivência? Onde reside o amor, nas palavras ou nas ações? Amor está no silêncio ou na eloquência dos românticos?

Marianne sofre o livro inteiro de forma aberta, não importa se estivesse no meio de pessoas desconhecidas. Sua sensibilidade tem algo de autodestrutivo, e ao mesmo tempo, algo de extremamente humano e corajoso. Revelar essa dor em vez de guardá-la, no centro de uma sociedade que causa isso às meninas, uma sociedade cheia de regras, é um tanto heroico.

Elinor também tem seu mérito de buscar construir uma visão crítica e sagaz das situações. Porém, mesmo sendo a partir dela que Austen nos diz que é necessário ter esse equilíbrio das emoções, eu ainda acho brutal a pressão em que Elinor é posta. Ela silencia a sua dor para auxiliar na dor de sua irmã. Além disso, ela silencia opiniões, e precisa segurar o mundo nas costas. Assume mais o papel de mãe para Marianne do que a Sra. Dashwood; precisa guardar o segredo de Lucy para não devastar a reputação das duas, mesmo tendo que ouvir a outra falar do homem que ela ama. Talvez o leitor sirva como um apoio silencioso para Elinor, nisso Austen escolhe bem qual heroína iremos acompanhar.

Apesar da autora pender mais a Elinor na trama, há uma passagem bem interessante em que Marianne se decepciona ao saber que a irmã sofria também em silêncio. Pois Marianne tinha como contraste esse ideário da própria irmã, a perfeição da racionalidade. Só que no fim, lá estava Elinor sofrendo escondido, como ela. Aos seus olhos, a irmã vira mais humana, e sua própria dor também ganha um espaço para ser vista com maior distanciamento. Marianne cresce porque ela passa a enxergar mais os outros.

É claro que, ainda assim, Austen inclui o casamento como desfecho para suas personagens. Mas é preciso dizer que não é de modo leviano: há uma construção temporal, mudanças de sentimentos, amadurecimento das personagens. Não são personagens rasas. Pois ao final, a racionalidade de Elinor cede um pouco ao amor e à sensibilidade, enquanto Marianne cria uma racionalidade baseada na construção de sua autoestima, ao ver que foi cuidada pelas pessoas a sua volta e que não merecia alguém volúvel que nunca colocou sua felicidade como prioridade. Faço apenas uma ressalva de que, ainda assim, Marianne precisa mudar muito mais do que a sua irmã, e aceitar um casamento que se encaixava mais nas convenções.

Em contraste a Elinor e Marianne, temos Fanny Dashwood e Lucy Steele. As duas não têm atenção alguma ao sofrimento dos outros. Isso só prova que a sensibilidade, em um significado mais direcionado ao sentimento e às emoções, não é inata às mulheres, pois essas duas outras personagens demonstram um total desvio de caráter: elas são detestáveis nas ações, uma não tem pena de deixar as jovens sem dinheiro e a humilhá-las; a outra manipula apenas para obter um casamento rico, e sabe do interesse de Elinor, mas faz questão de exaltar um amor que nem existia por parte dela e de Edward. Ambas têm prazer em ser cruéis e de usar as pessoas. Assim como as mães no livro passam por certa crítica de Jane Austen, pois a sra. Dashwood não orienta tanto Marianne; a sra. Ferrars abandona o filho sem nada, só porque não aceitaria um filho casado com uma jovem pobre.

No fim, continuo ainda a pensar que Jane Austen conseguiu incluir uma crítica ao abandono das mulheres, nessa pressão absurda de ter que ser emotiva e submissa demais (a ponto de não haver autoestima e quase morrer por um homem) e ser tão racional que suas emoções explodem ao fim, precisando silenciar sempre pelo bem dos outros, apesar dessa última ser mais sutil.

Elinor parece sair, em certa medida, vitoriosa por ter usado a razão a seu favor, mas ainda assim não dá para fingir que não foi à base do silenciamento de seu sofrimento. Marianne e Elinor parecem carregar não só duas faces da sensibilidade e da razão, mas pequenos detalhes complexos do que é sentir e pensar. Talvez a beleza da obra esteja em algo sugestivo que não aconteceu: o equilíbrio estava precisamente na união das irmãs, das faculdades. Se Elinor pudesse ter contado sobre o que sentia à irmã, juntas elas aguentariam o fardo e as questões, se tornando muito mais fortes.

créditos: Marina Franconeti

Ler também no blog: Homenagem a Jane Austen | Redescobrindo Orgulho e Preconceito

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

2 comentários em “Razão e Sensibilidade, de Jane Austen Deixe um comentário

  1. Gostei muito de sua análise, Marina, e gostaria de comentar alguns aspectos.
    Primeiro, quando vc diz que as irmãs precisam se mudar para um chalé mais humilde porque “Seus principais bens ficam para o irmão mais velho”, não é bem assim. TODOS os bens vão para o homem da família, não interessa se mais velho ou mais novo. Mulheres não podiam herdar ou ter propriedades e este, inclusive, é um dos motores da luta feminista das mulheres burguesas, que se inicia no século XIX.
    Achei muito interessante sua ideia da complementaridade entre as irmãs como uma possível “solução” (não achei palavra melhor) pra os extremos de passionalidade de uma e os de responsabilidade da outra. Mas outra aproximação que eu faria entre personagens seria entre Elinor e o coronel Brandon. Ambos são respeitáveis, equilibrados e racionais à primeira vista, mas trazem dentro de si um turbilhão de emoções que não permitem que venha à tona. O maravilhoso Alan Rickman, que fez o papel do coronel no filme, tem uma cena reveladora, que reputo como uma das mais intensas: a mudança em seu olhar quando Marianne, já se recuperando, o agradece. A expressão dele, na porta do quarto, permite entrever, por segundos, tudo o que está em seu íntimo e que ele volta a ocultar. Da mesma forma que o soluço de Elinor, a incrível Emma Thompson, ao descobrir que Edward não se casou com Lucy. São dois momentos em que o sentimento represado não tem como ser contido.

    Curtido por 1 pessoa

    • Iara, muito obrigada pelas suas considerações! De fato, todos os bens vão para o irmão mais velho, quando pensamos esses bens como moradias, outras casas da família, e até determinam o quanto elas vão ganhar por ano! É que eu pensei que pequenos bens, como prataria, coisas meio triviais, ficaram com as irmãs (o que vamos combinar, é absurdo: nada é delas, na prática).
      A Jane Austen trabalha Elinor e o coronel Brandon muito bem, como uma parceria que se entende no livro. O filme é maravilhoso, gosto exatamente desses detalhes que vc mencionou dos atores: no livro a Elinor sai do aposento, no filme Emma Thompson se desmancha em choro. O coronel pelo Alan Rickman é pura angústia no final, confesso até que meu carinho por Alan Rickman contagiou totalmente a leitura do coronel Brandon, ele é perfeito. Então eles estão lá o tempo todo sentindo, os detalhes denunciam

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