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Solar Power, o novo álbum da Lorde

Após um hiato de 4 anos desde que lançou Melodrama, a cantora e compositora neozelandesa Lorde lança um álbum novo, Solar Power, um retorno à vida pública. A cantora tinha um desafio e tanto diante do sucesso do anterior. Composto por um universo sombrio de decepções amorosas, juventude em crescimento, festas e a dor do dia seguinte, Melodrama é um álbum perfeito sobre sedução e ilusões, futurista e urbano. Ele melhora ainda mais com o tempo.

Solar Power, pelo objetivo de Lorde, é um álbum que deseja mostrar outra face. Como compositora e cantora que se apresentou em tours intermináveis, esse é um álbum sobre um merecido repouso e reflexão, e também uma busca por se desvincular de uma fase depressiva que, mesmo gerando uma obra, foi doloroso demais para ela.

Apoiada na vibe new age, Solar Power propõe uma leitura de Lorde da energia hippie em 2021, ela comenta criticamente sobre esse tema e a cultura do bem-estar ao falar da faixa Mood Ring. Pensando assim, a ideia é boa. Com tantas crises sócio-políticas se intensificando, eu andei pensando bastante sobre como se encaixam essas mensagens e o sentimento de esperança que havia nos anos 60 e 70, uma esperança desperta e consciente politicamente, diga-se de passagem. Não um mero escapismo privilegiado. Penso principalmente em Patti Smith, quando ela e Robert Mapplethorpe são “só garotos” sonhando outro mundo, mas um sonho real, porque a primeira coisa que governos autoritários tiram de nós é o sonho.

Solar Power não tem tanta pretensão assim de aprofundar uma visão crítica. Teria sido muito interessante ver Lorde lançar essas ideias em música ou mesmo pensá-la em um álbum futuro. Porque selecionar new age e as ideias hippies para esse período oferece muito material, já que a artista é uma das melhores vozes para falar de juventude e sempre abordou as oscilações de sentimento nessa era.

O álbum tem, então, nuances dessas ideias, porém é mais pessoal, quase um diário aberto dos últimos anos da Lorde. As letras de Solar Power têm comparações e metáforas poéticas já conhecidas do repertório da artista. É claramente um álbum que a mostra explorando outros estilos e vocais. Apesar da constante ser a juventude, Solar Power ainda soa diferente do restante do trabalho de Lorde, e pode causar estranhamento.

O público esperava muito desse álbum, sem dúvidas há uma pressão em torno do retorno de Lorde, e está sendo bom vê-la de volta. Acredito que pode ser um álbum que cresça com o tempo, que venha a agradar um pouco mais. Por ora, eu ainda estou digerindo, porque faz muita falta o estilo de Melodrama e Pure Heroine, mesmo que normalmente eu goste do recorte que Lorde faz, do tom ritualístico e de álbuns mais intimistas.

O álbum tem o problema de iniciar e terminar com excelentes faixas. The Path e Oceanic Feeling podiam dar o tom predominante de Solar Power, com adições de bateria e baixo, incluindo essa faixa que foi lançada como retorno da Lorde. A melodia meditativa soa repetitiva e, no decorrer do álbum, vai se desgastando, deixando de ser uma novidade. Ainda penso que era possível criar uma energia solar mais forte e instrumental, com variedade de melodias, passando a mensagem sem abandonar o estilo do projeto geral da artista. Por vezes, a beleza da voz rouca da Lorde se perde nos coros femininos constantes entre as faixas, os versos se repetem demais e cansam um pouco.

Então, em geral, sinto que The Path, Oceanic Feeling, Stoned at the Nail Salon, são pontos altos no álbum, tanto pelo arranjo quanto pela letra. Fallen Fruit e The Man with the Axe também colaboram para o trabalho. O que fez falta foi sentir que as músicas falam com a gente. Stoned at the Nail Salon, por exemplo, é o tipo de poesia que atinge com profundidade, é muito madura. Já algumas faixas de Solar Power parecem muito particulares, com um sentido maior para a artista, sem exatamente colaborar para a construção da faixa. Com outro trabalho de arranjo, talvez brilhassem mais.

Sei que é um erro esperar que uma artista faça um álbum que lembre o trabalho de outro artista. Mas, por exemplo, Solar Power vinha como uma promessa de leveza e positividade, inclusive um desafio para tempos como esses. Mais para o final da música ela finalmente abre para um refrão, mas muito baixo e sem apelo. E o trompete posto no final era a chance de amplificar alegria e o tom ritualístico que ela desejou inserir no clipe. Eu esperava um pouco de Elephant Gun, da banda Beirut, mas Solar Power veio como uma música com versos e refrão desencontrados demais.

Mesmo sendo a favor de que uma artista experimente diferentes gêneros, a execução não me parece ter sido tão bem-sucedida. Precisamente porque um álbum é um trabalho em conjunto, podendo ondular entre as faixas, mas que também precisa oferecer músicas que se sustentam sozinhas. O centro do álbum tem um ritmo parecido demais, se tornando cansativo e difícil de discernir entre uma faixa e outra.

Creio que a intenção foi fazer um álbum mais fluido, reproduzindo a calmaria e a tranquilidade, perdendo a chance de ser mais experimental nas referências. Fico imaginando como teria ficado uma mistura do urbano contemporâneo, que era marca de Melodrama, com o new age, justamente porque é o que tem de mais original em Lorde, teria mais sua marca do que o estilo de outra época. Fallen Fruit dá uma pequena amostra disso, e fica um gostinho de promessa. Talvez nessa busca por reproduzir determinado estilo de música, a poesia original das composições de Lorde tenha ficado em um tom menor, um tanto desvalorizadas pela escolha da melodia.

