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Zen e a arte da escrita, de Ray Bradbury: a construção de uma rotina febril

créditos: Marina Franconeti

BRADBURY, Ray. Zen e a arte da escrita. Tradução de Adriana de Oliveira. São Paulo: Leya, 2011.

Eu comprei o ebook de Zen e a arte da escrita por acaso, dois reais, mais barato que um cafezinho. De forma inesperada, eu me vi encantada lendo as palavras de Ray Bradbury, sem conseguir parar. Dada as circunstâncias do cansaço, vinha de uma ressaca literária e parece que Bradbury me tirou dos confins do mundo sem livros para me lançar novamente a esse amor infindável pela palavra escrita.

Autor do consagrado Fahrenheit 451, o grandioso livro sobre a resistência em um mundo em que livros são queimados, Ray Bradbury nos conta nessa antologia sobre várias considerações em torno da escrita. Com ensaios bem-humorados e íntimos, ler Zen e a arte da escrita é o mesmo que convidar o autor para se sentar na varanda e apreciar um café com bolo enquanto ele conta suas paixões e histórias.

São ensaios publicados em diversas antologias no decorrer das décadas de carreira do autor, reunidas agora nessa edição pela Leya, um conjunto variado para autores iniciantes e experientes, meros curiosos pela obra de Bradbury, ou quem simplesmente gosta de ler sobre escrita.

Os ensaios Alegria da escrita (1973), Corra, pare, ou a coisa no topo da escada (1986) e Como manter e alimentar a Musa (1961) trazem os temas comuns das grandes perguntas que se fazem aos escritores: como ter inspiração? Pelo o que escrever? De onde vêm as ideias? Bradbury vence o clichê dessas perguntas por nocaute com sua escrita deliciosa, demonstrando que escritores precisam alimentar a Musa com o mundo interior, aquele passado escondido na nossa própria mente, alimentando-a com trabalho e a alegria, elemento central para enfrentar depois as horas de revisão. Escrever é encarar nos olhos a Coisa que nos espreita na escuridão, no topo da escada à meia-noite.

Seremos meio autores se encararmos a literatura sem alegria, o autor “deve ser uma coisa de febres e entusiasmos”. Não é uma alegria dócil e cega, mas a da criança que brinca e testa ideias loucas sem cair em armadilhas absurdamente analíticas. Eu mesma me senti confrontada por Bradbury, porque já tenho aqueles projetos que pensei à exaustão, para então vir o autor e afirmar que não se vence querendo bater na ideia até extraí-la. Existe uma espontaneidade misteriosa também nas ideias e nos personagens que falam no primeiro rascunho.

Bêbado e no comando de uma bicicleta (1980) traz comentários dos bastidores de criação de alguns dos contos do autor. Investindo moedas: Fahrenheit 451 (1982) é sobre a loucura de Bradbury para escrever o famigerado romance: alugando uma máquina de escrever na biblioteca, ele tinha meia hora para 10 centavos, foram 9 horas e 9 dólares diários para produzir palavras. Em nove dias, terminou o primeiro esboço do livro com 25 mil palavras, a metade do romance, e justamente numa biblioteca, cercado de livros que seriam queimados no universo de sua obra. Apenas este lado de Bizâncio: O vinho da alegria (1974) é o relato de outro romance do autor.

Já o ensaio Sobre os ombros de gigantes (1980) é mais temático, trata-se do valor da ficção científica para a juventude. Pela primeira vez, Bradbury testemunha as crianças crescendo e, ao se tornar professores, levam para a sala de aula as histórias de ficção científica. Ou crianças confrontam seus mestres com essas histórias mágicas. Imaginem, hoje falamos de Bradbury, Ursula Le Guin, Asimov, Huxley como se desde sempre a ficção científica (e a fantasia também) fossem enredos tranquilamente aceitos em sala de aula e ambientes acadêmicos. Mas esses autores não nasceram clássicos, e ironicamente muitos livros já foram queimados, seja no fogo literal, seja no fogo da crítica. E até hoje ainda há resistência sobre o valor desses gêneros literários que falam demais sobre nossos tempos.

Em A mente secreta (1965), o autor conta sobre a experiência escrevendo peças e o roteiro de Moby Dick para o cinema, afirmando que sobre os projetos “tentar saber antes é congelar e matar”. O público também precisa ter participação, e o autor não é capaz de antecipar as emoções de todos ou querer escrever apenas para provocá-las. Além disso, nem imaginamos o quão ricos somos de ideias quando deixamos que as histórias por si mesmas nos ensinem coisas ou nos obriguem a voltar para o nosso inconsciente.