Ainda assim, venho acompanhando as apresentações da artista em programas como Late Nights with Seth Meyers, Late Show with Stephen Colbert e The Late Late Show with James Corden. Ver o álbum acontecer em versões acústicas é uma ótima experiência porque me parece que as músicas vão aos poucos ganhando mais materialidade. Pode ser o caso de que Solar Power renda shows intimistas bons, um descanso e uma alternativa diferente das tours gigantescas já enfrentadas pela Lorde.

Referências da artista

Em entrevista para o The New York Times, presente na Folha de São Paulo, Lorde comenta sobre algumas obras que a inspiraram nos últimos anos.

Ela leu How to do nothing, de Jenny Odell, que já me indicaram muito, sobre criar esse espaço para não fazer nada, numa sociedade que demanda atenção por estímulos a cada segundo. Rastejando até Belém, de Joan Didion, sobre o cenário hippie em Los Angeles dos anos 60.

No cenário da música, suas referências foram Mamas and the Papas, Joni Mitchell, Eagles, e alguns artistas do pop presentes na MTV em 2000, como Natasha Bedingfield, Nely Furtado e TLC.

As faixas do álbum

The Path é o início do álbum e, obviamente, deixa claro que a mensagem dela é uma jornada em direção ao sol, mas desiludida também, pois nem Lorde nem o eu lírico desejam “salvar ninguém”. Se em Writer in the dark, Lorde diz “eles vão todos me assistir desaparecer no sol”, a gente entende a continuação em Solar Power. Encontrar uma paz melancólica, construir uma busca espiritual, uma compreensão da vida e da depressão que pesa em Melodrama.

O clipe de Solar Power, música que vem na sequência, tem uma bela fotografia, boas ideias de cenas isoladas entre os grupos que participam desse encontro seleto e quase ritualístico na praia. Mas é extremamente desanimado para passar o sentido de celebração. Ninguém dança, fica todo mundo parado, até algumas transições de cena, com a Lorde correndo, não se encaixam. E a melodia escolhida para a música não transmite suficientemente bem a mensagem de que acabou o inverno e agora há esse milagre agradável do sol e da mudança de estação. Deveria ser a faixa mais intensa no todo do álbum, mas o restante parece uma repetição dela, em mesmo tom.

California e Stoned at the Nail Salon são boas faixas no álbum. Elas se complementam, porque trazem uma história de amor que logo se converte em um relacionamento desigual. Ironicamente, o eu lírico não deseja mais ter o amor solar da California, mencionado na sequência. Stoned at the Nail Salon tem essa ironia de trazer reflexões com a desculpa de se estar chapada com o cheiro dos esmaltes no salão. A música é feita de ótimos versos extremamente bonitos: “a planta subindo pela porta e o cachorro que vem quando eu chamo”, “o sangue fervendo por vários verões, mas agora é hora de esfriar um pouco”. “As músicas que ouvíamos aos 16 anos mudam”. “Passe um tempo com as pessoas que te criaram, porque todo instante que eles mudarem, tudo muda também”.

Esta apresentação da Lorde de Stoned at the Nail Salon ficou linda

O tom ritualístico continua com os coros femininos e Fallen Fruit é um exemplo bem evidente, de mulheres em torno do fruto caído da árvore. Esta faixa tem o arranjo musical mais criativo no todo do álbum, porque ele sofre um breve corte que retoma o ritmo marcante de Melodrama e Pure Heroine. Parece um conflito entre angelical e diabólico. Mas, infelizmente, esse corte dura pouco, teria sido interessante se a segunda parte tivesse preservado essa dualidade de sons.

Secrets from a Girl (Who’s Seen it All) lembra um pouquinho Love’s Club, de Pure Heroine, tratando de crescimento e juventude, ter 15 anos e de repente dez anos se passaram. É praticamente uma carta aberta de Lorde para si mesma, com uma energia positiva sobre o tempo e seu final é bem-humorado, como se crescer fosse um voo impossível de ter uma aeromoça para nos direcionar e nos acalmar no trajeto, pois nada é seguro.

The Man with the Axe tem a doçura e a melodia mais lenta de uma canção de amor, que se desloca do tom restante do álbum, e é muito boa e madura. “Uma garganta cheia de pânico em dias de festival”, é mais uma faixa sincera sobre os conflitos com a fama, as palavras e o amor.

Dominoes conta uma historinha e tenta retomar um pouco das músicas dos anos 60 traz um tom leve. Big Star já trata de maiores conflitos entre relacionamentos e retoma a ideia de sair de casa em direção ao sol, com a melancolia de se despedir das festas e dos voos de avião. Leader of a New Regime traz a ironia de desejar outro regime, alguém que lidere além da paranoia. Essa música faz uma transição para Mood Ring, uma leve sátira a esse mundo contemporâneo onde se busca respostas por misticismos, uma face também muito humana diante do medo e da vontade por transcendência. Quem não gostaria que um simples anel de humor dissesse facilmente como nos sentimos?

Por fim, Oceanic Feeling é excelente e fecha o álbum com um pouco mais de intensidade nos arranjos, uma melodia que poderia ter sido a predominância do álbum.

Agora o batom cereja escuro está acumulando poeira em uma gaveta

Eu não preciso mais dela

Porque tenho esse poder

Eu só tinha que respirar (expirar, expirar, expirar)

E entrar em sintonia

(…)

Oh, a iluminação foi encontrada?

Não, mas estou tentando, tomando um ano por vez

Oh, você consegue ouvir o som?

Está tremulando mais alto

Na praia, estou construindo uma pira

(Usei a madeira trazida pela maré)

Eu sei que você vai me mostrar como saberei

Quando é hora de tirar meu robe e entrar no coro

Já comentei aqui no blog sobre a adolescência pelas músicas da Lorde, abordando seu primeiro álbum, Pure Heroine.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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