Por fim, O zen e a arte da escrita (1973) e Sobre a criatividade encerram a antologia, o ensaio dando nome ao livro, e esse último sendo um compilado de poesias do autor. Em zen e a arte da escrita, Bradbury resume seu método em “trabalho, relaxamento, não pense!”, podendo ser alternado como desejar. Isso significa não se prender aos pensamentos em relação ao público, aos círculos literários, ao dinheiro e à fama, nem ao planejamento excessivo. Deixar explodir com a frequência do trabalho, a única forma de se relaxar com o tempo porque simplesmente a escrita está aí, acontecendo finalmente como combustível da vida.

Devorei os primeiros ensaios com fervor e percebi que o autor teve um efeito maravilhoso nos meus dias: resgatei rascunhos antigos de contos não terminados, ideias novas também surgiram e avancei para o papel levando comigo a simplicidade dos conselhos de Bradbury. Nasceram alguns contos que eu nem sabia que a ideia existia em mim, detalhes que vêm da minha infância, quase evocados magicamente nessa conversa linda que é ser leitor e falar com os antepassados. Parece que Bradbury conversou comigo esses dias, e veio para sacudir a poeira do desânimo e da inanição.

Terminei Zen e a arte da escrita em um suspiro de autora renovada. Como se Bradbury gritasse, do alto de um dinossauro, “corram atrás da palavra e não parem!”.

Ray Bradbury em sua mesa

Alguns conselhos de Ray Bradbury

Personagens: “Encontre um personagem, como você, que vai querer ou não querer algo com todo coração. Mande-o correr. Atire-o para fora. Depois o siga o mais rápido que puder. O personagem, em seu grande amor ou ódio, vai empurrá-lo até o final da história”.

A alegria: “Hoje à tarde, incendeie a casa. Amanhã, espalhe água fria da crítica sobre as brasas incandescentes. Mas hoje exploda, esmigalhe, desintegre! Os outros seis ou sete rascunhos serão pura tortura. Então, por que não curtir esse primeiro, na esperança de que a sua alegria procure e encontre outras pessoas no mundo que, ao lerem a sua história, vão pegar fogo também?”

Ritmo: “corra, pare. Eis a lição dos lagartos”. Manter esse ritmo entre correr e contemplar, pois hesitar demais é deixar que o pensamento interfira criticamente a todo instante.

A lista de palavras: comecei a usar essa técnica do autor e é sensacional. Simplesmente comece listas de substantivos e depois separe alguns para escrever pequenos contos. Subitamente o inconsciente começa a vir à tona, com memórias de infância, cenas e imagens escondidas na imaginação. A lista evoca ideias mais sinceras e originais quando baseadas em impressões muito pessoais.

Um simples método diário: Bradbury, nos seus 20 anos, escrevia o primeiro esboço de um conto na segunda, no restante da semana trabalhava em outros esboços do mesmo conto, e no domingo pensava em todas as ideias selvagens que disputavam sua atenção. E começava mais uma vez. Assim, envolvia-se em um conto por semana, 52 contos por ano. Eu diria que, para dar certo, precisa fatiar em pequenas metas, e um conto curto por semana é um bom jeito de se firmar.

Quantidade será qualidade: fazer de mil a duas mil palavras por dia nos próximos vinte anos. Parece uma loucura. Mas Bradbury diz que não teve um dia sem escrita em sua vida.

Leitura: ler poesia todos os dias, como um exercício para os músculos e os sentidos. E claro, ensaios, romances, quanto mais variada a dieta de escritores, melhor.

Publicação e a crítica: “Não dê as costas, por causa da vaidade de publicar coisas intelectualizadas, ao que você é: o seu material é que faz você individual e, portanto, indispensável para os outros”. Não adianta escrever somente para os outros, porque a originalidade curiosamente está vinculada a projetos que são muito íntimos e caros aos autores, advindos de impressões ricas a partir do próprio modo de perceber o mundo. Até porque cada autor glorificado na história da literatura é diferente uns dos outros.

“Nunca mais dei ouvidos a qualquer um que criticasse o meu gosto por viagem espacial, shows populares ou gorilas. Quando isso acontece, eu embrulho meus dinossauros e deixo o ambiente”.

Para conhecer um pouco de Ray Bradbury, uma conversa com o autor:

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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